O vôo dos anjos
* Por
Aleilton Fonseca
ÍAMOS PELA AVENIDA
AFORA, CONDUZÍAMOS O ANDOR DEVOTO. Havia mais mulheres que homens, mais meninas
que meninos, nessa procissão leiga, oficiada por conta e risco particulares. A
santa deixava o nicho de sua sala especial que tínhamos em casa, alçava-se ao andor
de madeira, até que leve, enfeitado de papel crepom, todo em rosa, azul e
branco. O cortejo avançava até o final de nosso quarteirão e voltava pela outra
rua, mais afastada e sem calçamento, em suas feições interioranas.
Prosseguíamos, nesse compasso, parando o quase nenhum trânsito que porventura
houvesse.
Era assim todo ano,
por juras e empenhos, até que eu completasse treze aniversários. Por que não
doze? Melhor se fossem os onze! — e desde antes se desse por encerrada a última
peregrinação. Nos primeiros anos, eu mal sabia desses tratos de minha mãe com a
divina. E ainda menos que tais ofícios eram por minha irrestrita causa. No
começo, eu ia bem que entonado de vestido azul de seda, no colo materno, as
asas brancas pendendo de minhas costas, num treino de voo futuro.
Ora, mas... é que fui
crescendo. Primeiro, apeado do colo, fui promovido a anjo pedestre. Acompanhava
o séquito, a cada ano mais encabulado, e daí, a mais por menos, já em gritante
estado de vergonha. Um anjo quase rebelde à frente do andor. A santa até me
assemelhava um quanto tristinha por minha causa.
Desde que me achei em
tenência dessa parte, já de ensaios e quereres de minha mãe, aprendi os
benditos que se cantavam. Ela, me olhando firme, me recomendava por ordem da
santa. Eu os entoava, junto com o vozerio das mulheres, de bom grado, desde
logo em decrescente, indo em andante com as asas pendentes, doido para me voar
dali para onde fosse.
Eu benditoava num
esforço de nem abrir a boca, desejando que o périplo se encurtasse de um zás!,
por um milagre. Pois se eu sentia os risos de mofa da meninada, ao lado,
acompanhando ao largo a promissória que minha mãe resgatava!? Daí eram uns
tempos de zombaria que me encaravam: diziam que a saia de anjo me caía bem,
balançavam as mãos juntas para me arremedar as asas. E eram umas asas de
papelão coberto de papel crepom repicado a tesoura, com as pontas arrebitadas a
modo de penas angelicais. Essa tamanha pena, eu podia?
Quê! Dessa vez bem que
pedi substituto: “Mãe, já tou grande pra isso!” Ela fez foi ralhar comigo, em
quase que ofendida, benzendo-se diante da santa, contra a minha apostasia. Não!
Havia de ser eu, sim, oh ingrato! Era a ultimíssima vez! Não fosse a promessa,
eu nem tinha vindo ao mundo para ser o único filho de uma já viúva.
Explico-lhes, de breve
para colcheia, em segunda voz, pelas notas e pausas por ela mesma postas nesta
partitura. Depois de duas perdas, ela teve a má sorte de se ver viúva quando
tentava levar a êxito a terceira vez. E eu era o principal interessado. O meu pai,
que nunca o vi em vida, este falecera num acidente pouco explicado. Isso já nem
nos toca ao caso agora. Para encurtar caminhos e entrelinhas: minha mãe, já de
vez sozinha, tinha na gravidez de risco a única esperança de tirar um fruto de
uma vida até então em nada de alegrias. Dava-lhe medo que mais esse fruto
pecasse.
Dona Dalva, o filho
perigando em dificíl gestação, prostrou-se aos pés da santa, em prantos
correntes, ofertando-o por afilhado, em proteção de sua esperança. Assim, o
ajuste, de ambas as partes, e Deus por testemunha e juiz. Nascesse eu com vida,
completasse um ano de choros e fraldas, iríamos nós nessa romaria de ano a ano,
por treze vezes se resumindo. Esse era o trato, ad diem.
É óbvio que, criar, me
criei! Mas aquelas andanças de anjo sobre a terra, naquelas tardes e noites de
maio, mês de Maria, tais e quais, eu me lembro delas, nessa comichão de lhes
contar o invento de quantos pontos. Sigam-me nesse passo, veremos de onde a
procissão retorna.
