Mulheres e não estereótipos
A grande dificuldade dos ficcionistas masculinos, não
importa qual seja sua experiência ou cultura, é a criação de personagens
femininas verossímeis. O desafio, no caso, não é o de descrevê-las fisicamente.
Nesse aspecto, a imensa maioria é aprovada com louvor. Salvo se for algum
principiante, desatento e atrasado que as descreva como gostaria, ou como não
gostaria que fosse, os demais não pecam por excessos. Ou, pelo menos, não
muito. O problema todo está em retratar o perfil psicológico das mulheres que
“criam”. Ou seja, o que pensam, do que gostam, o que sonham etc.etc.etc. e as
respectivas motivações de tudo isso. A tendência, nesse aspecto, é a de
estereotipar personagens femininas. É a de, ora “divinizá-las”, ora “demonizá-las”,
ou seja, a de criar figuras caricatas e irreais, mesmo que “bonitinhas” (ou
horrorosas).
Nesse aspecto, Machado de Assis foi exceção a essa regra.
Poucos escritores criaram tantas personagens femininas marcantes, dessas que
nunca esquecemos, por “cruzarmos” com elas no nosso dia a dia, que são, agem e
pensam como elas, quanto ele. E não me refiro, apenas, a Capitu, obra-prima de
criação literária, que 116 anos após ser apresentada ao público, ainda segue
causando admiração (diria “frisson”) no público e intrigando leitores, na
dúvida jamais esclarecida se essa mulher enigmática traiu ou não traiu
Bentinho. Antes e depois dela, o Bruxo do Cosme Velho havia criado, e criou,
personagens femininos tão ou mais fascinantes que esta tão especial, quer em
seus nove romances, quer em seus mais de duzentos contos (sem falar nos poemas
que escreveu). Não “divinizou” e nem “demonizou” nenhuma delas. Não as
estereotipou. Criou-as exatamente como as mulheres de seu tempo eram (e como as
de hoje são). Também neste aspecto, portanto, foi um fenômeno.
A Literatura Brasileira está repleta de personagens
femininas marcantes. De Jorge Amado, por exemplo, podemos citar Gabriela, Dona
Flor, Tieta e tantas e tantas outras. Érico Veríssimo, por seu turno, criou Ana
Terra e outras tantas mulheres fortes e corajosas, dessas que ficam retidas na
memória e que não esquecemos jamais. Não podemos esquecer, também, de Diadorim,
de João Guimarães Rosa, em “Grande Sertão, Veredas”, que se traja e age como
homem, mas que, ao fim e ao cabo, cede aos instintos femininos. Poderia citar,
ainda, dezenas, centenas, quiçá milhares de escritores e personagens que
ficaram, justamente, marcados na literatura nacional. Não se afirma, pois, que
Machado de Assis seja o único a criar personagens femininas minimamente
verossímeis. Mas, com todo o respeito a esses autores – tanto aos que citei
quanto aos que somente cogitei – nenhum deles, mas nenhum mesmo, sequer se
aproximou, quer em quantidade e quer em exatidão, do festejado autor de “Dom
Casmurro”.
Capitu, por exemplo, é imbatível em qualquer aspecto que se
considere. Literalmente ganha vida na pena de seu criador. Tem personalidade e
mantém dignidade, mesmo sob suspeita de adultério, que até hoje ninguém tem
certeza se foi ou não culpada. É original, é ímpar, é única em Literatura,
posto que na vida real pode ser encontrada aos milhões, quiçá aos bilhões de
mulheres do seu e do nosso tempo. Maria Lúcia Silveira Rangel escreveu, em
texto publicado no nº 17 da “Revista Literária Brasileira” que Capitu é a
“personagem mais discutida, a mais famosa, e seria repetição falar sobre a
grande dúvida em que o escritor deixa o leitor sobre o adultério da esposa de
Bentinho – o romance abre-se num leque com opções a favor ou contra o
fato". E não é?!!
Sofia Alves, em texto em que opina na excelente enquete do
site Homo Literatus sobre “catorze personagens femininos inesquecíveis” da
Literatura mundial, escreve o seguinte
sobre a protagonista de “Dom Casmurro”: “Nele (no romance de Machado de Assis)
encontramos a envolvente e dependente história de amor entre a grande mulher e
Bentinho, que se conhecem desde a infância e que, com o passar do tempo,
descobrem o mundo e a si mesmos em uma relação de constante desconfiança e
possessividade. A notabilidade de Capitu, enquanto mulher, é observada desde
muito cedo na narração, o que mostra quão avassaladora a personagem esculpida
por Machado é. Seus olhos de ressaca que afogaram Escobar e Bentinho são marca
na história da Literatura e fazem perfeita metáfora com seu ser: basta imergir-se
naquele mar esverdeado por muito tempo para esquecer de si até tornar-se
inconsciente e nada mais ser. Moderna para uma figura surgida em 1899, Machado
personificou em Capitu valores absurdos à época, tais como o adultério e a
exploração da sensualidade feminina”.
Mas Capitu não é a única mulher marcante, entre as
personagens do Bruxo do Cosme Velho, com sua infinidade de “bruxarias”. Podemos
citar, por exemplo, Fidélia e Carmo, de “Memorial de Ayres”. Ou Flora, de “Esaú
e Jacó”. Ou Virgília e Marcela, de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Ou
Guiomar, de “A mão e a luva”. Ou Lívia, de “Ressurreição”. Ou, como acentua
Miriam Fajardo, no blog “Tribo da Leitura”, “a profusão das protagonistas de
inúmeros contos — como ‘Missa do galo’, ‘Capítulo dos chapéus’, ‘Singular
ocorrência’, ‘Uma senhora’, ‘Trina e uma’, ‘Primas de Sapucaia’, ‘Noite de
almirante’, ‘A senhora do Galvão’, ‘Uns braços’, ‘D. Paula’, Rita, em ‘A
Cartomante’, que encenam vários tipos femininos e situações com as quais as
mulheres se defrontam na vida comum, podendo mesmo ser classificados como
Estudo sobre o feminino, ao demonstrarem a sensibilidade de Machado no trato de
questões que envolvem moral, ética, preconceito social, autoritarismo, amor,
ciúme e adultério”.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Um complexo perfil psicológico se torna natural para o autor.
ResponderExcluir