Fixação de Machado de Assis por
borboletas
Os títulos dos dois primeiros livros de Machado de Assis (por
sinal, ambos de poesias), respectivamente “Crisálidas” e “Falenas”, sugerem
certa fixação (obsessão?) do escritor por borboletas. Seria só coincidência?
Não creio, levando em conta a inteligência dele e seu gosto particular por símbolos, ou
melhor, por metáforas. O leitor, que não costuma consultar dicionários,
provavelmente estará perguntando: “Onde entram as borboletas nesta história?”.Estou
certo que não faria esta pergunta (que a maioria certamente não está fazendo) se
atentasse para o significado dessas duas palavras. Ou se, caso não soubesse
(ninguém é obrigado a saber de tudo), recorresse ao Mestre Aurélio, também
conhecido como “Pai dos Burros”, para se esclarecer.
“Crisálidas” é uma das derradeiras fases do desenvolvimento
de uma borboleta, uma espécie de “hibernação” dessa frágil criatura, que
integra a ordem Lepidóptera (um dos maiores grupos de insetos, com aproximadamente
150 mil espécies, ou 15% de todos os conhecidos), antes de ocorrer a
metamorfose. E é esta última etapa que a transforma tão radicalmente. Torna-a de
feia e repelente larva em gloriosa e colorida borboleta. Em texto anterior,
especulei sobre o que teria levado Machado de Assis a escolher esse título para
seu livro de estréia. Interpretei como uma espécie de promessa do então jovem
poeta. Ou seja, que dessa “crisálida”, que era aquela obra inaugural, surgiria,
na sequência, gloriosa borboleta. E que borboleta surgiu, posto que não
propriamente no segundo livro!!!
O leitor que desconheça o significado de “falenas” e que não
tenha, portanto, ainda recorrido ao dicionário, apesar da minha provocação,
deve estar insistindo na pergunta inicial. Ou seja: “O que esta palavra tem a
ver com borboleta?” Pois saiba que tem tudo. É verdade que não com aquelas
coloridas, que voam de flor em flor e se confundem com as pétalas das mais
bonitas. Porquanto falenas é a designação de um tipo de borboleta. Só que para
vê-las, você terá que ser notívago, porquanto são noturnas. Aliás, são o terror
de quem cultiva plantas em estufas, pois elas lhes são sumamente nocivas. Como
a língua é dinâmica, o povo atribuiu às falenas sentido figurado, nada poético,
considerado até palavrão. Ou seja, o de meretriz, prostituta ou, no popular,
puta. Opa!! Será que Machado de Assis quis dar essa conotação pejorativa aos
poemas do seu segundo livro? Não creio! Mas... nunca se sabe. Quem poderia
dizer por que escolheu os dois títulos que conhecemos, para seus dois primeiros
livros, seria ele. E, ao que me consta, ele nunca revelou a ninguém suas
razões.
Cá para nós, “falenas” nem mesmo é uma expressão tão rara em
poesia. E nem precisa ser da fase do Romantismo e muito menos utilizada por
poetas do passado. Muito menos ainda precisa ter a conotação popular. Pode ser
(e é) usada no sentido literal, de borboleta noturna mesmo (que creio que era
no que Machado de Assis pensava ao intitular seu segundo livro). Ah, vocês não
se lembram de nenhum poema que tenha essa palavra? Têm certeza? Se vocês forem fãs
de Chico Buarque de Hollanda, não só já a ouviram, como até possivelmente cantaram.
Duvidam? Pois bem, na composição de “Mulheres de Atenas”, o criativo compositor
popular diz, em determinado verso:
“Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas (...)”.
Está aí a tal palavrinha!!!. E Chico Buarque utilizou-a no
sentido figurado, no pejorativo, no de meretriz, prostituta (enfim, no popular,
no de “puta”). Quando o sujeito está compondo a letra de alguma canção (ou
algum poema, o que vem a dar no mesmo), não raro empaca quando quer encontrar rimas
criativas terminadas em “enas”. Mas que não sejam as tão comuns, como “serenas”,
“pequenas”, “cenas” ou “amenas”. Caso tenha bom vocabulário e conheça seu
significado, dá um jeito qualquer de caberem as tais borboletinhas noturnas,
vorazes a ponto de darem cabo de árvores até de uma floresta inteira. Ou das
infelizes “mariposas humanas”, como queiram.
Sei que esta minha revelação sobre a suposta fixação (ou
seria obsessão?) do Bruxo do Cosme Velho por borboletas não irá valorizar e nem
desvalorizar sua obra, ou, especificamente, seus dois primeiros livros. É mera
curiosidade de um bisbilhoteiro, interessado em tudo o que se refira ao nosso
principal escritor, uma espécie de paradigma para todos nós. Mas tenho certeza
que Machado de Assis, fanático por originalidade como era, se estivesse vivo,
mesmo que contestasse publicamente minhas especulações, em particular, sem que
ninguém o visse, as acharia, no mínimo, originais. E duvido que não daria um
sorriso, mesmo que à socapa, daqueles com os cantos dos lábios, carregadíssimos
de ironia. Concluo, pois, estas digressões especulativas com a expressão popularíssima
na Itália: “si non é vero é bene trovato”...
Boa leitura.
O Editor.
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Prevaleceu o bom-humor, e as suas mal traçadas reflexões ficaram bem "traçadíssimas", para nossa alegria.
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