Presságios
* Por
Assionara Souza
Antes do tempo estou
lá, à espera. À espreita de uma realidade hipotética. Os dados jogados no
tabuleiro. Previsibilidade dentro do imprevisível. E o que pode acontecer é não
acontecer. Dirijo-me cegamente ao imprevisível. Mil pensamentos antecedem o
talvez. Imaginar antes é uma inútil ansiedade. Imaginar olhos e mãos escrevendo
uma dedicatória no livro comprado em usados: "Que a literatura jamais
contamine o seu amor". Imaginar depois uma viagem para um país distante do
país Brasil é tristeza e saudade e vontade de reter o que já escapou. Tudo é
instável dentro do avião.
A criança ao meu lado
baba o ombro esquerdo da mãe com a ansiedade dos dentes por nascer. No tempo em
que ela afasta e aproxima a boquinha vermelha, uma mosca pousa e distancia-se
do local repetidas vezes. A mordida molhada e sem dentes não é uma sensação que
percebo e gosto. Por causa da mosca. Mas quem estivesse de frente para a mãe,
perceberia somente sua boca aberta recebendo das mãos do marido um comprimido
como se uma hóstia. A mãe parece infinitamente triste. A criança vai crescer e
certamente não estará pronta para receber o amor cego do mundo tanto quanto
está agora. O tempo é velho e sem mãe. Não ama.
O garoto na poltrona
ao lado veste verde e tem vontade de entender porque tanta solidão numa só
tarde. Distrai-se com eletrônicos que não trazem qualquer alegria e acentuam
mais ainda a ansiedade. A realidade provisória. Se houvesse música seria
possível deslizar. As vozes perpassam umas as outras sem peso, como pequenas
mariposas que circulam na luz do poste em frente à casa simples em que os pais
do garoto nasceram. Insetos fadados à morte breve e sem memória.
Os dados caem no pano
verde da mesa. Vejo chegar a imagem que temo sempre. O espaço se imobiliza. A
imagem tem muito poder. E tem muito sentido. Além das vozes. Além das outras
visões. Move-se diante dos meus olhos. O meu olhar é insuficiente. A imagem
chega e tem forma e pensamentos. A geometria dentro da aeronave se reconstrói.
O momento está a ponto de ser gravado. Os meus sentidos fazem o cálculo da
imagem. Lembro que na mesma tarde falei ao telefone com a amiga. Lembro que a
fragilidade comoveu meu coração. Cortar delicadamente o corpo para que se tenha
a impressão de que tudo foi feito para evitar o pior. Cortar e ver dentro da
carne se não há ali algo que possa crescer e impedir planos futuros.
Tenho diante dos olhos
a imagem. A imagem me corta com sua lâmina de ausência. Fere a carne de meus
pensamentos e desmorona um cenário preparado com antecedência. De repente
sombra. E de repente nuvens densas. Não mais córrego e sim ferrugem de
encanamento antigo. Sou a água escura que desce obediente ao comando de uma
qualquer torneira aberta.
Lembro que a voz da
amiga pareceu frágil e forte na mesma proporção. O que eu quero da imagem não
depende de mim. Não depende porque não tenho a chave. Não depende porque a
palavra é menos que corpo. Não depende porque tudo à volta continua indiferente
a minha vontade. Tudo à volta é indiferente ao que eu chamo de realidade.
Na sala de cirurgia,
um médico jovem prepara-se. Uma foto, por favor, para usar no filme da
formatura! A mãe é séria e não sorri. Espanta-se com a mosca morta no canto da
boca da criança. Minha cabeça oscila entre o lado interno e externo da imagem.
Não faz sentido fingir que não presenciei a cena. A seqüência é simples. Uma
vida pessoal escorrendo por um cano insignificante de toda a grande tubulação.
Uma vida pessoal que pode viver sem o luxo da opinião alheia. E que não deixa
de sentir nem por um dia o sol e o vento e o frio e a chuva. E se emociona
apesar de toda a estrutura indiferente ao seu redor.
A narrativa dessa vida
pessoal é flagrada por mim. O jovem médico dentro do tempo marcado abriria a
carne na altura do coração onde a realidade é mais sentida. Nunca aceitei que
rissem de coisas tristes. Nunca suportei estúpidos julgamentos. Eu diante da
imagem que parecia para mim ter a força de um presságio. E por isso me atingia
por dentro como um corte na carne anestesiada.
Tento me concentrar no
fluxo do tempo que corre por fora. E retribuo a mudez do olhar. Penso que sou
todos os que passaram por mim. E a realidade é essa conexão do que está fora:
enquanto eu olho a imagem; e do que está dentro: presságios. O corpo na mesa de
cirurgia. Fecho os olhos. Estou do lado de fora. O barulho intenso e a
velocidade existem sem mistificação.
* Escritora
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