O apurinã que dá bolo em desembargador
* Por
José Ribamar Bessa Freire
Parecia até
coqueluche. Com dor de ouvido e uma tosse seca de macaco-guariba, o índio
apurinã Alderi Francisco da Silva, hoje com 38 anos, morador da Aldeia Nova
Esperança, na Terra Indígena de Água Preta, procurou o Posto de Saúde, na
cidadezinha de Pauini, no rio Purus (AM). Lá, a doutora Cíntia, depois de
auscultá-lo com o estetoscópio, junto com remédio deu-lhe um "puxão de
orelha":
- Escuta bem, meu filho, ninguém entra num
posto médico assim, só de calção. Aqui não é casa da sogra. Respeito é bom e eu
gosto. Na próxima vez, só atendo se vier decente, com camisa.
A resposta veio intercalada por fingido acesso
de tosse:
- Doutora, se eu
entrar aqui peladão, a senhora é obrigada a me atender, porque andar nu é
costume tradicional dos Apurinã. Foi assim que nasci, nuzinho, no meio da
floresta.
- Negativo. Eu também
nasci nua. Mas nem por isso tiro a roupa para atender meus pacientes.
- Não tira porque não
quer. Pode tirar que eu não me importo. Numa boa. Não reclamo, embora a lei que
me protege não ampare a senhora. O artigo 231 da Constituição brasileira de
1988 garante que eu posso manter meus "costumes, línguas, crenças e
tradições". A lei me permite ficar nu. Engraçado! A senhora, que não pode
reclamar de minha nudez, reclama. E eu, que posso reclamar da sua, nem reclamo.
Se a conversa durasse
um pouco mais, a médica acabaria convencida de que precisava se despir, pelo
menos, dos seus preconceitos. Alderi conhece a Constituição de trás pra frente
Aos seis anos de idade, já lia jornal, ajudado pelo caboco Cosme, casado com
sua tia. Depois, fez o curso de formação de professores indígenas, organizado
pela Comissão Pró-Indio, do Acre, onde estudou com professores das melhores
universidades públicas brasileiras. Foi nos intervalos das aulas, que fiquei
ouvindo suas histórias.
ÉGUA, RAPAZ!
Tem gente que nasce
músico, pintor ou poeta. Alderi nasceu advogado. Na verdade, não nasceu. Foi
parido por força de um ´habeas-corpus´. Daí vem, com certeza, esse dom que tem
para se movimentar no mundo das leis.
- Não sei o que
acontece comigo. Basta ler uma vez - uma só - e a lei fica dormindo aqui dentro
da minha cabeça. Aí, quando eu preciso, ela desperta - ele diz.
Com memória prodigiosa
e a capacidade de usar e interpretar leis, Alderi se tornou porta-voz dos
professores indígenas, que estavam numa situação irregular: não pertenciam ao
quadro permanente de professores do município de Pauini e recebiam uma merreca de
salário, 110 reais, sempre atrasado. Em nome de seus colegas, procurou o então
secretário municipal de educação, de nome Dalmir:
- Secretário, o
município tem de contratar professores com salário decente.
- Não tem vaga pra
índio prevista na dotação orçamentária.
- Não leve a mal,
secretário, mas o poder público é obrigado a proteger as manifestações das
culturas indígenas. Tá lá, no artigo 215 da Constituição. Combine isso com a
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB, que garante aos índios a
oferta de educação escolar bilíngue e intercultural em seus artigos 78 e 79. Se
não contrata os professores, o senhor transgride as leis, quem viola as leis é
criminoso. E lugar de criminoso é na cadeia.
- Êpa, rapaz, olha
como fala! Deixe de ser abusado. Demito vocês todos.
- Secretário, quem
nunca entrou, não pode sair. Para demitir, é preciso primeiro nos contratar.
- Então, contrato, só
pra poder demitir, por justa causa, por abandono de emprego. Nenhum professor
indígena quer trabalhar, só quer receber. Eu mesmo fui várias vezes lá na
aldeia supervisionar as escolas e não encontrei ninguém na sala de aula. Vocês
não estão cumprindo o calendário escolar. Como é que eu vou criar vaga de
professor indígena, se vocês não dão aula?
- Acontece que a gente
tem calendário próprio, diferente do seu. Não havia ninguém na escola, porque a
aula era de pescar, caçar e conhecer as plantinhas. Tem rio dentro da sala de
aula, por acaso? Tem floresta dentro da escola? Tem paca, tatu, cotia? A
Constituição, no art. 215, reconhece nossos conhecimentos tradicionais e nossa
forma própria de aprender. A Resolução nº 3/99 do Conselho Nacional de Educação
diz que a gente pode fazer isso. A lei nos protege.
O secretário, sem
argumento, na base do "quem manda aqui sou eu", ameaçou Alderi, que
deu o troco, dizendo que denunciaria o fato ao doutor Kleber Gesteira Matos da
Coordenação Geral de Educação Indígena, do MEC, em Brasília.
- O Ministério Público
Federal vai mandar cortar o FUNDEF de Pauini - disse.
Pálido, com medo de
ter seu fundef decepado, o secretário recuou:
- Égua, rapaz! Não
sabe nem brincar! Eu tava só te testando.
A reivindicação foi,
finalmente, atendida.
CADÊ A LEI?
