domingo, 24 de outubro de 2010




Secreção

*Por Márcio Juliboni

Meu pesar é glândula que acumula
o que os sentidos não nomeiam.
Quando muito, poreja pelas mãos,
manchando folhas de papel
com essa bílis negra.
Meu poema é secreção.
Meu canto aquém-se à garganta.
Reflui pelo corpo, macera as entranhas.
Pudessem os rins filtrar os olhos!...
Tudo o que vejo me intoxica.
Sorvo a realidade por peristAustismo...
Há muito, busco a toxina que me fadiga os músculos,
mas o intangível também se retesa.
Minha alma sente cãimbras de tristeza
e o oco da boca é apenas o abandono de uma palavra
que desistiu de chegar.
A consciência é uma solitária a roer-me os ânimos,
porém, já testei a ineficácia da utopia como vermífugo...
Pudesse trocar de certezas como o pulmão troca de gases,
ou aliviar-me com a pragmática leviandade da bexiga...
Minha crença é um membro amputado
do qual minha mente não se esquece.
Por vezes, sinto cócegas de acreditar,
mesmo sabendo que o membro não está lá.
As respostas que trago à mão
são apenas uma elegante bengala
para evitar tropeços públicos.
De tempos em tempos,
sorrio à passagem de algum ex-pasmo.

*Jornalista, cobre Economia e Negócios no portal Exame. Trabalhou no serviço de notícias online, “Panorama Setorial”, do jornal Gazeta Mercantil, na Agência Estado e em várias revistas segmentadas. Iniciou a carreira na grande imprensa em 2000.

Um comentário:

  1. Escolhas fortes de palavras para demonstrar um fato engasgado.

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