Uma família para Feliciano
* Por
Gustavo do Carmo
Depois de tantas
frustrações românticas, aos 37 anos, Feliciano, enfim, arrumou uma namorada.
Mas ela era divorciada e tinha um filho. E isso era um grande problema para
ele, que odiava crianças.
Feliciano não tinha
paciência, principalmente com manhas e pirraças, e se envergonhava de falar em
linguagem “tate-bitate”. Também não se
achava maduro para ensinar e dar conselhos. Tinha medo de ser agressivo demais
para corrigir e permissivo demais para agradar.
Ele poderia até
conquistar a confiança da criança, mas aí teria que disputar a sua atenção com
o pai dela. Tinha medo de jogar o guri (ou a guria) contra ele, o que não era a
sua intenção. E também não desejava aturar a interferência de direito dos avós
paternos e de outros membros da família do pai biológico também.
Isso tudo era uma
aporrinhação que Feliciano preferia evitar. Mas não conseguiu. Acabou se
apaixonando por Marielle e Oscarzinho, seu filho de cinco anos. No início, ele
pensou em desistir do romance quando descobriu que ela tinha um filho pequeno.
Se convenceu de que
estava ficando velho e as mulheres mais velhas, com as quais sempre sonhou, já
estavam ficando idosas e entrando na menopausa. Feliciano queria ter filhos,
sim. Mas só dele, para amar e criar à sua maneira, e não para cuidar de
crianças dos outros. As moças da sua faixa de idade já estavam com filhos e as
mais novas, mesmo que não fossem imaturas, o deixariam com a sensação de
ridículo ou pedófilo.
Oscarzinho era muito educado
e aceitou muito bem o padrasto. Feliciano perdeu o medo de repreender o garoto
quando ele fazia manha, mas conseguiu domá-lo. E o menino lhe obedecia
prontamente. O que Feliciano conseguiu foi a confiança e o amor verdadeiro do
menino (com quem jogava videogame até a alta madrugada, mas ralhava quando ele
não queria comer, fazia alguma arte ou pirraça) e de Marielle. Conquistou,
também, a amizade do pai, dos avós paternos, tios e primos de Oscarzinho.
Casou-se com Marielle em
cerimônia e festa que reuniram as famílias de todos os lados. Ganhou um emprego
de roteirista em uma produtora de cinema, indicado por um primo de Lucas, o ex
da sua esposa e pai de Oscarzinho. O medo que Feliciano tinha de crianças e de
conviver com a família do pai delas se evaporou. Tanto que Feliciano deu um
segundo filho, uma menina, para Marielle. Oscarzinho, obviamente, ficou muito
feliz com a irmã.
Feliciano estragou
tudo quando descobriu que Marielle estava retomando o seu casamento com Lucas e
levando os filhos, inclusive Mariângela, a dele. Esbofeteou a traidora, que se desequilibrou, caiu
da varanda do apartamento no sexto andar e não resistiu. Passou a ser odiado
pela família dela, de Lucas e pelo próprio Oscarzinho.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por
leitores
Você traiu o leitor. Deu um fim trágico e súbito demais. Deveria ter prevenido a gente dizendo assim: Marielle subiu na varanda do sexto andar...
ResponderExcluirEu vou mudar o final então. Mas aqui no Literário vai ficar para uma próxima. Obrigado pelo toque.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirNão mudei o final. Apenas corrigi a cena da morte da Marielle, que estava exagerada. Está lá no meu blog. Já pedi para o Pedro atualizar aqui também.
ResponderExcluirAgradeço a amável atenção, Gustavo. Obrigada!
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