A notícia sobre o
domínio da palavra e o poder argumentativo de Alderi começou a se espalhar
pelas aldeias do rio Purus. Num domingo ensolarado, a polícia prendeu seis
índios que haviam tomado um porre e andaram fazendo umas presepadas pelas ruas
de Pauini. A família deles só conseguiu encontrar Alderi na terça-feira. Ele
foi à delegacia:
- Sargento Peninha, o
senhor é autoridade, tem identidade, mas eu também. Me ouça.
- Então
fale rápido, que meu tempo é pouco.
- Vim aqui libertar meus parentes da cadeia.
- É rúim, einh! É mais
fácil você ficar do que eles saírem. Foram presos porque estavam bêbados.
- Então, sargento, se
o motivo foi esse, pode soltar, porque agora eles não estão mais bêbados.
Acabou o motivo que deu origem à prisão.
- Rapaz, você tá
gozando com a minha cara, é? Você sabe muito bem que a lei proíbe vender bebida
pra índio.
Foi aí que Alderi deu
o xeque-mate:
- Então, desculpe, mas
o sargento prendeu as pessoas erradas. Tinha que prender os comerciantes que
venderam e não os índios que compraram. Nenhuma lei proíbe índio de comprar. Se
tiver essa lei, me diga qual é o artigo e em que código está.
- Olha, vai embora,
antes que eu te prenda.
- Tudo bem! Pode me
prender. Mas eu quero que o senhor me dê isso tudo por escrito, num documento
assinado embaixo: Sargento Peninha. O Ministério Público Federal vai processar
o senhor.
Fez-se um silêncio
eterno
- E aí, sargento, o senhor vai ou não vai me
dar o documento?
O sargento Peninha,
com cara de égua, respondeu com raiva:
- Vou soltar agora.
Mas quem vai assinar o papel é você, seu índio atrevido, um termo de
responsabilidade. Você sabe o que é isso? Se eles voltarem a fazer arruaça,
quem vai preso é você.
PORTA DE XADREZ
Alderi saiu da cadeia,
triunfante, acompanhado pelos seis índios. Foi sua consagração, como advogado
de porta de xadrez. Depois disso, seus serviços advocatícios de rábula
começaram a ser requisitados também por não-índios. O seringueiro Zezinho, de
origem cearense, estava mofando na prisão, acusado de haver estuprado uma
índia. Implorou:
- Chamem o Alderi.
Dessa vez, o duelo
verbal foi com o tenente Miguel, da PM do Amazonas.
- Tenente, apresento
meus respeitos e digo que vim soltar o Zezinho.
- Não quero conversa.
Ele é um estuprador e vai apodrecer aqui.
- Ele não estuprou
ninguém. É homem sério, trabalhador, sem antecedentes. Deu apenas um empurrão
na índia. Tem testemunha.
- Olha, Alderi, não te
mete. Ele é branco, você não tem nada a ver com isso.
- Aí é que o senhor se
engana, tenente! O senhor é autoridade no âmbito da lei estadual e da lei
orgânica municipal. Mas nós somos regidos pelo Estatuto do Índio, a Lei 6001,
de 19 de dezembro de 1973, que é federal. O Zezinho trabalha pra gente, como
agente florestal, dentro da reserva, sob nossa responsabilidade. Pra prender
ele, o senhor invadiu área indígena, o que só poderia ser feito pela Polícia
Federal, com ordem de um juiz federal. A prisão é ilegal.
Os argumentos
nocautearam o tenente. Sem poder revidar, ele soltou o seringueiro, na hora,
depois de perguntar dele, na frente de todo mundo, por precaução:
- Te bati? Te
torturei? Não. Então, vai embora.
Mas o Zezinho disse
que não ia, porque não podia deixar na delegacia uma espingarda dos Apurinã,
calibre 16, que havia sido aprendida com ele. O tenente foi inflexível:
- Não. De jeito nenhum. A arma fica aqui.
Alderi teve de gastar
mais saliva:
- Tenente, cadê o
boletim de ocorrência?
- Não foi feito.
- Então, não existe
registro de apreensão da arma. Se ela legalmente não foi apreendida, ninguém
pode me impedir de levar prá aldeia o que pertence à minha comunidade.
- É. Mas eu ainda
posso fazer o registro.
- Tenente, o senhor é
inteligente, sabe que se registrar, estará confessando por escrito o crime de
confiscar um patrimônio indígena. A espingarda é de toda comunidade, serve pra
caçar, ajuda nossa sobrevivência. O Ministério Público Federal não vai gostar
nadinha disso.
Alderi, com Zezinho ao
lado e a espingarda a tiracolo, desfilou como herói entre os 19.299 habitantes
de Pauini, o quarto município mais miserável do Brasil, segundo o mapa da fome
desenhado no final do ano passado pela Fundação Getúlio Vargas. Suas histórias
lembram muito as do Pedro Malasartes, figura do conto popular, inteligente,
astucioso, invencível na sua luta contra os poderosos, os avarentos, os ricos,
os vaidosos.
Por onde andará
Alderi? Nunca mais o vi, não sei se chegou a fazer o curso de direito.
Aprendendo o latinorum, ele passaria a perna em muito juiz, daria bolo em
desembargador e botaria, data venia, in orificio inimicorum indianorum.
P.S. Publicado
originalmente em 29/02/2004 com o título O JURISTA DESCAMISADO DE PAUINI. O
texto revisado e atualizado é agora republicado com modificações.
*
Jornalista e historiador
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