Fantasiar é preciso
A
fantasia, ou seja, o ato de imaginar pessoas, mundos, coisas e
situações que não existem, que são criadas exclusivamente pela
nossa mente, se bem dosada (afinal, tudo o que é em excesso tende a
ser nocivo) nos é sumamente útil. Diria, com a ressalva que fiz
(quanto à dosagem), que chega a ser essencial e imprescindível.
Queiram ou não, trata-se, entre outras coisas, de matéria-prima dos
escritores, notadamente dos de ficção, embora seja, igualmente,
explorada ad nausea pelos poetas.
Claro
que é indispensável que tenhamos tirocínio para distinguir
fantasia de realidade. Ou seja, compete-nos ter sempre em mente o que
não passa de mero sonho, ou simples idealização, do que de fato
acontece ou aconteceu a nós ou que testemunhamos ou ouvimos. Somos
treinados, desde muito novos, para o exercício da fantasia. Afinal,
o que são os brinquedos de criança se não isso? O que são as
histórias infantis, que nos marcam a infância e influenciam até
nossa conduta vida afora? Portanto, não sou contrário (e nem
poderia ser) às fantasias. Mas, reitero, com as devidas ressalvas.
Com a consciência de que aquilo que fantasiamos não existe, de
fato, embora algumas dessas “projeções” possam, eventualmente,
vir a existir. Nunca se sabe.
O
mundo da fantasia, aquele do faz de conta, o dos nossos sonhos, tem
as dimensões exatas dos nossos desejos. Difere – e me perdoem se
estou sendo repetitivo – em muito, quando não em tudo, do real,
onde temos que lutar pela sobrevivência, sem muito espaço (às
vezes até sem nenhum) para correr atrás de abstrações.
Preocupações imediatas nos desafiam, como conseguir um teto para
nos cobrir a cabeça, o alimento que nos mantenha as forças, o
acesso à educação e à cultura para que conservemos nosso tênue
verniz de "civilização", o usufruto das conquistas da
medicina para manter nossa saúde e prolongar nossa vida etc.
O
que desejamos pode ser tanto a mola que nos impulsione às grandes
realizações, quanto a fonte de toda a nossa infelicidade. E é
muito difícil, senão impossível, filtrar o factível, o
concretizável e o realizável do somente desejável. Alguns desejos
exigem cumplicidade para que se realizem. Jamais uma única pessoa,
de forma isolada, teria condições de realizá-los, dadas sua
abrangência e complexidade.
Todavia,
precisamos da fantasia para sobreviver enquanto seres pensantes.
Necessitamos, mais do que admitimos, daquela que é a matéria-prima
das artes e a consoladora mor dos homens. Ninguém resiste à
realidade absoluta. É como olhar diretamente para o Sol. Ela nos
cega e até nos mata. Há um poema de Raul Leoni que não me canso de
citar em minhas crônicas, que diz, em determinado trecho:
"O
homem desperta e sai, cada alvorada,
para
o acaso das coisas...E, à saída,
leva
uma crença vaga, indefinida,
de
achar o Ideal em alguma encruzilhada…"
Alguns
conseguem e abraçam-no ferozmente, para que não mais escape. Outros
prosseguem nessa busca incansável, dia após dia, ano após ano, em
vão. Mas a simples procura já lhes preenche a vida.
Por
que o futuro sempre nos parece tão promissor, mesmo que nosso
presente seja sombrio e repleto de dificuldades? Afinal, trata-se de
uma contradição. Objetivamente, vivemos, a conta-gotas, cada hoje,
que é o tempo em que temos condições de agir. O ontem é somente
lembrança e não pode ser modificado e o amanhã, queiram ou não, é
imensa incógnita.
