Inovação com o Cine Literário
* Por
Adailton Medeiros
Dos dias 19 a 23 de
agosto de 2013, Guadalupe, bairro da zona norte carioca, foi uma espécie de
“capital” do cinema e da literatura brasileira. Aconteceu no cinema Ponto Cine
a Mostra Cine Literário, com exibições de filmes brasileiros baseados em obras
da nossa literatura, seguidas de debates com grandes nomes desses dois
segmentos da arte.
O Ponto Cine sofreu
uma enorme transformação para receber nove cineastas – Nelson Pereira dos
Santos, André Alves Pinto, Suzana Amaral, José Joffily, Rosane Svartman, Flávio
R. Tambellini, Renato Terra, Ricardo Calil e Kátia Lund -, oito escritores,
pesquisadores, jornalistas e críticos – Ziraldo, André Miranda, Daniel Caetano,
Tereza Montero, Juliana Lins, Luciano Trigo, Eliane Trindade e Heloísa Buarque
de Holanda -, um produtor – Antônio de Andrade -, um roteirista – Paulo Halm -,
e uma atriz -Nanda Costa.
Com um cenário
construído e ambientado pelo premiado cenógrafo Derô Martín, dez filmes foram
exibidos durante a semana, um pela manhã, outro à tarde. A abertura foi uma
homenagem aos cinquenta anos do “Vidas Secas”. Depois seguiu-se com
“Macunaíma”, “Uma professora Muito Maluquinha”, “A hora da estrela”, “Achados e
perdidos”, “Desenrola”, “Malu de bicicleta”, “Uma noite em 67”, “Sonhos
roubados” e o encerramento se deu com “Cidade de Deus”.
Para a realização do
evento foi necessário uma equipe de cinquenta e cinco pessoas. Vinte e cinco do
Ponto Cine, treze da terceirizada BLG Entretenimento, dezesseis da Samba Filmes
e dois motoristas, sem contar com o intermediador dos debates, Léo Almeida, e
com o apresentador, o ator Caio Blat. Na
verdade uma superprodução, porque a intenção é que a Mostra vire um programa de
televisão.
Um marco
O Ponto Cine é um
cinema que faz história. Surgiu em 2006 como a primeira sala popular de cinema
digital do país. Inovou também ao levar para Guadalupe grandes nomes do cinema,
da TV, da música, como Caetano Veloso, e até do futebol, como Petkovic, para
bate-papos com a plateia. Estratégia que o levou à maior taxa de ocupação das
salas de cinema para os filmes brasileiros e a ser premiado pela Agência
Nacional de Cinema como o maior exibidor de filmes brasileiros em todo o
território nacional.
“Todos nós que
trabalhamos no Ponto Cine nascemos e moramos aqui no ‘subúrbio’. Você crescer
ouvindo que é ‘sub’ ‘urbano’ não é mole. Traduzindo, isso significa dizer que
você é cidadão de segunda categoria. Tudo que a gente quer é quebrar isso, o
esforço é enorme. Portanto, para ligarmos a cidade, construímos uma ligação com
o País, que é maior ainda. Aqui na Mostra Cine Literário tivemos, por exemplo,
Suzana Amaral, Ricardo Calil, Katia Lund, que se propuseram a vir de São Paulo
por entenderem a importância desse trabalho. Se para nós que somos da produção
isso já é fantástico imagine para o público”, disse Thiago Sales, coordenador
de produção da Mostra e do Ponto Cine. E concluiu: “uma mostra como essa é uma
oportunidade para as pessoas daqui, frequentadores do Ponto Cine, professores,
estudantes e donas de casa ampliarem seu repertório”.
“Falo sempre que
procuramos ofertar o que há de melhor para esse público. Seja na programação,
no conforto, no atendimento. A Mostra Cine Literário é um exemplo, a equipe
realizadora é quase do tamanho da própria capacidade do cinema. Isso é respeito
ao público e ao nosso território. Quando a gente dá dignidade para as pessoas
elas nos devolvem com cidadania. Imagine isso quando virar programa de
televisão? Pô, o que há de melhor do cinema e da literatura saído de Guadalupe!
O Ponto Cine deixou de ser um cinema para ser também um estúdio de gravação.
Neguinho aqui vai pirar”, falou Léo Barros, um dos coordenadores do Ponto Cine.
A importância da
plateia
“O que eu fico de
bobeira aqui é que está sempre lotado. Esses dias mesmo fomos convidados para
um debate sobre o ‘Macunaíma’ num local ‘super super’ sofisticado, na zona sul,
badalado à beça nos jornais, não vou falar o nome pra não ficar chato. Eu não pude ir, a minha
irmã é quem foi, não tinha meia dúzia de cabeças. Aqui, além de cheio, o
público participa à beça, aí dá prazer porque o bate papo rende”, disse Antônio
de Andrade, produtor, filho do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, diretor de
Macunaíma.
Realmente a plateia é
o que o Ponto Cine tem de melhor. A atuação na autoestima dos seus
frenquentadores desenvolveu neles o sentimento de pertencimento. Percebe-se que
há um orgulho em fazer parte do público, cada poltrona é disputada como se
fosse um trono, porque ali a plateia é a grande estrela e assim é tratada, como
deveria ser em todas as salas de cinema.
*
Fundador e Diretor do Cinema Ponto Cine – 1ª Sala Popular de Cinema Totalmente
Digital do Brasil -, e único cinema no mundo a só exibir filmes brasileiros.
Recebeu da Ancine – Agência Nacional de Cinema – o Prêmio Adicional de Renda em
2007, 2008, 2009, 2010 e 2011. E pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de
Janeiro o Prêmio de Estímulo à Exibição Cinematográfica, em 2009, 2010 e 2011.
Adailton Medeiros foi ganhador do Prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo, 2008,
Categoria Segundo Caderno/Cinema, pelo trabalho de difusão e democratização do
acesso ao cinema brasileiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário