quarta-feira, 15 de maio de 2013


Existe uma cultura no ar

* Por Mara Narciso

Machado de Assis foi aclamado 1º presidente da Academia Brasileira de Letras em 1896, e dez anos antes, apenas 2% dos brasileiros estavam escolarizados. Em 1900, 65% ainda eram analfabetos. Sendo mulato e filho de lavadeira, é surpreendente que Machado de Assis tenha feito o que fez, chegado aonde chegou, numa época de pouca cultura formal. Não havia meio de comunicação de massa, nem tinha sido inventada a indústria cultural.

Todo ano saia um almanaque, que era um livro com o resumo do que acontecia em algumas áreas de conhecimento como Geografia e História, com mapas, bandeiras, personalidades, animais, tratamentos, moda, entre outros assuntos, em tópicos resumidos e por isso superficiais. O conteúdo sanava a dúvida dos mais curiosos, que após ler seu exemplar se sentia atualizado para conversar sobre vários temas durante um ano, até sair nova edição. Era o que se chamava “cultura de almanaque”.

Mas logo isso não seria suficiente, sendo preciso saber mais coisas e de forma mais profunda. Já havia rádio, cinema e televisão. Pinceladas desses novos mundos saiam nas revistas, jornais e almanaques, mas não bastava. Então, prosperaram as enciclopédias que continham o conhecimento universal com conteúdo de amplo repertório em vários volumes. Toda família de bem tinha pelo menos uma enciclopédia, que trazia descobertas e acontecimentos recentes. Devido ao avanço acelerado das informações, logo estava desatualizada, mas, por muitos anos era considerada adequada para pesquisa. Por seu turno, uma tecnologia durava mais e assim, custava a ser descartada, garantindo por um tempo o conteúdo em livro. A coleção, com encadernação de luxo, era o orgulho de quem a tinha, e não seria descartada, ficando na sala de visitas, para todos verem. E alguns lerem. Dai vem o termo “saber enciclopédico”.

No Brasil, a televisão, existente há 63 anos, logo ocupou lugar de destaque e foi pouco a pouco substituindo outras fontes de conhecimento. Muitas pessoas, mesmo sabendo ler, não leem, pois a televisão envia tudo pronto, não exigindo esforço para obter a informação. Se o telespectador é totalmente passivo ou não, foge a intenção dessas linhas, mas que acaba ficando preguiçoso, isso é indiscutível. Com uma infinidade de canais a disposição via satélite ou a cabo, e um controle remoto na mão, quem vê a televisão vai, sem perceber, ficando um inválido físico e mental, pois evita andar e pensar. Telespectadores pouco questionam, e aceitam a escolha do que deva saber.

Deixando a internet de lado, com seu modo peculiar de ser, ritmo acelerado, mudanças que causam vertigem, interação constante, motivação, poder viciante, e possibilidade de qualquer um fazer a notícia e divulgá-la junto ao acontecimento, a televisão ainda é soberana, pelo menos no Brasil.

Assim como no jogo do bicho, em que vale o que está escrito, houve um tempo em que estar num livro, tornava o fato verdade inquestionável. Ou então: “Foi sim. Estava publicado no jornal”. Mas agora, com a difusão imensa de informação, com imagem e versões, já não se sabe o que é verdade ou mentira, se deve ser dada credibilidade a tudo ou não. Qualquer coisa pode ser ou não ser. Enquanto a internet voa, é preciso reconhecer que há uma cultura própria de quem vê televisão, definida, por falta de um termo melhor, como “cultura de entrevistas”: o especialista falou, eu ouvi. Foi no programa tal.

Quando é preciso vender uma ideia, produto ou serviço escolhe-se um entrevistado que, de antemão se sabe o que defende, e se faz a entrevista. Então, após a largada inicial é só reafirmar e se tem uma nova verdade. As pessoas seguem as ordens dadas, pensando estar escolhendo, sem o estar. Em relação a alimentos ou tratamentos alternativos, houve a era ginzeng, chá verde, pó de casca de maracujá, ração humana, autotransfusão, chia, linhaça, urinoterapia, batata yacon, alimentos termogênicos, entre outros. Há alguns anos, sob a propaganda televisiva, o livro Medicina Alternativa de A a Z fez sucesso. Quem está por dentro desses processos se sente culto e atualizado. Com alguém dizendo o que é bom e o que não é, muito poucos vão parar para pensar. Acreditando em tudo, fica mais fácil enfrentar os males do dia a dia.

Depois, mesmo que alguns efeitos apregoados caiam em descrédito, não se tem visto reportagem negando os tais benefícios, e nem quem tenha sido logrado reclamar. Tai uma seara quase virgem: as matérias do desmentido, e que comecem fazendo uma análise de longo prazo das dietas milagrosas.

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   

2 comentários:

  1. Sensacional, Mara. Você, como jornalista, e eu, como publicitário, sabemos muito bem da veracidade e pertinência desta sua análise. Muito bom.

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    1. Reparo a dificuldade no consultório de questionar tais verdades. "Estava lá, eu vi!". É o que argumentam. Nem sempre vale a pena tentar trazer a pessoa a razão. Obrigada pela passagem e pela força, Marcelo.

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