Inimigo
de infância
* Por Gustavo do Carmo
Durante oito anos Júlio foi
humilhado por Giovanne no colégio. Não sofria agressões físicas, mas enfrentava
piadinhas, gozações e chantagens. Piadinhas pelo seu jeito tímido e franzino, os
seus óculos fundo-de-garrafa, os dentes superiores maiores e as orelhas de
abano. Tudo isso lhe rendia os apelidos mais variados: Florzinha, Pulguinha, Cientista
Maluco, Dentinho, Abridor de Garrafa ou de Lata, Dumbo e Orelhão Telefônico.
Gozações quando tropeçava e caía no meio da rua ou acabava fazendo xixi nas
calças na primeira série. E as chantagens eram sempre para obter algum lanche,
uma cola ou mesmo dinheiro. Uma vez Giovanne inventou um empréstimo inexistente
que Júlio teria feito com ele para comprar uma merenda no recreio. Deu um prazo
de duas semanas para receber o pagamento com a grave ameaça de morte e desova
na vala. Qualquer reação do pobre menino era neutralizada com uma nova
chantagem.
Giovanne era muito mais alto e
forte do que Júlio. Parecia derrubar qualquer coisa com o mínimo esforço. Tinha
cabelos louros raspados com máquina quatro. Por isso Júlio tinha muito medo. Os
seus coleguinhas também. Exceto Mário, tão forte e mal-encarado como Giovanne,
porém um amor de pessoa. Ele sempre defendia o amigo mais novo e ingênuo das
provocações do colega de sala mau-caráter.
— Por que não procura alguém do
seu tamanho, imbecil? Dizia Mário quando Giovanne vinha com ameaças.
— Então venha, reagia Giovanne.
E os dois valentões chegavam às
vias de fato. Mário se prejudicava por causa disso. Por pouco não foi expulso
da escola. Só não aconteceu porque, além de ser um aluno exemplar, foi
defendido por Júlio na frente da rigorosa diretora. O tímido menino se
comportou como um grande advogado, dizendo que as brigas eram em sua defesa.
Como punição, Júlio e Mário ficaram apenas estudando duas horas depois da aula.
Giovanne nunca era punido porque
diziam que o seu pai subornava a diretora. A família era muito rica, mas todos
desconheciam a origem de sua renda. Todo mundo especulava que o pai seria
traficante de drogas, dono de cassino clandestino, político influente ou mesmo
um empresário honesto com medo de escândalos.
O tempo passou. Vinte e cinco
anos depois, Júlio tornou-se um respeitado advogado (profissão que escolheu na
época em que defendeu o amigo valente), com muito dinheiro que ganhou em suas
causas vitoriosas. Casou-se com Rebecca e teve um filho que batizou de Mário em
homenagem ao seu herói dos tempos do colégio, que virou policial militar, mas levou
um tiro durante uma ação contra traficantes e ficou paraplégico.
Um dia Júlio lembrou de Giovanne.
Imaginou que, apesar de ter sofrido muito com ele na escola, ele deve ter se
regenerado e se tornado um homem honesto e respeitável. Contou para a esposa -
que desconhecia o brutamontes, pois conheceu o marido apenas na faculdade - que
sonhou com o inimigo de infância. E no sonho foi surrado por ele.
Religioso, Júlio acreditava
piamente que Giovanne virara um homem normal. Para eles, todos têm direito a
uma segunda chance. Por isso, iniciou uma busca por notícias do inimigo de
infância. Queria encontrá-lo e até se desculpar por supostamente tê-lo
chateado. Ou então ouvir, sem querer cobrar, um pedido de desculpas e
justificativas pelas ameaças que sofria. Sonhou com uma amizade madura e até
uma parceria nos negócios. Desejou rir de todas as brigas que tiveram no
passado.
— Você está louco, querido?
Levava surra... Questionava Rebecca, estranhando a decisão do marido, antes de
ser interrompida por Júlio.
— Não. Eu nunca apanhei dele.
— Mas você não acabou de dizer
que levou uma surra dele?
— Eu SONHEI que levei uma surra
dele.
— Mesmo assim. Você já me contou que
ele te humilhava, chantageava e ameaçava.
— Isso foi há vinte e cinco anos
atrás, Rebecca. Hoje ele já é um homem feito. Você está sendo preconceituosa.
— Se ele já fazia tudo isso
naquela época, imagina hoje? Eu não vou deixar você procurar esse cara! Nós temos
o Mário para cuidar e eu ainda sou muito nova para ficar viúva. Promete que não
vai procurar esse homem?
Júlio levantou-se da mesa do café
sem dar resposta. Despediu-se do filho que ainda dormia e foi para o
escritório. Em seu notebook acessou a internet e procurou pelo nome de Giovanne
Ribeiro Tagliarine, que era o nome completo do seu inimigo. Não achou nada.
