É preciso cobrar
* Por Pedro J. Bondaczuk
Os
meios de comunicação – jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão e
portais da Internet – tratam da questão da violência urbana e, principalmente,
da criminalidade, com a competência que deles se espera? Esta é uma pergunta
que ouço com freqüência, em palestras que dou para estudantes, e nos variados
eventos de que participo, quando descobrem que sou jornalista. Outras
indagações do gênero são acrescentadas, como: a imprensa presta à sociedade,
com a abordagem que dá ao tema, o serviço que dela se espera? Age, de fato,
como canal de comunicação entre os cidadãos e as autoridades responsáveis pelo
tratamento do problema?
A
resposta a estas perguntas, assim, de forma generalizada, é um tanto perigosa.
Afinal, como já lembrava o saudoso (e polêmico) Nelson Rodrigues, “toda
generalização é burra”. Quanto à divulgação de notícias, que dão conta de
crimes e de outros atos de violência, os meios de comunicação até que se
comportam a contento. Salvo uma ou outra (desonrosa) exceção, noticiam os
acontecimentos do gênero com correção e sobriedade, atendo-se rigorosamente aos
fatos. No que se refere às cobranças de providências, por parte das
autoridades, todavia, deixam um tanto a desejar.
Claro
que há exageros e distorções pontuais, aqui e ali, neste ou naquele veículo,
deste ou daquele repórter (ou deste ou daquele editor que, no final das contas
é, ou deveria ser, o responsável direto pelo quê, e como, a sua editoria
publica). Nada, porém, que descambe para o ridículo, o caricato, ou o
irresponsável (que no caso seria a apologia do crime ou a glamourização do
criminoso), o que poderia ser caracterizado como antijornalismo.
Já
comentei, em outros artigos, que não são os jornais, as revistas, os portais da
Internet e as emissoras de rádio e de televisão que, de alguma forma,
estimulam, eventualmente, a violência urbana e a criminalidade. Pelo contrário.
Eles previnem a população, para que fique sempre atenta e vigilante para não se
tornar vítima de assaltantes, de seqüestradores e/ou de assassinos.
Encerrei,
porém, o referido artigo da seguinte forma: “Mas não se pode, sobretudo, deixar
de dar razão ao psiquiatra e criminalista norte-americano Frederick Hacker,
quando adverte: ‘Penso que o volume e o grau de violência que toleramos, hoje,
são realmente assustadores. Indignamo-nos, aqui e ali, com algumas
brutalidades, mas estamos dessensibilizados. À força de tolerar, chegamos a endossá-la
e encorajá-la’. Afinal, como diz o surrado clichê (mas oportuno neste caso):
‘Quem cala, consente!’. E, por omissão, estamos consentindo, de fato, nessa
escalada da violência”.
Falta uma cobrança mais enfática,
contundente e continuada da nossa imprensa às autoridades responsáveis pela
segurança pessoal (e a do patrimônio) do cidadão. O jornalista Ib Teixeira, em
entrevista no “Programa do Jô”, no dia 4 de junho de 2003, alertou para os
dados de uma pesquisa que revelavam que o número de mortes violentas no País,
em apenas 10 anos, havia chegado a 600 mil pessoas! Qual das guerras dos
últimos tempos causou tantas vítimas fatais, num período relativamente tão
curto?
A violência vem ceifando, sobretudo, a
nossa juventude. Pesquisa, já antiga, intitulada “Mapa da Violência”, divulgada
em 7 de junho passado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura”, Unesco, revela que 39,9% das mortes ocorridas na
população entre 15 e 24 anos, em 2002, tiveram como causa o homicídio e 15,6%
foram provocadas por acidentes de transportes. O estudo aponta crescimento de
88,6% de óbitos por homicídios entre os jovens nos últimos dez anos. Isso, a
despeito da mortalidade total no País haver diminuído no período. Passou de 633
em 100 mil habitantes em 1980, para 573 em 100 mil em 2002. Essa situação, em
vez de melhorar, se agravou muito.
