Dikson Colombo
* Por
Urda Alice Klueger
O Dikson entrou na
minha vida em 1998, quando me tornei uma editora, mas eu entrara na vida dele
bem antes, embora sequer o conhecesse. Dikson tinha uma livraria na cidade de
Rio do Sul/SC, e era um idealista da Literatura – assim, andava para cima e
para baixo com o carro cheio de livros, semeando idéias e sensibilidades pelo
Alto Vale do Itajaí e por onde mais passasse, e há muito que meus livros
viajavam no seu carro e moravam na sua loja. Mas só soube da sua existência em
1998, quando me soube editora e fez um primeiro contato comigo, quase que o primeiro
cliente que tive, afável e aberto a qualquer tipo de negócio que envolvesse a
boa Literatura e que pudesse levar Cultura e Sonhos para os outros.
No começo, só nos
conhecíamos por telefone – um dia estive na loja dele e fiquei bem encantada
com a sua simpatia, seu charme natural e sua bela figura de homem. Penso que
tínhamos, mais ou menos, a mesma idade, e nos anos seguintes, estivemos sempre
a fazer negócios com livros, e Dikson era daqueles clientes que fazia questão
de nunca atrasar um prazo – ao contrário, não podia ver uma promissória sem
correr a pagá-la, mesmo que houvesse quase um mês, ainda, para fazê-lo, marca
bem sua.
Faz cerca de um ano e
meio, creio, quem sabe dois, que estive com o Dikson pela última vez.
Sentamo-nos lá na sua livraria, fizemos grandes planos. Ele projetava fazer uma
caixa de livros que reunisse o que de melhor houvesse em Literatura, para
espalhar pelas minúsculas cidades de Santa Catarina, para as pequenas
bibliotecas locais terem acesso ao melhor. Embarquei no sonho dele na hora,
virei consultora, prometi-lhe pensar sobre o que não poderia ficar de fora,
para que a tal “caixa” tivesse a excelência que o povo merecia. Não importaria
a procedência, a editora das obras – importava o conteúdo. Dikson estava bonito
e simpático como sempre, o peito aquecido de Sonhos, os olhos faiscantes de
Futuro, a visão alongada para tudo o que se poderia fazer.
E voltei para
Blumenau, e fiquei a lhe passar correios eletrônicos a cada vez que pensava em
coisas insubstituíveis na cultura do nosso povo:
“Dikson, não podemos
esquecer os relatos dos viajantes que passaram por Santa Catarina nos séculos
XVIII e XIX!”
Noutro dia:
“Dikson, não podemos
esquecer de `Memórias de um menino pobre`, do seu Silveira Júnior!”
E assim por diante.
Então, de repente
passei a perceber que o nosso projeto não estava andando. Alguma coisa estava
errada. Dikson não era de deixar as coisas pela metade. E já era fim de 2006
quando me disseram que ele estava doente.
Viajei, na virada do
ano, estive em férias até metade de janeiro, não deu tempo de pensar no Dikson.
Voltei a trabalhar no dia 16 de janeiro – e voltei, de repente, ansiosamente
angustiada, querendo saber como ele estava. Mal começáramos a trabalhar,
naquela tarde, e eu disse a Marcelo, meu secretário, o quanto queria saber do
Dikson. E telefonei para a loja dele, uma vez, duas, muitas vezes, e ninguém
respondeu. Então disse para o Marcelo que decerto as férias deles eram um pouco
mais longas, que reabririam a loja um pouco mais adiante.
E um dia se emendou no
outro e continuei pensando no assunto – até que em algum momento acabei falando
com alguém da família dele. Foi ainda em janeiro.
- O Dikson? Nós o
enterramos na tarde do dia 16.Ainda não conseguimos nos conformar.
Aí entendi porque o
telefone da loja não tinha atendido naquela tarde. Não sabia que Dikson era
alguém tão próximo do meu coração para eu ter tido aquele tipo de percepção.
Pessoas especiais são assim.
Boa viagem, meu amigo
Dikson, tão belo e tão jovem, o Sonhador da Cultura! Que aí do outro lado tudo
esteja indo bem para você!
(Florianópolis, dia 02
de Junho de 2007)
*
Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR,
autora de mais três dezenas de livros, entre os quais os romances “Verde Vale”
(dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).
"Como assim morreu?" Pois é, Urda. Os amigos continuam com essa mania de morrer e sem se despedir. Conosco será da mesma maneira. Desaparecemos, e depois virá a notícia da morte. Tão doces e fugazes amizades que nos deixam saudade.
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