Fama e credulidade
“A fama é a prova de que as pessoas são crédulas”. Quem
afirmou isso foi o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson. Isso cabe a
caráter na maior parte das pessoas famosas, cujos nomes sobrevivem ao tempo e
ao esquecimento, aos séculos, aos milênios até, e mantêm-se como se vivas
estivessem. Não raro elas são tratadas com familiaridade, como se fossem nossas
vizinhas, nossos parentes quem sabe, ou amigos com os quais privamos no
cotidiano. Quanto, porém, do que se sabe desses mitos é verdadeiro? Creio que
pouco, muito pouco, um quase nada. Todavia, são escritos textos e mais textos a
seu respeito e ninguém questiona, contesta ou põe em dúvida sua veracidade. A
fama mantém-se, quando não aumenta, mesmo que não merecida. Por que? Por causa
da credulidade das pessoas.
O que tornou William Shakespeare famoso não foi nenhum feito
heróico, ou mesmo o lado perverso da alma humana. Ele não salvou, por exemplo,
muitas vidas, ou mesmo uma só, como médico abnegado (que não foi) em alguma das
tantas e devastadoras epidemias que mataram milhões em seu país e em seu tempo.
Não foi nenhum general que comandasse exércitos em batalhas tidas por perdidas,
mas que tenha, miraculosamente vencido. Também não foi nenhum ditador cínico e
sanguinário que tenha subjugado, a ferro e fogo, algum infeliz país, como
Hitler ou Pol Pot.. Não foi nada disso. Sua fama não decorre de coisas sequer
parecidas. Ficou famoso por sua obra dramática e poética de rara genialidade.
Creio que deveria, pois, ser mantida apenas por esse aspecto. Mas não é.
Há uma profusão de livros e mais livros abordando aspectos
pessoais dessa figura polêmica e controvertida e todos (ou quase todos)
escritos sem base e nem fundamento. Há quem o descreva como sujeito grosseiro,
amoral, bêbado, tarado, devasso, bissexual e vai por aí afora, supostamente
baseados em “documentos históricos”. Mas em quais, se não há, praticamente,
nenhuma referência documental sobre sua vida? Volta e meia, aparecem artigos em
revistas, jornais e mais recentemente em espaços da internet com alegadas
“descobertas” a propósito de algum aspecto da sua vida, geralmente escabroso e
muitos e muitos acreditam, sem contestarem a fonte em que esses textos se
baseiam. Com isso, os crédulos contribuem para que se manche a imagem (quando
não se a destrua) de personalidades famosas, que não podem se defender por não
estarem mais vivas.
Há uma espécie de obsessão coletiva em torno da sexualidade
de Shakespeare, cuja sanidade é, há já algumas décadas, questionada por muitos,
que escrevem a respeito como se tivessem convivido com o bardo inglês e privado
de sua intimidade. Claro que não conviveram. Afinal, estão separados dele por
pelo menos quatro séculos, ou seja, 400 anos. Mesmo que convivessem, não
poderiam assegurar coisa alguma a propósito, a menos que fossem seus parceiros
sexuais, no caso de sua alegada bissexualidade. Imaginem separados por um
período tão longo, de quase meio milênio, desse personagem.
E no que esses alegados “pesquisadores” se baseiam para
chegarem a essas criminosas conclusões (para mim, não passam de “assassinos de
reputações”)? Em documentos? Em diários escritos pelo dramaturgo? Em relatos
confiáveis de seus contemporâneos? Não!!! Escrevem o que escrevem com base,
exclusivamente, no que chamam pomposamente de “provas circunstanciais”. E no
que estas consistem? Pasmem, em interpretações de suas peças e principalmente
de seus 154 sonetos!!! Desde quando isso prova alguma coisa sobre a vida de
algum escritor, notadamente deste, cuja matéria-prima era a ficção, a fantasia,
a criatividade? Concluem, dessa leitura (que podem sequer ter entendido), que
Shakespeare mantinha relações com várias mulheres. Até aí, tudo bem. Pode ser
verossímil. Mas asseguram que ele também
“pode” ter se envolvido eroticamente com pelo menos um homem. Barbaridade!
Para chegarem a essa conclusão, citam, amiúde, dois sonetos
específicos: os de números 18 e 20. Cuidado, poetas, com o que vocês escrevem.
Caso se tornem famosos, daqui a 400 anos, algum pseudo pesquisador desses
poderá interpretar de forma negativa e capciosa alguma de suas metáforas e
lançar dúvidas sobre sua sanidade, sua honra e sua reputação. Esse tipo de
coisa enoja-me e não considero que tenha a ver qualquer coisa com Literatura. É
a obsessão do escândalo pelo escândalo. Não estou sugerindo que Shakespeare
tenha sido algum santo (nenhum de nós é) e que nunca tenha feito nada de
errado. Provavelmente fez, somente não se sabe o quer e quanto. Mas daí a afirmar que ele foi um devasso, sem
a mais remota prova documental, vai uma distância de milhares de anos-luz. E o
que diz, afinal, o tal soneto 18? Diz o seguinte (conforme a tradução de
Arnaldo Poesia):
“Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes obscurece com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na eterna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás exausto ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos ardentes te farão viver”.
O que há de escandaloso neste soneto? Onde a alegada “paixão
homossexual”? Ademais, Shakespeare poderia estar se referindo a algum
personagem mitológico (sua obra está eivada de mitologia), a Apolo, por
exemplo. Quem pode jurar que não? Ah, como a fama é perigosa para a reputação,
sobretudo quando se mantém e cresce após a morte dos famosos! Para não ser
perniciosa, dependeria da honestidade de quem a mantivesse viva e da
credulidade de milhões. E estas, convenhamos, não são nada, nada confiáveis.
Boa leitura.
O Editor.
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Ainda não tinha visto você fazer uma defesa tão apaixonada, Pedro. De fato, analisar a produção de um escritor não quer dizer que se vá encontrar a sua biografia, mas apenas indícios.
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