Desafio da modernidade
Tão logo ocorreram as vertiginosas mudanças no Leste
europeu, nas duas décadas finais di século passado, prenunciando o colapso
mundial do comunismo – pelo menos desse “capitalismo de Estado” praticado por sete
décadas – foram feitas inúmeras análises por parte de cientistas políticos,
sociólogos, jornalistas etc., em livros, artigos, ensaios, entrevistas e vai
por aí afora, Algumas foram sumamente disparatadas, pelo menos naquele primeiro momento em que a “poeira”
ainda não havia baixado. Afinal, o mapa da Europa teve que ser praticamente
redesenhado, com os sucessivos colapsos, primeiro da União Soviética, e,
posteriormente, da Iugoslávia e Checoslováquia. Os ex-iugoslavos, notadamente
os sérvios, recorreram à luta armada para impedir a desagregação. Em vão. Milhares
de pessoas morreram inutilmente Já a separação de checos e eslovacos se deu de
maneira pacífica e consensual.
Na mesma ocasião, e também na Europa, ocorreu um movimento
oposto, ou seja, o de reunificação de dois povos da mesma etnia, origem, língua
e tradições, divididos em conseqüência da derrota do regime nazista na Segunda
Guerra Mundial. Refiro-me (e o leitor já percebeu) à unificação das duas
Alemanhas, dando origem a uma nova (em termos recentes, do pós-guerra, claro)
potência européia e global. As análises da época podem ser divididas em duas vertentes,
ambas carentes de equilíbrio e de realismo, conforme concluo relendo tais
opiniões. O tempo se encarregou de provar que as duas estavam equivocadas.
De um lado estavam os otimistas,
que acreditavam que o mundo estava no âmago de uma revolução universal, sem
armas e sem barricadas, que iria nos conduzir à construção de uma sociedade
muito melhor, mais justa, equânime e equilibrada do que a que então existia. Entre
tais analistas, incluiu-se o falecido papa João Paulo II, que acreditava que a
suposta derrocada do marxismo, aliada ao desencanto provocado pelo consumismo
ocidental caracterizada pelo “capitalismo selvagem”, levariam a humanidade ao
limiar de um renascimento da fé. Claro que não aconteceu nada disso, Ouso dizer
que o mundo está, até, mais perigoso e instável do que esteve no auge da Guerra
Fria.
No outro extremo, estavam os
pessimistas, que não viam, com a ausência deixada pela ideologia esquerdista
após seu fracasso, nenhuma perspectiva para os injustiçados, os despossuídos,
os segregados, as multidões de miseráveis e famintos da Terra. Estes apostavam
numa reversão, na vitória mundial da “ditadura do proletariado”, sonhando com
um igualitarismo que contraria a própria natureza. Afinal, nenhum ser humano é
igual ao outro. Mas este fato não pressupõe, também, nenhum domínio de um homem
sobre o outro, nenhuma exploração, por qualquer motivo ou razão. Obviamente,
também estavam errados.
Ser diferente não significa ser inferior. É isso que muita
gente não entende, ou por oportunismo (principalmente), ou por fanatismo ou,
simplesmente, por burrice mesmo. O fracasso de dois sistemas, surgidos nos
últimos 200 anos – comunismo e capitalismo – deixou, na verdade, um enorme
vazio ideológico, que poderia ser preenchido com algo novo, que corrigisse as
distorções de um e de outro, e aproveitasse as virtudes de ambos. Os pessimistas,
porém, não crêem nessa possibilidade. Nem eu. E prevêem o caos, o que também me
parece exagerado. O capitalismo ainda está aí, mas impotente para solucionar
suas próprias contradições. Creio que não tenha futuro. Não, pelo menos, com as
premissas atuais.
No meio desses dois grandes
grupos de analistas estavam os moderados, entre os quais me incluí na
oportunidade e ainda me incluo. Eram (e são) os que não costumam tirar os pés
do chão, mas que nem por isso se entregam a um frio e omisso desencanto. São os
que acreditam na potencialidade humana, mas sabem que o processo renovador tem
que começar com alguém e em algum lugar. São os que nunca perdem a “esperança”,
mas definem esse conceito de forma correta, como faz Erich Fromm, em seu livro
“Ter ou Ser?”, quando diz que ela “não é nem uma espera passiva nem um forçar
irreal de circunstâncias que não podem ocorrer. É como o tigre agachado que só
saltará quando chegar o momento de saltar”.
O que está aí, (e todos concordam,
embora muitos não admitam), precisa ser mudado, e com urgência, para não
agravar ainda mais o que já é muito grave.. Nunca funcionou, não funciona e
jamais funcionará. Mas o que construir no seu lugar? Como? Quando? Está aí
excelente desafio para homens de idéias, para pessoas que raciocinam e que não
se prendem a dogmas e nem se deixam fanatizar por ideologias nitidamente inexeqüíveis,
como, por exemplo, para escritores (por que não?)_ Que tal arregaçar as mangas e
pôr o cérebro para funcionar? Este é o grande desafio da verdadeira
modernidade!
Boa leitura.
O Editor.
Apenas um gênio para nos apontar o caminho nessa altura da civilização. Estamos equivocados, mas não sabemos como mudar de direção.
ResponderExcluirDestaco: "O capitalismo ainda está aí, mas impotente para solucionar suas próprias contradições. "
Pensando aqui.