Ladrão de
livros
*Por José Calvino
Esta é
mais uma história interessante que eu vou contar de Azambujanra. Nos anos 80,
havia uma grande livraria em Recife. Os furtos de livros eram grandes,
praticamente todos os dias úteis, a qualquer hora havia o flagrante delito. Os
livros furtados eram de autores diversos, geralmente os clássicos. Duas décadas
depois, já com a referida livraria fechada, no centro do Recife fora montado um Fiteiro Cultural, onde tentei em vão
ilustrar com literatura os freqüentadores dos bares próximos. Numa sexta-feira à noite, por esquecimento,
deixei alguns livros dependurados no lado de fora. No sábado pela manhã,
preocupado, fui à toda pensando em não mais encontrá-los. E não é que estavam
lá todos a salvo? Aos malandros e bêbados não interessara aquela riqueza de
livros expostos, alguns até raros. Esse ano, no recital “Pulsações Poéticas da
Cidade”,terça-feira (09/04), no qual eu havia confirmado a minha presença, com
o “Ói eu, lá, sem declamar!!!” Para a minha alegria, não é que encontrei o
poeta Azambujanra acompanhado de sua musa? Me convidaram para
quarta-feira eu conhecer a sua nova colossal biblioteca. Lá chegando,
Azambujanra então me mostrou um manuscrito do ladrão quando foi apreendido na
então livraria com o clássico Crime e Castigo, de Dostoiévski. Observamos que o
ladrão gostava muito de ler, extraindo trechos dos livros: “Se um viajante numa
noite de inverno”, de Italo Calvino que cita na página 215:
“(...)
Hoje vou tentar copiar as primeiras frases de um romance célebre, para ver se a
carga de energia contida neste início se comunica à minha mão; após ter
recebido o impulso certo, ela deveria se tornar capaz de avançar por sua conta.
Numa
noite extremamente quente em princípios de julho, um jovem saiu do minúsculo
quarto que alugava na ruela S... e se dirigiu, o passo indeciso e lento, para a
ponte K...
Copio
ainda o segundo parágrafo: é indispensável para que se apodere de mim o fluxo
da narração: ‘ Teve a sorte de não encontrar na escada a proprietária dos
quartos. Sua mansarda situava-se sob o telhado de um grande edifício de cinco
andares e mais parecida um armário do que um quarto. E assim seguidamente até:
Devia muito dinheiro à proprietária e temia encontrá-la.”
Comparando
com o Capítulo um do livro “Crime e Castigo”, de Dostoiévski – página 9:
“Nos
começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um
cubículo alugado, na travessa de S... e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte
de K...
Discretamente,
evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava
precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia
mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara... vivia no andar
logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante
da porta da cozinha, quase sempre aberta... E todas as vezes que procedia assim
sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o
sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la.”
Finalmente,
concordamos que o único ladrão que gosta de ler é o de livro!
* Escritor, poeta e teatrólogo.
Blog Fiteiro Cultural - http://josecalvino.blogspot.com/
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