As
confissões
* Por Rodrigo
Ramazzini
Finalmente naquela sexta-feira, os três
irmãos, Toninho, José Arthur e o Marlon, conseguiram “arrastar” o João Paulo
para a mesa de um bar. O jovem João Paulo era um cara que despertava muitas
curiosidades na turma. Tímido, andava sempre quieto, de cabeça baixa, mal
falava com os colegas durante a jornada de trabalho. Trabalhavam juntos há três
anos, mas ninguém sabia nada sobre a sua vida. Vivia no seu “mundinho”, como
diziam, o que gerava uma série de histórias ao seu respeito. Aparentemente, não
tinha vida social, não praticava esportes e era solteiro. Bom! Exatamente neste
ponto que a curiosidade do pessoal se aguçava.
Depois de muitas cervejas e as
conversas rodarem sobre o trabalho, o chefe e os times de futebol do coração, o
assunto mulher entrou em
pauta. Aqui começava a ser executado o plano elaborado pela
turma para sanar as suas dúvidas, digamos assim. Iniciando pelo José Arthur,
para criar o ambiente:
- Aproxima! Aproxima! Vou fazer uma
confissão pra vocês...
- Fala, Arthur.
- Sabe aquela negrinha da feira quase
em frente ao museu municipal?
- A que vende tomate?
- Não! A outra... Tô pegando!
- Capaz!
- Sério! Fui fazer compras lá esses
dias, ela se riu toda para o meu lado, não resisti. Fomos para o motel no
início da semana. Que potranca!
- Só não deixa a patroa descobrir! Se
não...
- Vira essa boca pra lá! Vou até bater
na madeira. Toc toc toc...
- Eu que quase entrei em uma fria essa
semana. Sabem aquele meu “bichinho” da Petshop, que eu traço há tempos?
- Claro!
- Arãn!
- Pegou e me ligou toda dengosa,
querendo me ver... E eu com a Neide, que tem um ouvido que vou contar pra
vocês. Estou dando explicação até agora...
- Vai com calma, Toninho! Ela se
amansa... Não é a primeira vez!
Ah! Ah! Ah!
- Eu que ando tranqüilo! Continuo com a
“nega véia” e mais duas...
Ah! Ah! Ah!
- Você é demais, Marlon! Um brinde!
Ah! Ah! Ah!
Após as gargalhadas, silêncio. Então,
Toninho parte para a fase final do plano, e questiona:
- E contigo, João Paulo, como andam as
namoradas?
Novo silêncio. Pela primeira vez João
vai “abrir a boca” para falar sobre si e, de quebra, já sentindo os efeitos da
cerveja, confessa:
- Eu... Eu “pego” a caixa do banco que
fica em frente à empresa! A Elisân...
Pronto! Antes que o João terminasse a
frase, a gritaria tomou conta da mesa. Principalmente o Marlon. O “ganhador”.
- Eu falei! Eu falei pra vocês que ele
não era veado! Pode passar a grana... Cenzinho de cada um. Aposta é aposta e
tem que pagar.
- Está certo Marlon, ganhou... Apostou
bem. Toma!
Toninho baixou a cabeça e quieto,
balançava-a de um lado ao outro negativamente. José Arthur ainda tentou
justificar-se com João Paulo.
- João, não que eu desconfiasse de
alguma coisa, mas...
Então, João Paulo, com a voz firme,
exige:
- Me dêem o dinheiro das apostas... Se
não eu conto tudo!
- Por que motivo? Ainda questionou o
Marlon.
Antes que João respondesse, Toninho
interferiu:
- Vamos dar o dinheiro a ele. Foi um
erro de nossa parte fazermos isso com o garoto...
Marlon ainda insistiu:
- Ficou louco, Toninho! O dinheiro é
meu. Eu ganhei a aposta...
E perdendo a paciência, Toninho
replicou:
- Seu desgraçado! Não percebeu ainda
que ele pode nos entregar? A Elisângela do banco é a irmã que vocês chamam de
“solteirona” da Neide, minha mulher!
* Jornalista e cronista
Como diz um amigo: "vai coisa boa, vai mexer com quem está quieto!"
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