Em ponto de neve
* Por Daniel Santos
Nas
últimas semanas de gestação de minha mãe, ela e as demais cerzideiras da
fábrica de tecidos, suas amigas, se deram conta: eu viria à luz no início de agosto, mas tinha já
de tudo. Ou quase: faltava o cobertor.
O lapso
era compreensível numa cidade quente por tradição. Assim, o salário de meus
pais cobria apenas as prioridades. Quanto aos agasalhos de inverno... Ah,
dava-se um jeito mais tarde, os parentes nos acudiriam!
De
fato, pouco antes de nascer, ganhei sapatinhos e gorro de uma lã tão macia que,
no dizer de uma tia muito inspirada, parecia “clara em ponto de neve”. De
qualquer forma, ninguém esquecia, faltava o cobertor.
Minha
mãe, criada no temor a Deus e reverente a todo tipo de autoridade, venceu a
timidez que sempre a franzira de frustrações e pediu certa vez ao chefe de
seção um bom corte de lã para me acolher. Em vão.
A
fábrica não ia bem, corria risco falimentar e, além disso, o fiscal da metragem
de tecidos era um cão de austero: qualquer desvio de material, disse o chefe,
punia-se com a dispensa sumária do responsável.
A
fiscalização cedia às cerzideiras retalhos de lã defeituosos, mas eram sempre
pequenos demais. No entanto, uma das amigas de minha mãe encontrou a solução:
“Se juntarmos todos os retalhos, teremos o cobertor”.
E
assim fizeram. Graças a essa corrente de solidariedade ganhei o que me faltava:
uma manta multicolorida de lã. Em ponto de neve... que logo ganhou consistência
em mim e resultou nos meus primeiros suspiros.
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
A união faz a força e o calor do cobertor. Nos dias que correm já não se vê tal solidariedade. Uma boa história.
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