É
difícil...
A
vida nos impõe uma série de obstáculos, de longo, médio, curto e
curtíssimo prazo, que nos desafia a superar. Quem tem garra e
consegue evitar a erosão da autoconfiança; quem persiste com a
convicção dos vencedores, quem age com competência mesmo sem
contar com apoio e motivação, é “possível” que vença e
atinja seus objetivos. Certeza, certeza mesmo, não se tem nenhuma.
Ou melhor, tem-se uma, que não é nada agradável. Quem não agir
dentro do figurino citado, pode estar certo de que o fracasso vai
ocorrer, sem recursos ou remissão.
É
difícil, por exemplo, a quem lida com ideias
– jornalistas, escritores, filósofos etc. – produzir, todos os
dias, um texto original, útil, rigorosamente correto e coerente com
determinada linha de pensamento e que, sobretudo, desperte o
interesse geral, sem sofrer contestações ou sequer restrições de
quem quer que seja. Este é o sonho do redator, que tem a obrigação
de gerar, diariamente, uma coluna em jornais (por exemplo) ou mesmo
em blogs ou sites na internet.
Quem
consegue a aprovação, digamos, de 10% dos que leem
o que escreveu, já pode se dar por satisfeito. Ainda quando as
contestações e restrições são explicitadas, as coisas não são
tão ruins. O pior é a omissão. É quando o texto que você
produziu com tanto carinho e, não raro, com muito esforço, não
repercute. Quando você não sabe se agradou ou não seu
destinatário, o leitor. Quando tem que escrever no dia seguinte, mas
sem contar com nenhum parâmetro ou referencial que lhe indique se
deve continuar na mesma linha que vem seguindo ou se precisa
alterá-la, às vezes radicalmente, para finalmente alcançar o
objetivo maior de quem escreve: o de ser lido.
Como
se vê, é difícil, muito difícil. Mas o elenco de dificuldades não
se restringe a isso. Antes se restringisse. Passa por tantas outras
situações diárias, algumas apenas aborrecidas, outras dramáticas
e outras, até, extremas. É difícil manter o bom humor o tempo
todo, por mais que você se sinta preparado para encarar as surpresas
da vida, em meio a tantos problemas e aborrecimentos, que vão desde
os pequenos atritos domésticos, às ações dos políticos, que se
corrompem e dilapidam o erário público e, pior, agindo em seu nome,
que votou neles. É difícil, muito difícil.
E
o elenco de dificuldades se estende, mais e mais, bloqueando (quando
não anulando ou pulverizando) suas pequenas alegrias e impedindo que
você usufrua plenamente delas. Quer dificuldade maior do que
conservar o otimismo face a tantas notícias ruins divulgadas pelos
meios de comunicação? Eles, porém, frise-se, não são os
culpados, claro. Apenas refletem uma realidade violenta e perversa.
São meros espelhos, que mostram, de corpo inteiro, uma sociedade
podre e egoísta.
Como
manter a serenidade, caríssimo leitor, diante do massacre de
crianças, ocorrido em uma escola pública de Realengo, no Rio de
Janeiro há sete anos?
Não dá! Por mais insensível que se seja, fatos como este são como
socos no estômago. Tiram-nos o fôlego. Quem é pai sabe o drama dos
que perderam filhos, de maneira estúpida e cruel, diante de um surto
psicótico de um maluco qualquer. O pior é que episódios como este,
com o mesmo grau de dramaticidade e horror, se repetem, repetem e
repetem em várias partes do mundo. Como não se sensibilizar com
esse tipo de chacina, que a qualquer momento, sem nenhum aviso, pode
nos afetar diretamente?! É difícil, muito difícil.
O
rol de dificuldades diárias, todavia, ainda está muito longe de se
esgotar. Claro que minha pretensão não é a de esgotá-los, mas de
citar, mesmo que de passagem, uma ou outra, a título de exemplo. Os
mais antigos acusam, amiúde, esta geração de ser sumamente
individualista e de adorar o próprio umbigo. Até pode ser. Mas é
difícil, muito difícil não abrirmos mão dos ideais que nos
empolgaram na juventude, de solidariedade, justiça social e paz.
Malhar
em ferro frio é inútil e, sobretudo, cansativo. Como manter
intactos os ideais face às incertezas do cotidiano, decorrentes de
decisões cínicas e oportunistas dos poderosos, que num piscar de
olhos decidem bombardear, sem mais e nem menos, populações
indefesas a pretexto de lhes “levarem a liberdade”? Ou dos
desastres, naturais ou não, que diariamente afetam milhares, milhões
de pessoas? Das doenças, velhas ou novas, que afetam multidões? Dos
perigos de toda a sorte, vindos do espaço ou decorrentes de ações
humanas, que podem mandar pelos ares, em segundos, o que se levou
milênios para construir? É difícil, muito difícil.
Há,
no meu caso, e no de muitas e muitas pessoas que exercem a mesma
atividade que exerço, uma dificuldade toda especial, que nos
amargura, até por ser recorrente. Envolve não apenas produção de
textos, mas bom humor, otimismo, erosão da autoconfiança e, por
consequência,
um gosto amargo de fracasso.
É
difícil, muito difícil, ser escritor no Brasil, a menos que você
tenha muitos contatos, não precise exercer outra atividade
remunerada para assegurar seu sustento e conte com boa dose de sorte.
Ter talento, claro, está implícito nesta equação.
Lancei,
em setembro de 2010, dois novos livros, “Cronos & Narciso”
(crônicas) e “Lance fatal” (contos), cheio de confiança e de
esperanças não de me tornar best-seller, campeão de vendas, mas
apenas de não fazer feio e não fechar as portas para futuras
publicações. Superestimei, todavia, o poder da internet (e
principalmente das redes sociais).
Por isso, não previ nenhuma outra forma de divulgação, como o
assédio aos editores da área de cultura de jornais, noites de
autógrafo etc. etc.
etc. E... dei-me mal, muito mal.
Meus
livros constituíram-se
(salvo engano meu) num
imenso vexame editorial. Não por não terem qualidade literária,
mas pelo fato dos seus destinatários (os leitores) sequer saberem de
sua existência. Achei que as vendas pela internet seriam mais
fáceis. Afinal, este país, de dimensões continentais, dispõe de
livrarias em apenas cerca de 600 dos seus 6.600 municípios, ou seja,
menos de 10%. Enganei-me. As vendas foram
tão baixas (ao menos pelo
que eu soube) que não
exagero ao dizer que foram
praticamente nulas.
Ainda
se isso se devesse a eventual avaliação negativa de críticos
literários, eu me conformaria. Mas meus livros sequer chegaram às
suas mãos. Como se vê, talento para escrever e qualidade do que é
publicado não são suficientes para assegurar, já não digo
recordes de vendas, mas até mesmo a comercialização de reles
algumas
dezenas de exemplares. Assim
é difícil, muito
difícil...
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A saída tem sido o e-book. Amigos me cobram a publicação de um livro. Respondo: caso publique terei um novo problema: vendê-lo. Ser lido na internet já é alguma coisa. O vexame é mesmo um texto publicado na internet ficar inédito.Mas fica, especialmente em feriados, férias e fins de semana.
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