Enigmas sem decifração
O
amor entre um homem e uma mulher é um enigma indecifrável que,
quanto mais procuramos decifrar, mais e mais nos emaranhamos em
milhares de novas dúvidas e infinitas indagações. O que ele é,
afinal? Qual a sua natureza? O que define sua origem? Qual a sua
duração? Enigmas! Múltiplos e intrincados enigmas a desafiarem
nossa capacidade de racionalização.
O
amor, em resumo, é meramente atração sexual entre pessoas de sexos
opostos? Muitos entendem que, no final das contas, é isso mesmo.
Evidentemente que não é (ou, pelo menos, não é “apenas”
isso), embora esse fator seja relevante para aproximar dois seres
humanos que se amem. Posso ser atraído sexualmente por uma fêmea
esplendorosa e, após saciar meu instintivo desejo, não sentir mais
nada, absolutamente nada por ela, a não ser profunda indiferença (e
vice-versa).
É,
então, identidade de pensamentos, sentimentos e vontades? Estes
fatores podem, de fato, estar presentes num relacionamento amoroso (e
é desejável que estejam). Contudo não o definem e nem o
caracterizam. Há muitas, muitíssimas pessoas que pensam da mesma
maneira, sentem o que outras sentem, têm os mesmos planos e ideais
e, no entanto, não se amam. O oposto, igualmente, é verdadeiro.
Ademais,
é impossível saber com certeza, com absoluta e total segurança, o
que alguém do seu lado realmente pensa, sente ou deseja. Essa pessoa
pode, perfeitamente, dizer uma coisa e pensar, sentir e desejar outra
completamente diferente. Como saber se está dizendo a verdade? Não
há como.
Um
casal vive, às vezes, anos e anos sob o mesmo teto, compartilha seus
corpos, festeja bodas de prata, de ouro e de diamante, constrói uma
vida em comum, gera e educa filhos, é presenteado com um punhado de
netos, reúne considerável patrimônio material em parceria e, no
entanto... não se conhece. Amiúde, um se surpreende com atitudes
inesperadas do outro, para o bem ou para o mal.
Qual
a razão de nos apaixonarmos por determinada pessoa e não por outra
qualquer, das bilhões do sexo oposto que há mundo afora, não raro
mais belas, melhores dotadas de inteligência e cultura, de
comportamento mais exemplar e repletas de virtudes em muito maior
quantidade do que a que escolhemos? Existe algum motivo especial?
Deve existir, mas qual? Mistério! Insondável mistério!
Conclui-se,
pois, que o amor não é para ser racionalizado, mas vivido
plenamente, com o êxtase e o sofrimento que produz, enquanto durar.
E dura para sempre? Depende o que essa palavra “sempre”
signifique para cada um.
Há
casos em que sua existência se limita a um único dia, se tanto, que
nos parece uma eternidade pelas sensações e lembranças que produz.
E que permanece em nossa memória intenso, vivo e verdadeiro enquanto
vivermos. Há outros que vão até além do túmulo e perduram por
anos e mais anos após a extinção física da pessoa amada. Como se
vê, só há enigmas nessa questão. Complexos, profundos e
indecifráveis enigmas.
O
escritor português Casimiro Brito escreveu, a propósito, no livro
“Arte da Respiração”, estas palavras que vêm a calhar nestas
descompromissadas considerações: “Amar-te é decifrar
humildemente um enigma que não tem decifração porque a todo o
momento as águas passam e bebê-las e banhar-me nelas é bom e não
há mais nada”.
É
isto o que você tem que fazer, caso tenha o supremo privilégio de
ter um amor: gozá-lo em sua plenitude e esplendor, a cada segundo
(pois é eterno... enquanto dura). Esqueça as racionalizações. Não
tente decifrar um enigma que não tem decifração. Não queira saber
sua origem, natureza, finalidade ou duração. Viva-o com o máximo
de intensidade que puder.
“Beba
e banhe-se” nas suas águas e verá o quanto isso é bom. Acredite
que “não há mais nada”, mesmo que haja, não importa. O amanhã?
Bem, esqueça do amanhã, que, ademais, você pode sequer ter.
Futuro?
Não se preocupe com ele. O amor é intemporal. Faz seu próprio
tempo. Preenche todas as fases da sua vida, embora se realize no
presente, que é o que você tem nas mãos, o seu patrimônio e a sua
riqueza, que por isso precisa valorizar. Sobretudo, ame. Ame profunda
e irrestritamente, sem reservas, temores ou preocupações.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Eu já me apaixonei e amei seis vezes. Será um número grande, pequeno? Há quem nunca tenha amado na vida.
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