Betão in concert
* Por
Marcelo Sguassábia
- Quero 32 toalhas brancas e bem felpudas no camarim. Uma para cada
sonata que compus. Pode me chamar de supersticioso, mas é isso. O Mozart pede
mulheres e caixas de absinto, antes e depois dos concertos, e ninguém fala
nada. Eu até que exijo muito pouco, só as toalhas e uma travessa de arenque com
batatas. Nenhuma excentricidade.
- E o bis? Já escolheu o que vai ser?
- Vai depender de como eu estiver na hora, não vou resolver isso agora,
de jeito nenhum.
- Mas Beethoven, a orquestra precisa saber para ensaiar. Como é que...
- Eles que se virem. Todo mundo não me chama de louco? Deixa eu fazer
jus à fama. Pode ser a Pastoral, mas não dou certeza.
- Espera aí, uma sinfonia inteira como bis? O público vai cansar, são
cinco movimentos.
- Quem quer bis de dois minutos que vá assistir à Madonna. Chega de
bisar com a "Pour Elise" e fazer merchandising gratuito pra Ultragas.
Aliás, maldita a hora em que vendi os direitos dessa peça. Nem eu aguento mais
aquele caminhão.
- Tá, tudo bem. E quem abre o show?
- Liga pro celular do Schubert e vê se ele está disponível, se bem que
até anteontem ele estava em estúdio mixando uma trilha de novela. Mas fala pra
ele pegar leve, alguma coisinha pouco barulhenta. O concerto é meu, não dele.
Nada de roubar a cena e me entregar o público destroçado.
- E a coletiva de logo mais, posso confirmar?
- Contanto que os benditos repórteres falem bem perto do microfone,
pode. Tô de novo com aquele zumbido estranho no ouvido, preciso marcar um
horário no otorrino pra ver o que é isso.
- Bom, mudando de assunto, estou aqui com o layout que a agência de
promoções enviou, divulgando o concerto em Praga, no dia 12.
- Olha, que não me venham com aqueles trocadilhos infames que andaram
criando ultimamente... "Beetho ven aí" ninguém merece!! Não sei onde
estava com a cabeça quando aprovei aquela merda.
- É, mas veio gente pra caramba.
- Daqui pra frente quero espaços menores, shows mais intimistas, tipo
banquinho e violoncelo. No máximo um conjunto de câmara, uma coisa mais unplugged,
sabe como é?
- Mas não podemos mudar isso agora, no meio da turnê. Só na orquestra
temos mais de 150 músicos, todos com contrato assinado até setembro do ano que
vem.
- Antes que me esqueça, aqueles backing vocals na nona estavam muito
esganiçados. Pode pôr na rua todas as sopranos e me traga gente nova, que não
assassine meus hits. Respeito à partitura é bom e eu gosto. Tem outra: a
tietagem na fila do gargarejo fica puxando fumo demais. Até eu fico maconhado
por tabela e acabo errando a regência. Reforço de segurança neles. E, pelo amor
de Deus, não me deixa ninguém subir ao palco pra rasgar minha roupa.
- É o preço da fama, Betão.
- Não me chama assim, ou então vai pra rua também. E aí, meu filho, o
que vai te sobrar é um ou outro freela com o Haydn. Tá a fim?
* Marcelo
Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Caso fosse possível usar a máquina do tempo e trazer este gênio para agora ele ficaria tão impressionado que engoliria uma partitura inteira(isso para ficar no clima do texto). O impacto de tudo sobre ele seria o mesmo que as suas obras ainda nos causam.
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