Ocorre
que o futuro é sempre movido a esperança. E não somente por ela,
mas por considerável dose de fantasia. Contamos que, nele, as
circunstâncias eventualmente desfavoráveis atuais, haverão de se
reverter e se modificar para melhor, mesmo que pareça (e seja)
improvável. O que fazemos, na verdade, é dar asas à fantasia que,
como sabemos, tudo pode, mas (infelizmente) apenas no plano abstrato.
No terreno do concreto... Todavia, ela é nossa grande consoladora.
Alimenta nossas esperanças. É antídoto para o desespero. Na dose
certa, portanto, é benigna, quando não essencial. O antropólogo
italiano Paulo Mantegazza explica a razão desse comportamento, ao
escrever: “O futuro é sempre belo, porque viaja na barquinha da
esperança, cujas velas dilata aquela brisa inebriante, que é a
fantasia”. E como ela inebria!
Podemos
distinguir, nitidamente, no mundo, dois grandes grupos de pessoas,
com suas múltiplas, quiçá infinitas variantes: o dos que se dizem
"realistas" e o daqueles que se consideram "idealistas".
Ambos os conceitos, destaque-se, são ambíguos. Ninguém se
enquadra, de forma rigorosa e absoluta, em nenhuma das duas
classificações. Todos temos, em proporções diversas, uma mescla
de idealismo e de realismo.
Afinal,
como perguntei inúmeras vezes nestas reflexões diárias, o que é a
realidade? O que é fantasia? As coisas são, mesmo, o que aparentam
ser? Não somos iludidos pela precariedade dos nossos sentidos e pela
nossa pequenez, em um universo de dimensões aparentemente infinitas?
Certamente que sim! O poeta T. S. Elliot chega a afirmar que "o
gênero humano são suporta a realidade" (supondo, é claro, que
seja mesmo possível chegar a ela). Precisamos de sonhos, de
fantasias, de ideais para dar sentido e razão à nossa vida.
Auguste Kekulé, o célebre
químico e professor alemão, recomendou, em 1890, aos seus alunos:
“Vocês devem aprender a sonhar. Então, talvez descubram a
verdade”. Ou seja, recomendou-lhes que recorressem, amiúde, à
fantasia. E isto, ou seja, explorar o mundo dos sonhos e expressar o
que “viram”, na linguagem mágica dos anjos, os poetas sabem, e
de sobejo. Por isso, antecipam o futuro. E o fazem com mais graça e
mais beleza (e, claro, com maior verdade), do que furibundos e
enlouquecidos profetas, a nos ameaçarem com as mais terríveis
desgraças e provações. Já os poetas abrem-nos as portas do
Paraíso para que, pelo menos em sonho, possamos usufruir das suas
delícias. Por isso...reinventam a vida..., uma vida com charme,
graça e glamour.
Como
todo sujeito normal, tenho, também, muitas, diversas, inúmeras,
possivelmente infinitas fantasias. Sonho e sonho demais. Sonho com um
mundo de harmonia, paz e felicidade, em que haja absoluta igualdade
de direitos e deveres entre as pessoas. Sonho com um paraíso na
Terra em que as contradições que nos dividem e desumanizam hajam
sido superadas. Sonho com o dia em que não existam mais excluídos e
nem os que excluem, oprimidos e opressores, poderosos e humildes.
Sonho com um mundo que prescinda de leis, governos, exércitos e
tribunais, em que todos conheçam suas obrigações, sem necessidade
de serem fiscalizados.
Meus
sonhos avançam na proporção das minhas fantasias. Sonho com um
mundo em que o amor sem limites seja a única Constituição dos
povos, irmanados em um só ideal, sem fronteiras e separações.
Sonho com uma sociedade irmanada e una em que estes versos do poeta
Thiago de Mello, no poema “Os Estatutos do Homem”, sejam mais do
que mera poesia:
“O
homem
não
precisará nunca mais
duvidar
do homem
que
o homem confiará no homem
como
a palavra confia no vento
como
o vento confia no mar
como
o ar confia no campo azul do céu...”
Perdi a capacidade de sonhar. Entendo que está sendo um desastre.
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