Laércio Villar: som, talento
e magia
* Por Marcos Alves
O Brasil nos encanta em tudo que
representa a criatividade e originalidade do seu povo. E nos decepciona sempre
que parte dessa criatividade e talento ficam esquecidos ou impossibilitados de
exercer seu brilho. A Cultura geralmente nos chega como arte póstuma,
desinteressante, nos livros d’ história ou em coletâneas cada vez mais
duvidosas. Melhorou muito com a revolução digital, mas não o bastante para
recuperar décadas de descaso.
.
São milhares de casos que se ouve
por aí de gente com talento suficiente para viver da própria arte, e que jamais
chega a sobressair-se a ponto de se extrapolar os limites das relações
pessoais. Acompanha-se o trabalho do artista em vida e só. Com isso ficam
poucos registros. Às vezes chegam a valer uma fortuna.
Gente que arrebentou e pouca
gente conhece. Não há acervo. Não temos aquilo que poderíamos chamar de
Instituto de Preservação do Talento Nacional. As leis de incentivo à Cultura
são um passo importante, porém relativamente novo e de difícil prognóstico. O
melhor é que a arte seja financiada por muitos, para reduzir o risco da
intervenção indesejada no trabalho.
“Mas iniciativas vez em quando
surgem por aí, de pessoas e organizações com gosto especial pela coisa e... lá
vem Laércio Villar mais uma vez, para alegria das coisas da música!. Em Ouro Preto – palco
digno de uma viagem a bordo do talento desse monstro da bateria. Salve
Laércio!”
Essa foi a chamada de um cartaz
sobre o show do baterista Laércio Villar em Ouro Preto , no final de
2003. Conheci Laércio no começo dos anos 90 em Belo Horizonte , em
uma república – algo bem ouro-pretano por sinal! E posso dizer que assistir com
ele à simples apresentação de uma banda qualquer na TV valia por uma aula de
Filosofia: a conversa começava no som e depois se estendia por personalidades
do mundo, conjuntura, estilo de vida, quase sempre terminando com um prato
noturno para espantar a larica.
Laércio aparecia de vez em
quando, geralmente quando tinha alguma apresentação em BH. Ele residia em Moeda,
e para lá voltava no dia seguinte ao show. Mas deixou em nós uma marca
inextinguível dessa época, entre o final dos anos oitenta e a primeira metade
dos noventa.
Na época eu, então estudante de
Jornalismo, me meti a fazer um artigo sobre o Laércio como trabalho da
faculdade. Parte desse texto foi usada na produção do show em Ouro Preto. Vou
reproduzir alguns trechos aqui – por terem sidos ditados em pessoa, por Laércio
Villar e porque ajudam a reproduzir um pouco da personalidade desse mestre, e
também da atmosfera daquele lugar.
“Em Laércio Villar , a
música está nos gestos, convicções, posicionamentos. Quase tudo o que diz tem
que ser traduzido do ”Musiquês” para o Português. “A falta de harmonia é o mal
maior do mundo”, define. Sobre o tom das conversas em Brasília, aponta: “A
maioria dos políticos brasileiros desafina!”
A complexidade das seqüências musicais do Jazz
é definida em frases como: “O endereço é o mesmo”. E se vê uma banda ou cantor
esticando sempre a mesma nota, repetindo aquele refrão interminável, manda
sorrindo: “Estão cozinhando o galo”.
Laércio escolheu ou foi escolhido
pela música – e a ela dedica a vida. Sofre com as dificuldades que acabam
resvalando no lado pessoal. Como outros grandes artistas sentiu a falta de
traquejo com os negócios. Nunca achou graça em fazer música “comercial”. Por vezes o vi com os olhos embargados
confessar que ficava “um tanto perdido e desesperançado”.
É considerado um músico ousado
pela crítica, e um gênio pelos colegas de profissão. Tocou com Wagner Tiso,
Neném (baterista) e ainda se apresenta bem acompanhado, como no show em Ouro Preto , quando
tocou ao lado do baixista e tecladista Enéias Xavier. Foi quando o vi pela
última vez e me parecia bem disposto, sorridente e gentil como sempre.
Estava ao lado da família, e
exibia aquela aura dos mestres, logo depois de uma exibição. Espero encontrá-lo
novamente para renovar a conversa. Quem sabe dar seqüência ao projeto Ouro
Preto. Uma pena não haver outra forma de vê-lo – ou melhor, ouvi-lo tocar.
Laércio é artista fora de catálogo. Ninguém sabe, ninguém viu.
* Marcos Alves é jornalista. Formado em Jornalismo
pela Fafi-BH, atual UNI-BH, em Belo Horizonte.
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