sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Retrato do cotidiano


* Por Roberto Corrêa                                          


Viver o cotidiano somente é simples para as crianças e os jovens. Os jovens encaram a vida com mais naturalidade, não se preocupam com problemas físicos ou metafísicos e com isso vivem o momento que passa. As crianças, na maravilhosa candura e inocência, no desprendimento total, na absoluta confiança nos pais  são ainda mais felizes do que os jovens. Os adultos, porém, coitadinhos, enfrentam a dura realidade. Á medida que os anos passam, as ilusões vão desaparecendo, a realidade vai se tornando crua demais e o cotidiano,  infelizmente, não representa mais dourados momentos, uma felicidade sonhada e desejada. Ainda mais nos tempos atuais de curtição das más notícias, das mortes e dos assassinatos fantásticos e inesperados, terrorismo, atentados, sequestros e toda a gama de ações humanas perversas e chocantes.

Para libertar o nosso cotidiano  dessa carga nociva de pessimismo atemorizante,  não é fácil. O trabalho representa o pensamento positivo e cheio de frutos contra os males do cotidiano. Acontece, porém, que o homem, criatura remida, mas sempre pecadora, se excede em tudo. Com muita dificuldade consegue trabalhar dentro da normalidade. Ora se excede, trabalhando exageradamente, ora se omite deixando de trabalhar. A sociedade que deveria facilitar tudo, promover a perfeita acomodação dos indivíduos que dela fazem parte, geralmente se omite e o que acontece são esses problemas todos que temos pela frente e não sabemos como resolver. Há uma grande parte da população desempregada, procurando meios para sobreviver e há outra porção trabalhando exageradamente, perdendo a saúde e a alegria, geralmente em benefício dos magnatas, dos donos do poder, do dinheiro e da terra.

Deus, porém, se encontra ausente. Ninguém comenta a sua presença, as razões de viver, o destino que nos espera, o curto tempo da existência humana e tampouco se interessa pela solidariedade e fraternidade. Assim, todos procuram acomodar as suas vidas e dificilmente se interessam em colaborar com o próximo. Essa colaboração, porém, poderia vir da própria sociedade, ao menos facilitando a vida dos cidadãos, diminuindo os entraves burocráticos inúteis, uma vez que na prática, a vantagem dos agrupamentos humanos tem se restringido, sobretudo, aos serviços de água, de  energia elétrica ou não, de comunicações telefônicas. O cotidiano vazio, monótono  ou atarefado é uma tristeza, principalmente se a esperança - que deve sempre animar o homem-, estiver ausente. Felizmente, não senti nenhum atrativo em relembrar o cotidiano do idoso, dos enfermos, dos hospitalizados dos sofredores em geral, a partir dos pobres de baixa renda, aos encarcerados em lúgubres presídios etc.,  evitando reflexões tão pesadas e doridas. Quanto ao cotidiano dos magnatas do poder e daqueles imersos nos prazeres que a vida material pode oferecer somente os vinculados ao mundo de Belial o poderão fazer com maestria.

Roberto Corrêa é sócio do Instituto dos Advogados de São Paulo, da Academia Campineira de Letras e Artes, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico, de Campinas, e de clubes cívicos e culturais, também de Campinas. Formou-se pela Faculdade Paulista de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Fez pós-graduação em Direito Civil pela USP e se aposentou como Procurador do Estado. É autor de alguns livros, entre eles "Caminhos da Paz", "Direito Poético", "Vencendo Obstáculos", "Subjugar a Violência”, Breve Catálogo de Cultura e Curiosidades, O Homem Só. 


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