Imagens desfocadas
* Por Pedro J.
Bondaczuk
"O homem é o que ele pensa".
Pelo menos é o que diz a poetisa (ou poeta?) norte-americana Ella Wheeler
Wilcox. Mas o que pensamos a nosso respeito condiz com a realidade? Temos
isenção suficiente para uma auto-avaliação eficaz ou pelo menos aproximada da
verdade?
E os que nos rodeiam, têm? Podem nos
julgar com isenção? Têm essa vontade? Contam com essa capacidade? Acredito que
não! Falta objetividade a um e aos outros para nos avaliar. Podemos afirmar que
nem os pais conhecem bem seus filhos, o que sequer é de se estranhar, já que
também não se avaliam de maneira isenta, objetiva, realística. Em suma, não se
conhecem.
Gosto de ler opiniões a meu respeito,
embora por uma questão de vaidade, prefira as positivas. Contudo, as mais úteis
são as feitas por meus adversários, pelos que não gostam de mim e só enxergam
minhas fraquezas (tantas!), defeitos (ostensivos) e vulnerabilidades (que não
revelo para ninguém). A rigor, não sou tão importante assim para que outros opinem
a meu respeito. Alguns, no entanto, o fazem.
No meu modo de entender, nenhuma dessas
avaliações, de amigos ou de inimigos, sequer chegou perto da imagem que eu faço
de mim. Os primeiros superestimam minhas eventuais qualidades, o que não deixa
de ser uma satisfação para o ego. Mas trazem o risco de me tirar da realidade e
acabam sendo causas indiretas de imensas frustrações.
Para os segundos, sou a verdadeira
imagem do mal (nossa!), como erva daninha que tenha que ser extirpada (que
exagero!). Pelo menos foi o que um leitor afirmou, em carta que me escreveu,
contestando um artigo em que eu criticava uma determinada atitude do então
líder soviético Yuri Andropov (se não me falha a memória, em 1982 ou 1983). O
que o tal sujeito entendia de União Soviética? Eu, que sou filho de russos,
pouco entendo! E o pior foi que ele interpretou como ofensa justamente o único
elogio que fiz ao então secretário-geral do Partido Comunista da URSS. De duas
uma: ou sou extremamente confuso nas minhas colocações (o que não parece ser o
caso e ninguém antes e nem depois reclamou) ou o tal sujeito é um desses
analfabetos funcionais, que sabem juntar as letras, formar palavras, mas não
entendem seu significado. Deixa pra lá!
Se tirarmos os excessos existentes
nessas opiniões (muitos) e pinçarmos defeito por defeito dos apontados, teremos
diante de nós um excelente parâmetro para que possamos nos tornar melhores. Os
inimigos, portanto, são mais úteis do que os amigos para que possamos
estabelecer uma imagem nossa mais próxima da real.
Até o aspecto físico que julgamos ter
não condiz com a realidade. Não nos enxergamos por inteiro. Não contamos com
visão holográfica. Não vemos, por exemplo, nossas costas, o que nos torna
incapazes de avaliar a nossa postura. Mesmo vista no espelho, a "retaguarda"
não aparece como de fato é. A visão de conjunto fica comprometida.
O parâmetro que os outros adotam para
nos julgar (e que nós usamos para o julgamento de terceiros) é o dos atos, das
palavras e das expressões. E dos preconceitos, confesse-se. Consegue-se, com
material tão precário, não mais do que pálidos e distorcidos reflexos da imagem
real.
Pitigrilli (excelente escritor, tão
pouco lembrado de uns trinta anos para cá) traçou um perfil humano genérico,
não de alguém específico, mas do tipo médio, no qual a maioria se enquadra.
Escreveu, no livro "Lições de Amor" (Editora Vecchi, 1960): "O
homem não é nem anjo, nem fera, ou é ambas as coisas em proporções desiguais. A
beneficência, a moral, a caridade não podem fabricar homens e mulheres ideais. Devem
servir-se daqueles que encontram".
A dúvida que me fica é: será que as
pessoas cuja imagem envolvemos em uma aura de santidade eram ou são
verdadeiramente santas? Ou as que julgamos sábias, teriam, de fato, tanta
sabedoria? Ou, do lado oposto, será que os monstros humanos foram mesmo tão
maus como pintados?
Provavelmente há exageros, para o bem
ou para o mal, para melhor ou para pior, em todas essas avaliações. Nossos
julgamentos, por mais que tentemos, nunca se vêem totalmente expurgados de
preconceitos, ou seja, de conceitos previamente fabricados.
E a avaliação histórica, está correta?
São exatas as previsões feitas sobre o futuro? O passado foi registrado com
exatidão? A humanidade seria, mesmo, tão sanguinária, doentia, egoísta e
corrupta quanto nós, formadores de opinião, procuramos pintar? Ou como os
historiadores dizem que foi? Ou como os estudiosos do comportamento garantem
que é?
Talvez não! Ou talvez seja até pior,
não se sabe com certeza. O italiano Paolo Rossi, no livro "Os Sinais do
Tempo", observou: "Por muitos séculos, o homem concebera-se no centro
de um universo limitado no espaço e no tempo e criado em seu benefício".
Hoje, sabemos (ou pelo menos as pessoas cultas e instruídas sabem) que não é
assim.
E o escritor prossegue:
"Imaginara-se habitante, desde a Criação, de uma Terra imutável no tempo.
Construíra-se uma história de poucos milhares de anos que identificava a
humanidade e a civilização às nações do Oriente Próximo e, depois, à Grécia e
Roma. Pensara-se diferente, em essência, dos animais; senhor do mundo e dono de
seus próprios pensamentos. Em breve, no novo século, ele terá de defrontar-se
com a destruição de todas essas certezas, com uma diversa, menos narcisista,
mas, decerto, mais dramática, imagem do homem".
Será a real? Terá, pelo menos, a mais
leve das proximidades com a verdade? Ou a subjetividade e o preconceito
continuarão determinando nossos julgamentos e opiniões? Vai depender de cada um
de nós. Ou talvez nem dependa...
* Jornalista, radialista e escritor.
Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981
e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras
funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e
“Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos &
Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário),
página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia
Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Os extremos citados podem ser verdadeiros, para mais e para menos. Duvidamos até dos nossos olhos, do espelho e dos retratos. O tira teima do futebol mostra nossos equívocos. E estou falando apenas da imagem física. Uma vez, há uns 30 anos uma matéria de revista, talvez de Veja, não me lembro mais, apresentava algumas figuras de uma mulher e dizia que aquela pessoa tinha na verdade várias imagens, a que ela imaginava ser, o que lhe mostrava o espelho, o que os outros pensavam que ela era, o que realmente era, e assim por diante. Conclusão? Nenhuma. Terminou como começou. E onde estará a verdade?
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