Entrou no orkut e também nada encontrou.
Na verdade, só localizou dois
ex-colegas do primeiro grau: Luciano, um rapazinho tímido, que também era
provocado por Giovanne, principalmente pelo seu jeito efeminado, e Natália, a
menina por quem era apaixonado na época. Mandou e-mails para os dois.
Horas depois, o primeiro respondeu
que formou-se em jornalismo e assumiu a sua homossexualidade. Não sabia de
Giovanne e nem queria saber. Tinha trauma dele. Já Natalinha não tinha notícias
do bad boy do colégio há anos, mas deu um conselho de amiga, pelo bate-papo:
— Esquece esse cara, senão você
vai se arrepender. Ele é um bandido. Vai por mim.
Em vez de sentir medo, Júlio
encorajou-se ainda mais. Estava cego de esperanças em encontrar Giovanne
regenerado. Aliás, não era mais esperança. Já se tornara uma obsessão reencontrar
o cara que o humilhou por oito anos.
Júlio contratou um detetive que
estudou com ele na faculdade para descobrir o paradeiro de Giovanne. Um mês
depois, recebeu um dossiê: Giovanne Ribeiro Tagliarine é filho de uma
brasileira, Genilce, com um italiano, Pietro, empresário condenado por
contrabando, tráfico de drogas, homicídio, formação de quadrilha, falsidade
ideológica e corrupção. De Giovanne só conseguiu a informação de que ele fora
condenado na juventude por tentativa de homicídio e lesão corporal contra um
pedreiro que dormia na rua. Ficou seis meses preso. Mas logo ganhou uma
condicional. Atualmente administra uma fazenda no pantanal.
Júlio agora se convenceu. De que
Giovanne virou um próspero e pacato fazendeiro, descansando no interior da
violência da cidade grande.
Chegou em casa, arrumou as malas
e, com o endereço da fazenda de Giovanne nas mãos, partiu de avião do Rio para
Campo Grande, onde pegaria uma chalana para a fazenda. Mentiu para a esposa
porque, com certeza, ela faria um escândalo dramático e o impediria de viajar e
encontrar o ex-inimigo. Avisou apenas que foi para Brasília a trabalho, sem
dizer o motivo
Júlio não mostrou e nem comentou
sobre o dossiê para ninguém. Mas esqueceu em casa e a primeira a ler o material
foi Rebecca, que logo percebeu que a pasta não era nenhuma petição.
Desesperou-se. Deixou o filho na casa da mãe e correu atrás de Mário, o
verdadeiro amigo de infância do marido.
— Mário, você precisa me ajudar!
O Júlio enlouqueceu e viajou para o Mato Grosso do Sul para encontrar aquele
monstro que o humilhava na infância.
— Me desculpe, Rebecca. Gosto
muito de vocês, mas eu não vou poder ajudá-la.
— Como não???? O Júlio está
correndo muito perigo. Eu achei um dossiê sobre esse tal de Giovanne. O cara é
um bandido. Foi condenado por agressão quando jovem. É filho de um mafioso.
— Eu estou sem falar com ele há
três anos. Desde quando ele começou a dizer que queria encontrar esse cara.
— Mas só tem um mês que ele está
com essa paranóia. Ele começou a falar disso ao me contar um sonho que teve com
o tal de Giovanne que ainda o surrou.
— Só tem um mês que ele te conta,
né?
Depois de duas horas de viagem
desde o aeroporto da capital sul-matogrossosense, Júlio chegou à fazenda. Não
era uma simples fazendinha do interior. Era um latifúndio de um verde que doía
os olhos. O pasto por onde circulavam vacas holandesas e bois zebus era tão bem
aparado que parecia ser de veludo. Do outro lado do portal de mármore com
portas de mogno, havia um haras com dez cavalos puro-sangue e a mansão de
quinze quartos e vinte e cinco cômodos.
Mas Júlio não chegou a conhecer. Foi
recebido por três parrudos seguranças vestidos com terno e gravata de primeira
linha e esporas nos sapatos. Foram as últimas pessoas que viu antes de ser
acordado na enfermaria da fazenda por um coroa gordo, de cabelos brancos, rosto
bastante enrugado, olhos verdes e corpo forte vestido com um terno de linho impecavelmente
branco.
Ainda sentia o gosto enferrujado
do sangue na boca quando ouviu:
— Por que não disse antes que era
você, Júlio? Meu velho amigo de infância!
* Jornalista
e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias
que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos -
Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
Ainda está de pé, embora encurvado: pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto. Júlio, o submisso, ainda reza pela mesma cartilha. Cada um com sua obsessão.
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