O sociólogo da Unesco, Júlio Jacobo
Waiselfisz, responsável pelo citado estudo, reconheceu que os jovens são a
parcela da população mais vulnerável. E isto, em todo o mundo. Ainda assim
considerou “absolutamente inaceitáveis” os índices que são registrados no
Brasil. E concluiu: “Um país não pode não ter uma política pública para um
setor da população que são 35 milhões”. E não pode mesmo! Alguma coisa tem que
ser feita, e com urgência. A questão não comporta omissões de quem quer que
seja e, sobretudo, dos meios de comunicação.
Diante dessa realidade nua e crua que a
imprensa nos expõe, diariamente, se pode dizer, sem demagogia, que o Brasil
vive, e há muito tempo, virtual guerra civil nas ruas, nos bares, nos becos,
nas favelas e nos cortiços de suas principais cidades. É um conflito sequer
admitido, sem líderes, sem bandeiras, sem ideologias e sem objetivos, mas que
nem por isso deixa de existir e de estar sempre presente em nosso cotidiano. É
caótico e imprevisível. Pode atingir qualquer um de nós, a qualquer hora e em
qualquer lugar. E seus resultados são terríveis para a população.
A violência urbana, frise-se e reitere-se,
não é um problema exclusivamente brasileiro e nem só dos países emergentes, ou
do chamado Terceiro Mundo. E nem é fenômeno recente. Remonta à própria criação
das primeiras cidades, instituídas, justamente, para proteger as pessoas de
atos cometidos por predadores nômades. A nós, contudo, importa o que ocorre
atualmente, e ao nosso redor.
É uma ingenuidade, na qual muita gente
até bem intencionada incorre, atribuir a violência urbana “apenas” a questões
sócio-econômicas, embora não se possa (e nem se deva) negar que estas têm
enorme peso. As causas são múltiplas, desde as sociais (é claro), às psicológicas,
econômicas, estruturais etc. E até mesmo as fisiológicas já foram detectadas
por especialistas, conforme estudos que identificam a existência de
"personalidade criminosa", feito pelo criminalista italiano Cesare
Lombroso.
Nos casos de homicídio, (somados os
crimes dolosos, ou seja, intencionais e planejados e os culposos, por
negligência, imperícia ou imprudência), tendo por vítimas e por autores número
crescente de pessoas jovens, a grande maioria não foi praticada, como se pode
imaginar, por perigosos bandidos ou ousados e cruéis assaltantes. Esses delitos
foram, em boa parte, cometidos por cidadãos comuns. Por pessoas aparentemente
pacatas, que por este ou aquele motivo, via de regra banal, suprimiram vidas
humanas.
É certo que o álcool e as drogas
tiveram decisiva contribuição nessas mortes. E a visível e crescente
desagregação da família em muito contribuiu para esse extremo de violência. Mas
em nossas cidades mata-se pelos motivos mais corriqueiros e banais, como
discussões sobre futebol, ou sobre trânsito, ou por ciúmes, ou até mesmo sem
nenhuma razão, em repentes de raiva.
O cidadão não aceita mais permanecer
refém passivo de abusados marginais, de perigosos bandidos, de insensíveis
narcotraficantes, enfim, do crime organizado, que a cada dia se organiza mais e
mais e dispõe de crescentes recursos tecnológicos, além de sofisticadas e
poderosas armas (até mísseis, do tipo sting, já chegaram a ser apreendidos,
além de minas terrestres com enorme poder de destruição e granadas) que as
polícias, evidentemente, e até muitos exércitos, não dispõem.
As pessoas não estão mobilizadas para
cobrar, com maior ênfase, providências urgentes contra esse calamitoso estado
de coisas. Na Argentina, anos atrás, um caso de seqüestro de um adolescente
levou a imprensa a deflagrar intensa campanha. Em pouco tempo, a mobilização
levou 600 mil pessoas às ruas para exigir providências das autoridades. Esse
clamor popular teve, como resultado imediato, a aprovação, em tempo recorde, no
Congresso desse país, de leis mais duras contra esse tipo de delito. Será que a
imprensa da Argentina é mais competente do que a brasileira? Fica a incômoda
pergunta no ar...
* Jornalista, radialista e escritor.
Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981
e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras
funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e
“Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos &
Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário),
página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia
Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
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