Nazista em país tropical1
* Por José Paulo Lanyi
(O velho Klaus Baumer discursa em sua cadeira de rodas)
(Um dos Jovens fica em pé e o
saúda): Terra boa!
KLAUS BAUMER
BISMARCK
Sim, meu senhor!
KLAUS BAUMER
Conte-nos a história.
BISMARCK
Senhor, a minha avó era alemã e
foi dela que herdei meu belo nome e esses olhos claros. Mas o meu avô, senhor,
o meu avô (hesitante)...era...era...(falando baixo) índio.
KLAUS BAUMER
O seu avô era o quê? (exaltado)
BISMARCK
e perdoe, senhor. Não tenho culpa
disso e, como queria me redimir no nosso partido, decidi surrar o velho até a
morte.
KLAUS BAUMER
Humm...bem que achei estranho,
essa pele bronzeada... Nem estamos no verão...
HANS (levantando-se e apontando para Bismarck)
Ah! Um impuro! Um impuro!
(Jovens cercam Bismarck
ameaçadores, mas são contidos pela palavra de Klaus)
KLAUS BAUMER
Ordem! Ordem! Disciplina! Terra
boa!
JOVENS (sentando-se)
Terra Boa!
KLAUS BAUMER
Devemos limpar o chão sem deixar
que nossa boca fique suja, construtores. Lembrem-se das lições de vó
Frida.(para Bismarck) Levante-se, tropical! (Bismarck obedece-o) Pelos nossos
registros, o senhor está aqui há 13 meses, 28 dias, 7 horas e (olhando no relógio de bolso), 12 minutos e
13 segundos. É tempo suficiente para conhecer o nosso regulamento.(Mostrando os
papéis) No artigo terceiro da lei regulamentadora número 4, parágrafo quarto,
inciso segundo, temos: (lendo o estatuto) “Não serão aceitos (com ênfase)
jamais (!)... construtores cujos pais, avós e bisavós sejam: Judeus, negros,
(nova ênfase) índios, homossexuais, asiáticos, pobres, comunistas,
vegetarianos, nativos de florestas tropicais úmidas, portadores de doenças
infecciosas, hispânicos, cidadãos que não gostam de batatas, astrólogos,
eslavos, ecologistas, torcedores do Werner-Brehmen, árabes, pacifistas, indianos
e toda aquela gente, defensores dos direitos humanos, sacerdotes egípcios,
coveiros, cartomantes, jesuítas e por aí vai...É claro que isso reduz um pouco
o nosso exército... Mas é preciso lembrar os ensinamentos de vó Frida: “Nunca
venha para o meu colo sem tomar banho” E a sua pele encardida não nega
(esmurrando a mesa): o senhor é um ilegítimo! Aqueles que desobedecem o
regulamento devem ser punidos imediatamente! A sua punição (reflete com um
sorriso e olha fixamente para Bismarck)...é a morte! (ostentando os papéis) Tá
tudo aqui.(estala os dedos e do fundo saem dois negros). (para a platéia) Como
os senhores sabem, não devemos sujar a boca.
(Negros levam Bismarck embora.
Ele tenta reagir)
BISMARCK
Mas o Führer era moreno!
KLAUS BAUMER (esmurrando a mesa
várias vezes)
Não era! Não
era! Era louro! Era louro!
(Bismarck faz um gesto obsceno
para Klaus enquanto é conduzido pelos negros. Saem)
1- Da peça “Klaus Baumer”, de José Paulo Lanyi e Sergio
Carvalho Filho.
(*) José Paulo Lanyi é jornalista, escritor e dramaturgo, autor
do romance "Calixto-Azar de Quem Votou em Mim", do romance cênico
(gênero que criou) "Deus me Disse que não Existe", da peça
"Quando Dorme o Vilarejo" (Prêmio Vladimir Herzog) da coletânea
“Teatro de José Paulo Lanyi e Outros Loucos” (no prelo), e do livro “Balbúrdia
Literária” todos da editora O Artífice. Trabalha com o músico paulistano Flávio
Villar Fernandes, com quem compôs a trilha “Invernada” e a sinfonia
“Atlântica”.
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