Retatuando
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Por Marcelo Sguassábia
A
ideia é fantástica: tattoo imitando pele, para ser aplicada por
cima do corpo tatuado, simulando uma derme zero quilômetro. Um
processo caríssimo e muito mais demorado do que encher o corpo de
dragões, flores, âncoras, crânios, frases e assemelhados.
Há
uma vasta escala de cores com todos os tons de pele possíveis e
imagináveis. Encontrado o tom exato do cliente, este passará
semanas aos cuidados do tatuador, tendo que suportar um total
estimado de 4 trilhões de agulhadas até que a falsa nova pele fique
pronta.
A
nova tecnologia tem duas finalidades principais. A primeira é
possibilitar a reversão do que até agora era irreversível,
deixando o corpo da forma com que veio ao mundo. A segunda é como
limpar um muro todo pichado e deixá-lo pronto para nova pichação.
Ou seja, uma solução voltada aos amantes compulsivos dessa antiga
arte – aqueles que só não carregam mais tatuagens em si por falta
de espaço na carcaça.
O
primeiro público consiste, em sua maioria, de evangélicos
neoconvertidos, que de uma hora para outra encasquetam que seu corpo
é a morada do Senhor e, como tal, deve ser mantido do jeitinho que
foi criado. E também dos desiludidos do amor, que aplicaram em si
mesmos frases ou extensas declarações de paixão eterna, com o nome
da cara metade, e acabaram por levar um pé na bunda.
Já
o segundo público, bem mais “outsider” que o primeiro, terá a
sensação de portar sobre si um verdadeiro parque de diversões,
podendo substituir desenhos e símbolos que considere ultrapassados
ou dos quais já esteja farto de carregar pra baixo e pra cima. Para
esses alternativos, seria como nascer de novo – abrindo seus corpos
para o inenarrável prazer de entupir cada poro de tinta.
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Marcelo
Sguassábia é redator publicitário. Blogs:
WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e
WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Fui lendo e imaginando meu filho falando. Achei uma ideia totalmente original e sem precedentes. Ele não tem tatuagens.
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