Elite
e massa
* Por Pedro J.
Bondaczuk
As
sociedades humanas, desde tempos imemoriais, sempre precisaram de líderes, de
pessoas muito especiais, dotadas de iniciativa, com capacidade inata de
comunicação e talento, para guiá-las. Em cima dessa necessidade é que se
estruturaram as hierarquias --- desde as familiares (nos clãs), às tribais e
posteriormente comunitárias e nacionais. Como ocorre com todos os animais,
possivelmente até por questões genéticas, alguns indivíduos nascem com aptidões
maiores do que outros. São os que normalmente constituem as elites. Quando não,
transformam-se em rebeldes, em contestadores, em questionadores que não se
submetem ao status vigente. São os revolucionários, fatores essenciais de
mudanças, para o bem e para o mal.
A
maioria da humanidade, no entanto, é integrada por pessoas comuns. É composta
pelos que são incapazes de iniciativas ousadas ou de juízos mesmo que
rudimentares. Necessitam de quem as oriente, proteja e guie. Fazem parte do
padrão comum e são necessárias e indispensáveis. Constituem-se na força que
concretiza as idéias da elite. Devem, portanto, ser credoras, em uma sociedade
equilibrada e justa, dos mesmos direitos fundamentais dos que constituem a
"nata" social.
Os
estudiosos de ciências humanas (sociólogos, antropólogos, historiadores, etc.),
convencionaram denominar essa multidão de "massa". A ilação é óbvia.
É o conjunto passivo de ser moldado --- ou por idéias tidas por consensuais, ou
pela tirania --- ao bel-prazer dos condutores. Em geral é manipulado, mediante
os mais variados expedientes: pela força, pelo engodo, pelo suborno (o
"panem et circenses"), etc. O recurso mais utilizado nesta época dita
"de comunicação total" é o da propaganda. Esta induz, através de
técnicas testadas e comprovadas, as pessoas a pensar e a agir de uma
determinada maneira que a elite pretenda: consumindo o produto "x",
seguindo a moda "y", apreciando o ritmo "z", adotando a
ideologia "w" e assim por diante.
Alguns
ditadores manipulam essa generalidade chamada "povo" por métodos mais
cruéis e desumanos. Recorrem à atemorização, ao encarceramento, à tortura e às
execuções sumárias contra os recalcitrantes. Conquistam, por outro lado, a
lealdade irrestrita dos detentores da força, que os mantêm no poder. Foi o caso
de Adolf Hitler, que com sua loucura quase destrói a civilização. O
"füherer" alemão costumava dizer: "As massas são virgens
histéricas, loucas para serem violadas". Uma perversidade, evidentemente.
Mas ainda assim realidade.
O
dramaturgo e poeta germânico, Friedrich Schiller, não escondia uma pontinha de
rancor pela vulnerabilidade dessa torrente humana, base da pirâmide social, mas
que por sua falta de clarividência, pela sua cegueira em enxergar o óbvio,
impede, muitas vezes, a evolução humana. Em "Fiesque", deixou
registrada esta magnífica citação: "O povo! esse colosso cego e sem
discernimento que começa por fazer grande alarido com os seus pesados
movimentos, cuja raiva devoradora ameaça engolir tudo! quer o que é elevado,
como o que é vil! o que está longe, como o que está próximo! e que afinal
vacila...sobre um fio!".
A
civilização, em seus aspectos mais nobres, como a ética, o direito, a justiça
social e a solidariedade, só evolui quando líderes iluminados e lúcidos
conseguem conduzir esse imenso rebanho humano na direção do bem comum. Poucos,
porém, são os povos e períodos que contam com essa felicidade. Daí a história
apresentar recuos e avanços que se sucedem e se mostram intermináveis através
de gerações. As pessoas consideradas "comuns" sequer têm culpa disso.
São frutos da educação que recebem, determinada pela elite. Esta é que decide
"para o quê" os indivíduos devem ser educados. Ou seja,
condicionados.
Nelson
Rodrigues, com a sua conhecida irreverência, expressou, com a crueza que lhe
era peculiar, como agem as massas e o quanto são vulneráveis, influenciáveis e
volúveis. Escreveu, em uma de suas polêmicas crônicas: "Ponha o cretino
fundamental em cima de um caixote de querosene jacaré e mande-o falar. Ele
dá um berro e, imediatamente, milhares de cretinos fundamentais se
arregimentam". A única forma de dificultar essa manipulação é fazer o povo
pensar. Castro Alves via no livro o instrumento para tornar isso possível. Mas
como convencer insensatos, acomodados, lerdos de raciocínio, os que sequer
sabem a razão de estarem no mundo e que têm como supremo objetivo (e na maioria
das vezes o único) a satisfação dos sentidos, da importância da leitura? Como
fazer esse povo pensar?
* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio
Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor
do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico
de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos
livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos),
além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Com textos como este. Pega fundo e mesmo os insensatos vão pensar um pouquinho. O desafio é fazê-los ler, pois caso o escrito tenha mais de cinco linhas,"é longo demais. Leio mais tarde".
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