Delivery
* Por
Gustavo do Carmo
Estava ligando para
uma nova pizzaria. O restaurante para o qual ele sempre pedia tinha sofrido um
incêndio há semanas e estava fechado. Já tinha coletado filipetas e anotado
telefones de outras pizzarias antes disso e agora teve a oportunidade de mudar.
Ligou para uma
literalmente caseira, que funcionava em uma casa na rua da igreja do seu
próprio bairro de subúrbio. Esperava que ela fosse mais barata.
Após três toques foi
atendido. Como era um restaurante caseiro, não havia o costume de anunciar o
nome do estabelecimento na hora de atender o telefone. O homem, com voz grave e
educada, disse apenas:
— Alô?
— Alô, boa noite? É da
pizzaria? O freguês não tinha anotado o nome da casa, que também estava com um
som bem alto, com ruídos de pratos batendo, que mal dava para ouvir o que o
atendente falava.
— É sim! Respondeu solícito.
— Vocês estão
entregando pizza hoje?
— Ih, rapaz! Hoje eu
vou ficar devendo essa. É que está tendo música ao vivo aqui no restaurante, tem
muito movimento aqui e, por isso, o entregador fica ajudando no atendimento.
— Ah, tudo bem. Eu
ligo outro dia.
— Desculpa aí. Hoje
não tem entrega. Mas obrigado por ter ligado.
— Tudo bem. Sem
problemas. Obrigado.
O freguês desligou o
telefone e ligou para outra pizzaria, também desconhecida, mas aparentemente
mais profissional. Já o atendente, que era um matador de aluguel, abaixou o som
que ligara para abafar o tiro, pediu para o comparsa parar de bater os pratos, passou
por cima de um corpo de bruços e fugiu do restaurante totalmente vazio. Tinha
acabado de matar o proprietário, que devia cinquenta mil reais ao seu cliente,
um agiota a quem a vítima tinha pedido o empréstimo e não pagou porque a
pizzaria não estava dando lucro.
* Jornalista e publicitário de
formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela
Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros
contos”.
Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por
leitores
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