No devido contexto
O célebre monólogo criado por William Shakespeare no ato 3,
cena 1 da peça “A trágica história de Hamlet, príncipe da Dinamarca”, tem sido
interpretado de formas variadas, porquanto comporta diferentes interpretações.
Contudo, um equívoco, bastante comum, tem a ver com (digamos) a continuidade
dessa célebre produção. Para que ela seja devidamente entendida (e aproveitada)
é indispensável que seja lida (e representada) no devido contexto. Há, por exemplo, quem situe o famoso dilema
"Ser ou não ser" em parte do enredo em que ele, de fato, não está. O monólogo
não se dá, como já li muitas vezes, na cena em que Hamlet, no cemitério, segura
a caveira de Yorick, o falecido bobo da corte. Situa-se bem antes. Ocorre no
momento em que o príncipe da Dinamarca é posto contra a parede, para tomar uma
atitude, depois que o fantasma do pai lhe revela a verdadeira circunstância da
sua morte, que até então estivera convicto que se dera por causas naturais.
O tal "ser ou não ser" aparece na abertura do
terceiro ato, como tenho destacado e reiterado. Foi em um momento em que Hamlet
se preparava para consumar a primeira das dolorosas decisões que teria que
tomar. Apesar da dúvida manifestada no monólogo, de vingar ou não vingar a
morte do pai, em seu íntimo já havia decidido que o faria. Como cheguei a essa
conclusão? Fácil? O tal “ser ou não ser”
ocorre exatamente no momento em que o príncipe procura Ofélia para lhe dizer
que não a amava. Caso não a amasse mesmo, já seria atitude gravíssima,
porquanto iria ferir a suscetibilidade de uma donzela que sempre estivera
convicta do seu amor e que lhe dera plena e irrestrita correspondência.
Todavia, a questão era muito mais grave, dolorosa e
dramática. Hamlet amava Ofélia como nunca amara nenhuma outra mulher. Por que,
pois, dizer-lhe o contrário, desiludi-la e tirar até sua vontade de viver? Sua intenção
era das mais nobres: poupar a amada de novos sofrimentos face atitudes que pretendia
tomar na sequência para vingar a morte do pai. Portanto, já havia decidido levar
a cabo a vingança. Para consumar seu plano, entendia que precisava se afastar
de Ofélia, mesmo a amando e tendo convicção da plena correspondência, para não
comprometê-la. Por que? Porque ela era filha de Polônio, o primeiro-ministro e
este, certamente, se oporia ao relacionamento da filha com o príncipe depois
dele atentar contra a vida do próprio
rei, seu tio Cláudio.
Hamlet, portanto, acreditava estar protegendo a amada,
rompendo com ela. Claro que não estava. Mas... O príncipe, transtornado, entra
na casa de Polônio para cumprir o que havia decidido. É exatamente nesse
momento que Shakespeare traz à cena o famoso monólogo (e não no cemitério,
tendo a cabeça de Yorick nas mãos). Foi no instante em que aguardava a entrada
de Ofélia no recinto. Imagine, caro leitor, o quanto Hamlet estava sofrendo
naquela ocasião! Ponha-se em seu lugar e imagine o que sentiria caso tivesse
que dizer ao grande amor de sua vida que não a amava e, por causa dessa mentira,
perdê-la para sempre!! Poucos, pouquíssimos têm coragem de uma renúncia desse
porte, não importa por qual razão. Nesse momento, portanto, Hamlet sofre, e
sofre muito. É então que começa a pensar no preço, muito alto, que estava tendo
que pagar para vingar a morte do pai. Tal sacrifício valeria a pena? Não
haveria alternativa? Por que pagar preço
tão elevado para cumprir o que entendia ser dever filial? "Ser ou não ser?".
Apesar da profunda dúvida, manifestada no dramático
monólogo, o príncipe, na sequência da cena, faz o que havia planejado fazer ao
chegar à casa de Polônio: nega para Ofélia que a ama. A conseqüência da sua
atitude certamente foi mais grave do que supunha. Causou tamanha dor no coração
da jovem amada, que ela finda por morrer no decorrer da peça. Claro que a morte
de Ofélia multiplica por trilhões a dor de Hamlet. Se essa já era insuportável
com a simples separação do amor da sua vida, se torna infinitamente pior depois
dela morrer. Shakespeare demonstra, de forma genial, que "Ser" só se
torna opção quando somos confrontados com a verdade dos fatos, com a verdade do
mundo que nos cerca e, principalmente, com a “nossa” verdade, sobre quem somos
de fato.
.
É de se notar a maneira hábil que Shakespeare utilizou para
revelar a Hamlet o que realmente havia acontecido em relação à morte do pai. O “fantasma”
que lhe faz tal revelação é interligentíssima metáfora, posto que fugindo da
realidade (fantasmas não existem), pois tem conotação de algo assustador, que
causa medo. A verdade, nua e crua, dependendo a respeito do que, pode ser (e
não raro é) amedrontadora. E mais, é pavorosa, horrenda, aterrorizante. Às
vezes é mais assustadora do que a mais pavorosa das assombrações que se possa
imaginar. Para complicar as coisas, o fantasma do pai não só lhe revelou as
verdadeiras circunstâncias da sua morte – pelas mãos do próprio irmão, com a
cumplicidade da esposa – como exigiu do jovem e ingênuo príncipe que tomasse
uma atitude que mudaria, para sempre, os rumos da sua vida. Ou seja, a verdade “assombrou”
Hamlet!! E mais: findou por destruí-lo (afetiva, psicológica e por fim
fisicamente)!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Vá na frente decifrando que vamos seguindo-o.
ResponderExcluir