Existe uma cultura no ar
* Por Mara Narciso
Machado de Assis foi aclamado 1º presidente da Academia Brasileira de
Letras em 1896, e dez anos antes, apenas 2% dos brasileiros estavam
escolarizados. Em 1900, 65% ainda eram analfabetos. Sendo mulato e filho de
lavadeira, é surpreendente que Machado de Assis tenha feito o que fez, chegado
aonde chegou, numa época de pouca cultura formal. Não havia meio de comunicação
de massa, nem tinha sido inventada a indústria cultural.
Todo ano saia um almanaque, que era um livro com o resumo do que
acontecia em algumas áreas de conhecimento como Geografia e História, com
mapas, bandeiras, personalidades, animais, tratamentos, moda, entre outros
assuntos, em tópicos resumidos e por isso superficiais. O conteúdo sanava a
dúvida dos mais curiosos, que após ler seu exemplar se sentia atualizado para
conversar sobre vários temas durante um ano, até sair nova edição. Era o que se
chamava “cultura de almanaque”.
Mas logo isso não seria suficiente, sendo preciso saber mais coisas e de
forma mais profunda. Já havia rádio, cinema e televisão. Pinceladas desses
novos mundos saiam nas revistas, jornais e almanaques, mas não bastava. Então,
prosperaram as enciclopédias que continham o conhecimento universal com
conteúdo de amplo repertório em vários volumes. Toda família de bem tinha pelo
menos uma enciclopédia, que trazia descobertas e acontecimentos recentes.
Devido ao avanço acelerado das informações, logo estava desatualizada, mas, por
muitos anos era considerada adequada para pesquisa. Por seu turno, uma
tecnologia durava mais e assim, custava a ser descartada, garantindo por um
tempo o conteúdo em livro. A coleção, com encadernação de luxo, era o orgulho
de quem a tinha, e não seria descartada, ficando na sala de visitas, para todos
verem. E alguns lerem. Dai vem o termo “saber enciclopédico”.
No Brasil, a televisão, existente há 63 anos, logo ocupou lugar
de destaque e foi pouco a pouco substituindo outras fontes de conhecimento.
Muitas pessoas, mesmo sabendo ler, não leem, pois a televisão envia tudo
pronto, não exigindo esforço para obter a informação. Se o telespectador é
totalmente passivo ou não, foge a intenção dessas linhas, mas que acaba ficando
preguiçoso, isso é indiscutível. Com uma infinidade de canais a disposição via
satélite ou a cabo, e um controle remoto na mão, quem vê a televisão vai, sem
perceber, ficando um inválido físico e mental, pois evita andar e pensar.
Telespectadores pouco questionam, e aceitam a escolha do que deva saber.
Deixando a internet de lado, com seu modo peculiar de ser, ritmo
acelerado, mudanças que causam vertigem, interação constante, motivação, poder viciante,
e possibilidade de qualquer um fazer a notícia e divulgá-la junto ao
acontecimento, a televisão ainda é soberana, pelo menos no Brasil.
Assim como no jogo do bicho, em que vale o que está escrito, houve um
tempo em que estar num livro, tornava o fato verdade inquestionável. Ou então:
“Foi sim. Estava publicado no jornal”. Mas agora, com a difusão imensa de
informação, com imagem e versões, já não se sabe o que é verdade ou mentira, se
deve ser dada credibilidade a tudo ou não. Qualquer coisa pode ser ou não ser.
Enquanto a internet voa, é preciso reconhecer que há uma cultura própria de
quem vê televisão, definida, por falta de um termo melhor, como “cultura de
entrevistas”: o especialista falou, eu ouvi. Foi no programa tal.
Quando é preciso vender uma ideia, produto ou serviço escolhe-se um
entrevistado que, de antemão se sabe o que defende, e se faz a entrevista.
Então, após a largada inicial é só reafirmar e se tem uma nova verdade. As
pessoas seguem as ordens dadas, pensando estar escolhendo, sem o estar. Em
relação a alimentos ou tratamentos alternativos, houve a era ginzeng, chá
verde, pó de casca de maracujá, ração humana, autotransfusão, chia, linhaça,
urinoterapia, batata yacon, alimentos termogênicos, entre outros. Há alguns
anos, sob a propaganda televisiva, o livro Medicina Alternativa de A a Z fez
sucesso. Quem está por dentro desses processos se sente culto e atualizado. Com
alguém dizendo o que é bom e o que não é, muito poucos vão parar para pensar.
Acreditando em tudo, fica mais fácil enfrentar os males do dia a dia.
Depois, mesmo que alguns efeitos apregoados caiam em descrédito, não se
tem visto reportagem negando os tais benefícios, e nem quem tenha sido logrado
reclamar. Tai uma seara quase virgem: as matérias do desmentido, e que comecem
fazendo uma análise de longo prazo das dietas milagrosas.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Sensacional, Mara. Você, como jornalista, e eu, como publicitário, sabemos muito bem da veracidade e pertinência desta sua análise. Muito bom.
ResponderExcluirReparo a dificuldade no consultório de questionar tais verdades. "Estava lá, eu vi!". É o que argumentam. Nem sempre vale a pena tentar trazer a pessoa a razão. Obrigada pela passagem e pela força, Marcelo.
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