Perfume de gardênia
* Por
Mário Prata
O inicio todo começou
com o talquinho na bundinha do bebê, quando o homem nasceu. Mal sabiam os pais
onde aquilo iria terminar. Sem falar no óleo Johnson e no Nenedent.
Mas, pouco a pouco, o
menino foi crescendo e percebendo que aquele negócio de talquinho e oleozinho e
perfuminho e outros inhos eram coisas de menina. Que homem não usava nem talco
e nem perfume, oras! Imagina!
Banho, na tenra e
imunda idade, o menos possível. E mesmo quando enganava lá dentro, mal usava o
sabonete. Mas vinha a mãe a olhar atrás da orelha. Volta para o banheiro,
menino. Ali, pelos dez anos, foi convencido definitivamente a usar o sabonete.
Contrariado, mas foi. Pensa que as visitas não reparam?
E escovar os dentes –
pelo menos antes de dormir? Tudo bem, tudo bem, ficava com um gostinho bom na
boca. Começaram a inventar uns dentifrícios (naquela época era assim que se
chamava) com sabores outros e ele acabou aceitando perfumar a boca. Mas apenas
a boca, porque ele era homem e etecétera. Alguns amigos até passariam pelo
Halitol, anos depois.
Chega o começo da
adolescência e o suor debaixo do braço começa a incomodar não a ele, mas aos
outros. Quando ele percebe que incomoda também às outras, sucumbe ao
desodorante. Tudo porque ele descobriu que existiam desodorantes fabricados
especialmente para eles, homens. Com cheiro de homem! Nesta mesma idade começa
a passar um negócio chamado brilhantina nos cabelos para manter as melenas mais
ou menos ajeitadas. Aquilo empapava e brilhava.
Lá pelos dezoito anos,
quase horrorizado, percebe que alguns amigos estão usando xampu, coisa
tipicamente feminina. Ou viado! Xampu, jamais! Era só o que me faltava. Quando
ele nota que é o único da turma a lavar o cabelo com o velho sabonete, resolve
– um dia, meio escondido – experimentar o fêmeo artefato. E não é que o cabelo
ficou mais assentado, cheirozinho?
Xampu, tudo bem, mas
condicionador, em hipótese alguma!, nem morta! Definitivamente, não! Mas já que
estava mesmo lá um dia debaixo da ducha e olhando o condicionador da irmã por
ali, como quem não quer nada, não custa, besuntou-se. Meu Deus, como ficou
macio! Como teve uma ereção durante a noite, sentiu-se firme. Continuava homem,
apesar de já um pouco condicionado.
Um dia perguntou para
a mãe pra que servia aquilo. Ah, isto é para hidratar a pele. Você nunca usou,
meu filho? Experimenta. Veja como as suas mãos vão ficar macias. Usou e gostou.
Mas achou o perfume um pouco – digamos – feminino. Foi até a farmácia da
esquina, olhou para um lado, para o outro e perguntou com voz firma: tem
hidratantes com que cheiro? Perdão, flagrância… Tem pra homem?
Pouco tempo depois,
viu na televisão um famoso jovem ator de novela fazendo um anúncio de
desodorante. Ao passar de uma axila (que palavra!) para a outra, dava uma
borrifada no peito. Como é que eu não pensei nisto antes? Gostou tanto que
começava a função já pelo peito peludo e másculo, bem mais masculino que o ator
que lhe deu o toque.
Ali, pelos trinta e
cinco, já começa a frequentar a sessão de cosméticos das farmácias com uma
certa naturalidade. Cheira antes, coloca nas costas das mãos. Principalmente
para o pós-barba, onde agora passa uma loção genial. Começa a variar os odores.
Sente-se bem, com a cara lisa, brilhante e perfumada.
Dizem que já anda
passando desodorante nas partes íntimas. Daí para uma gotinha de um perfume
(for man, of course) atrás de cada lóbulo da orelha, o que é que custa? Uma
gotinha de nada. Um pequeno gesto para o homem, um grande passado para a
humanidade.
E agora, aos sessenta,
antes de sair, olha-se no espelho, aspira o ar profundamente, dando uma tragada
em si mesmo. Perfume nos cabelos, na pele do rosto, nas axilas, no peito, na
boca, nas partes íntimas. Fora o creminho para chulé lá embaixo. Unhas feitas
nas mãos e nos pés. Os pés ele ainda justifica dizendo que gosta do nome
podóloga.
Ou seria pedóloga? Ou
pedófila?
Inebriado por tanto
perfume, mal consegue raciocinar direito. Mas olhando assim no espelho, ainda
pensa como antigamente:
– Quem é que vai
querer esta bicha velha toda perfumada?
E foi passar talquinho
na bundinha no netinho, meio encafifadinho.
* Escritor
e jornalista
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