Negociei que ela me
arrumasse companhia, eu já pelos treze anos, mais dado aos babas de futebol de
rua, às caças aos passarinhos e aos castigos escolares, me sentia nas
reticências do ridículo, transvestido de anjo, logo eu! E um quê de anjo, como
mamãe o concebia, eu tinha mesmo o nenhum! Eu me descriancei desde muito cedo,
nas aprendizagens, nos papos furtivos com os meninos maiores e nos brinquedos
com as meninas vizinhas. A gente ia sabendo, de outiva, de sutis observações,
ensinos e práticas, como as diferenças se combinavam. Tudo em brincadeiras sãs,
embora nunca menos escondidas que vigiadas pelos zelosos adultos equidistantes.
Nos entretantos dessa
última prestação, era preciso prover motivos de eu não entornar o andor. Então
minha mãe me arrumou um anjo de companhia — e eu até cogito que esse anjo se
ofereceu para a empreitada comigo. Uma menina das mais levadas, tão mais que
linda!, muito sabida em nossas primeiras desinocências. Um trisco menos nova
que eu, minha alegria escondida de todos, invasora consentida de meus intentos
de adolescer.
Ao lado dessa ângela
de madeixas, esqueci das mofas — que, se antes me feriam amiúde, agora
evaporavam pelo caminho. Os moleques declinavam de mim e se conjugavam nela,
cobiçosos sem o saberem. Eu azul, ela rosa: nossas asas até se tocavam nas
pontas, nossos olhos sorriam-se a piscar, inventando brincadeiras. Era uma
ângela mais que a santa! — Oh, amada, por onde andas agora, há quanto tempo
depois de tudo?
Mas a mãe da menina,
de si em si quase desconfiada, ficava de olho em nossas asas, perdendo às vezes
o ritmo do bendito, pesponteando-o à frente, no embalo do refrão que se
repetia. De vez em vez, ela nos tirava uma mira, tentando adivinhar os ângulos
de nossos passos. Ah, que anjos que éramos, os dois numa alegria inexplicável,
difícil de se alcançar quando a inocência se desgasta. No enlevo de nem saber o
que se passava em nossas veias angelicais, um calor ia-nos tomando, uma vontade
louca de nos tocarmos, de nos sentirmos os cheiros, ficarmos por conta de um
nada. Estávamos entre o céu e a terra, com olhares lânguidos, de um para o
outro.
De mãos postas, em
posição devocional, não conseguimos prosseguir. Eu me acerquei de minha ângela
e lhe ofereci o calor de minha mão, que suava. Ela tocou-me com um sorriso que
me elevou às nuvens, meu coração perdeu o compasso do canto e o ritmo do
caminhar, como um tambor desafinado. Continuamos, agora de mãos dadas, sob o
olhar impassível da santa em seu andor, que se arrojava à nossa retaguarda.
Minha mãe, se notou
alguma coisa, fingiu que não. Até desistiu de ficar me admirando com olhos
devedores à santa (uf!). Ela descansasse, que estava tudo pago, e com sobras,
isso estava. E eu não morria mais, jurava em mim que não.
Era esse crescendo e
caminhando, todo ano no mesmo cair da tarde. Promessa é dívida. A gente se
saldava no trato. Eu, no entanto, tinha agora um maior regozijo que valia por
todas as peregrinações passadas. Eu queria que o caminho se multiplicasse e que
ninguém nos aparasse as asas, nos deixassem flutuar azul e rosa nos sorrisos em
que nos doávamos.
Eis que chegávamos ao
fim da caminhada. Quando o cortejo se aproximava de casa, escapamos de vez
daquela devoção. E nos completamos num abracíssimo demais das medidas. Um verão
enorme nos vinha à pele e nos deixava suados, revelando-nos as mais íntimas
fontes. E isso era justo enquanto todos se preocupavam em disputar as portas,
buscando acomodação diante do nicho da santa, para a celebração da ladainha
final.
Havia o lugar certo
para os anjos. Mas ali não chegamos. Numa combinação de olhares, dirigimo-nos
para o quintal, ao fundo da casa, acolhidos pela moita de quarana.
Anjos, os nossos olhos
se entendiam. Decifrávamos segredos a sete chaves ocultos, em busca de
aprendermos o prazer de voar. Os nossos lábios se ensinavam, com o ardor que o
coração palpitava. Nossas mãos consagravam os corpos tenros, que se buscavam
num voo cada vez mais alto. Assim, descobríamos que os anjos também se amam, em
carne e alma, sem precisar de palavras.
*
Aleilton Fonseca é escritor, Doutor em Letras (USP), professor titular pleno da
Universidade Estadual de Feira de Santana, membro da Academia de Letras da
Bahia, da UBE-SP e do PEN Clube do Brasil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário