Quem ensina o medo é protetor
* Por Daniel Santos
O
Velho do Saco assombrava minha infância com a sinistra ameaça de me levar para
sempre, em caso de rebeldia ou desobediência. E tanto medo eu sentia que
cheguei a pedir proteção divina em repetidas orações.
Ele
morava mais abaixo de nós – me apontou, um dia, minha mãe –, num casebre que
era imagem de indigência e abandono, e batia de casa em casa para recolher
jornais e garrafas cuja venda lhe rendesse o sustento.
Tinha
cara de mau, sim, e só a sua expressão bastava para nos espantar, mas de resto
... Por mais que observasse seu expediente pela vizinhança, nunca o vi enfiando
crianças malcriadas no saco de aniagem.
Nem
eu, nem os demais amiguinhos da rua. Um deles, tão curioso quanto eu sobre a
real identidade do Velho, me propôs que chegássemos até sua casa para
espioná-lo, a ver se cozinhava crianças para o almoço.
Que
nada! Embora incréu, jejuava como penitente. Penalizados, o amiguinho e eu
pegamos na despensa o que havia em excesso, colocamos à porta do coitado e
vimos pela fresta que ele comia a grandes bocados.
Voltamos,
então, para a rua que, enfim, nos pareceu nossa, de fato. Saltávamos como
cabritinhos felizes, porque, embora não soubéssemos, intuíamos: a solidariedade vencera o medo e
resultara na nossa liberdade.
Pouco
durou a festa. Ao darem pela falta de mantimentos e cientes de que socorríamos
o suposto ogro, nossos pais nos surpreenderam com uma surra à antiga. Sim,
nossos pais! Nossos pais, e não o Velho do Saco.
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras
em fase de conclusão, em 2001.
O desapontamento pode vir do lado oposto do esperado. Tudo fora do óbvio. Uma surpresa total.
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