sábado, 9 de maio de 2015

A praia de Dover


* Por Mathew Arnold


Esta noite o mar se mostra calmo.
A maré está cheia, a lua clara
sobre o estreito; na costa francesa, a luz
brilha e se apaga; os penhascos da Inglaterra,
cintilantes e vastos, na praia tranqüila.

Vem à janela, que delícia o ar da noite!
Solitário, na longa linha de espuma,
onde o mar encontra a terra empalidecida pelo luar,

ouve o rugir rouquenho
dos seixos que as ondas levam e atiram
de volta à praia extensa.
Começam, param, recomeçam
numa cadência trêmula e vagarosa,
transmitindo o seu eterno tom tristonho.

Sófocles, há tanto tempo,
ouviu aquele tom, no Egeu.
E isso trouxe à sua mente
o turbilhão do fluxo e o refluxo
da miséria humana.
Encontramos também, no som, um pensamento,
ouvindo-o, no distante mar do norte.

O mar da Fé também surgiu
na maré cheia, em volta das praias,
como as dobras de uma faixa amarfanhada.
Mas agora, eu só ouço
a sua melancolia, como um ronco longo e arrastado
conduzido pelo sopro do vento da noite,
nas vastas praias tristonhas,
e os rochedos nus do mundo.

Ah, amor, sejamos sinceros
um com o outro! porque o mundo que parece
estar deitado diante de nós, como uma terra de sonho,
tão vário, tão belo, tão novo,
não tem na realidade, nem alegria, nem amor, nem luz
não tem certeza, nem paz, nem consolo para a dor.

E que nos encontramos como numa planície encoberta,
varrida por alarmas confusos de luta e fuga,
onde exércitos desconhecidos se batem à noite.

Tradução de Bezerra de Freitas


* Poeta inglês do século XIX.

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