De
Lula também se embriaga a gente
* Por
Urariano Mota
Depois
de amanhã, haverá o julgamento do ex-presidente Lula em Porto
Alegre. Ali, o Tribunal Regional Federal, e tantos al, al, al, bem
ladram o previsível, Lula terá um recurso julgado contra sentença
de Sergio Moro, aquele juiz que lhe presenteou um tríplex.
Então
é hora de recordar a presença do presidente mais popular da
história entre nós, no dia em ele foi ao bairro da minha infância,
que todos chamam de Água Fria.
De
frente para o que um dia foi o Cine Império, ia ser inaugurada a
primeira agência do Banco Azteca no Brasil. Homens, mulheres e
crianças tomaram conta do largo, como antes nos idos 60 invadiam o
mesmo lugar para dançar o frevo. Mas em 27 de março de 2008 não
vêm para o carnaval, nem muito menos prestigiar a inauguração de
uma agência pequena, sem luxo. “Lula vem aí. Lula vem inaugurar o
Banco”. Por isso se reúnem tantos, tantas e tantinhos, em
curiosidade e aflição. A massa, esta massa periférica, sonha,
carece de melhor vida, de dinheiro, como a senhora Suzana, gorda, de
olhos rasgados de índia.
-
O que a senhora quer de Lula? eu pergunto.
-
O senhor é do grupo dele?
-
Não.... (vontade tenho de dizer “eu sou do grupo da senhora”,
mas me calo)
-
Eu quero 150 reais.
-
Pra quê?
-
Pra comprar mortadela, pão, carvão, guaraná, cerveja, queijo,
milho, aí eu faço pamonha, manguzá...
-
Isso tudo com 150 reais?!
-
É só uma ajuda. Eu já tenho o carrinho de vender lanche. É só
uma ajuda....
Lula
demora. Deveria chegar às 3, mas já são 4 da tarde. Rapazes com
terno preto, em um calor de 38 graus, fazem a segurança. Rijos como
estátuas, com o olhar vazio de bronze.
-
Desde que hora vocês estão aqui? pergunto.
-
Desde 9 da manhã.
-
Com esse terno preto, debaixo deste sol?
-
É bronca.
-
Quanto a diária?
-
Vinte e cinco reais mais almoço.
Noto
que um supervisor lhe traz uma bala. De café. É bronca. De vez em
quando, em um ponto da multidão, há gritos, aplausos. Os seguranças
olham em direção ao tumulto. É apenas algum gaiato que anuncia,
“Lula chegou”. Se eu sair do meu lugar, aqui junto ao cavalete,
perderei o assento dos pés. Eu me pergunto como esses jovens se
mantêm impassíveis desde as nove da manhã. 16 e 30. Há um
alvoroço. Há uma onda que me empurra, há uma corrente de
eletricidade a passar por todos os corpos. Minha mulher, a fotógrafa,
que faz sua estreia de máquina e de profissão, me desperta: os
soldados da PM tomam posição de sentido.
-
Olha os batedores!
Então
vem um carro escuro, que passa pelo “portão” de cavaletes, e
somente para adiante. Súbito há um estouro, não de fogos nem de
boiada. Há um rumor que cresce, que se torna incontrolável, que
mais lembra um orgasmo coletivo. Sofrido, querido e esperado. É
Lula! É Lula! Todos gritam. Os berros se fazem ouvir mais alto,
ensurdecedores. Mulheres, meninos, homens chamam a atenção do
presidente, querem chamá-lo, e ele não sabe para que lado do
cercado de cavaletes se dirija. Na hora uma ideia tenebrosa me
ocorre: se caísse um raio aqui, todos morreriam felizes. Mas essa
ideia não atinge palavras. Lula vem para o nosso lado. É ele. A
minha fotógrafa se esquece de mim e avança para o círculo estreito
onde todos lhe querem tocar a mão. Aos gritos. Aos prantos. Aos
empurrões, apesar de reprimidos pelos jovens rapazes de negro.
A
última vez em que vi algo semelhante em Água Fria foi em 1965, no
último dia de carnaval. Tocou Vassourinhas e não havia força que
contivesse o gozo da multidão em fúria. Agora sem frevo, sem
orquestra, desta vez a multidão delira como se estivesse diante de
um astro pop. O presidente passa a ideia de um santo, porque tem
poderes para ajudar os que padecem, e de fascínio, porque mostra
como um homem do povo consegue ser importante. Por isso as mulheres
gritam, “Lula, meu lindo!”, por isso os homens apertam-lhe a mão,
com força e calor, por isso os meninos levantam a cabeça, todos os
meninos levantam a cabeça. Então eu percebo que os periféricos não
se embriagam somente de álcool e frevo. De Lula também se embriaga
a gente. Como no carnaval fora de época de 2008, em Água Fria.
(Publicado
em 22.01.2018 no jornal Diário de Pernambuco).
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa,
membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance
“Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici,
“Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus”, “Dicionário
amoroso de Recife” e “A mais longa juventude”. Tem inédito “O
Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros
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