O
Brasil na encruzilhada: recolonização ou refundação
* Por
Leonardo Boff
Estamos
num momento crucial de nossa história que nos obriga escolher um
lado. Tornou-se claro que estão se enfrentando dois projetos que
irão definir o futuro de nosso pais: a recolonização ou a
refundação.
O
projeto da recolonização do Brasil força-o a ser mero exportador
de commodities para os países centrais. Isso implica mais que
privatizar os bens públicos mas de desnacionalizar nosso parque
industrial, nosso petróleo, grandes instituições públicas, quem
sabe, até universidades. Trata-se de dar o maior espaço possível
ao mercado competitivo e nada cooperativo e reservar ao Estado só
funções mínimas.
Este
projeto conta com aliados internos e externos. Os internos são
aqueles que deram o golpe, especialmente o PSDB e o PMDB e aqueles
71.440 multibilionários que o IPEA sob Jessé Souza elencou e que
controlam grande parte das finanças e financiam o Estado com
pesados juros. O aliado externo são as grandes corporações
globais, interessadas em nosso mercado interno de mais de 200 milhões
de pessoas e principalmente o Pentágono, o órgão que zela pelos
interesses globais dos Estados Unidos.
O
grande analista das políticas imperiais, recém falecido, Moniz
Bandeira e o notável intelectual norte-americano Noam Chomsky
bem como Snowden nos revelaram a estratégia norte-americana de
dominação global. Ela se rege por três ideias de forças:
primeira, um mundo e um império; a segunda, a dominação de todo o
espaço (full spectrum dominace), cobrindo o planeta com 800 bases
militares, muitas com ogivas nucleares. É prevista, sob o olhar do
neoliberal presidente da Argentina, Macri, uma grande base na
tríplice fronteira (Brasil, Paraguai, Argentina) para controlar o
Brasil e particularmente o Aquífero Guarani, decisivo para o futuro
próximo de grande parte da humanidade sedenta e que poderia
abastecer de água o Brasil por 300 anos; a terceira, desestabilizar
os governos progressistas que estão construindo um caminho de
soberania própria e que devem ser alinhados à lógica imperial.
A
desestabilização não se fará por via militar, como em 1964, mas
por via parlamentar, já ensaiada eficazmente em Honduras, no
Paraguai e agora no Brasil. Trata-se de demolir as lideranças
carismáticas, no caso, Lula, fazer da política o mundo do sujo e
desmantelar políticas sociais que incluem milhões de pobres.
Um
conluio foi arquitetado entre parlamentares venais, estratos do
judiciário, do ministério público e da polícia militar,
secundados pela mídia conservadora que nunca se sentiu bem com
a democracia e que sempre apoiou os golpes.
Estes
grupos jamais aceitaram que um operário, sobrevivente da grande
tribulação brasileira, Luiz Inácio Lula da Silva, chegasse a ser
Presidente. Tiveram que aceitá-lo mas conseguiram apear a sua
sucessora a Presidenta Dilma Rousseff democraticamente eleita e
instalar um Estado de exceção, antipopular, corrupto e violento.
Todos os itens político-sociais, desde então, só pioraram dia a
dia. Especialmente foram tirados direitos sociais dos trabalhadores,
fruto de anos de luta.
O
outro projeto é o da refundação de nosso país. Ele já vinha
sendo esboçado muito antes mas ganhou força sob o governo do PT e
aliados, para o qual a centralidade é dada aos milhões de filhos e
filhas da pobreza, descendentes da senzala, não obstante os
constrangimentos impostos pelo neoliberalismo imperante no mundo e no
Brasil. Junto com a garantia do substrato vital para milhões de
excluídos através dos vários projetos sociais, foi a dignidade
humana, sempre aviltada, que foi resgatada. Esse é um dado
civilizatório de magnitude histórica.
Para
todos nós que amamos nosso país e o povo, esse projeto da
refundação do Brasil sob outras bases, vale dizer, com uma
democracia construída a partir de baixo, popular, participativa
sócio-ecológica e aberta ao mundo constitui, certamente nosso sonho
bom e nossa utopia alvissareira.
Três
pilastras sustentarão essa refundação: a natureza de riqueza
singular, fundamental para o equilíbrio ecológico da Casa Comum, a
Terra, a nossa cultura criativa, original, diversa e apreciada no
mundo inteiro e, por fim, o povo brasileiro inteligente, inventivo,
hospitaleiro e místico a ponto de pensar que Deus é brasileiro.
Essas
energias poderosas poderão construir nos trópicos, não direi o
sonho de Darcy Ribeiro, a Roma dos trópicos, mas uma nação
soberana e ecumênica que integrará os milhões de deserdados e que
contribuirá à nova fase da humanidade, a planetária, com mais
humanidade, humor, alegria e que sabe conjugar trabalho com festa.
Importa
derrotar as elites do atraso e antinacionais que representam um
Brasil, submisso e sócio menor do projeto-mundo hegemonizado pelos
USA e seus aliados.
Não
anuncio otimismo, mas esperança. Santo Agostinho que não era
europeu mas africano, um dos maiores gênios do cristianismo, bispo
de Hipona, hoje Tunísia, deixou escrito em sua biografia, as
Confissões, esta palavra que será a minha última.
A
esperança, já o disse muitas vezes, tem duas formosas irmãs: a
indignação e a coragem.
A
indignação para rejeitar tudo o que se apresenta como injusto e
ruim.
A
coragem para transformar a política do Brasil de ruim e péssima em
boa e justa e refundar um Brasil onde todos possam caber, a natureza
incluída.
Hoje
precisamos cultivar a indignação contra as maldades oficiais que
transbordaram o cálice da amargura. E a coragem para irmos às ruas,
às praças, quem sabe, a Porto Alegre, para salvar a democracia,
garantir a possibilidade da candidatura presidencial de Lula e
assegurar um país soberano, nosso, com um destino definido pelo
próprio povo.
Alimentamos
a certeza de que chegará o dia em que a justiça e a igualdade
triunfarão. Uma sociedade não pode se sustentar, por muito tempo,
sobre a injustiça, a profunda desigualdade e a violência
estrutural.
A
luz tem mais direito que todas as trevas que se abateram sobre o
nosso país. Esta luz triunfará e nos mostrará o melhor caminho que
juntos queremos trilhar.
OBS.:
Impedido de comparecer por motivos particulares, Leonardo Boff enviou
este texto para ser lido pelo ator Chico Diaz, no evento do
dia 16 de janeiro, no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, em apoio da
candidatura de Lula à Presidência da República
*
Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o
ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a
vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes
(2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com
Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on
transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz”
(Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em
Cancun, no México.
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