Lembranças
*
Por Eduardo Oliveira Freire
Uma
vez li uma crônica da Clarice Lispector na qual ela conta que ao
escrever uma crônica, sente-se mais exposta do que quando escreve um
livro de romances ou de contos. Concordo. A crônica, muitas vezes, é
o reflexo de nossos sentimento e o que achamos, sobre a sociedade em
que vivemos.
Lembro-me
que quando era mais novo sentia esperança de mudança, ao ver minha
mãe chegar em casa com tudo novo: livros, cadernos, lápis, canetas
e borrachas.
Prometia,
intimamente, estudar com mais afinco, fazer amigos, curtir a vida
como todo mundo e ter mais cuidado com o material escolar, para não
perder mais nada.
Porém,
ao longo do ano repetia os mesmos erros. Minha alma preguiçosa e
bestial dominava meu corpo, ganhando sempre a batalha.
Não
conseguia me disciplinar, para organizar o meu tempo. Aí, o dia
terminava num piscar de olhos.
Na
escola, ficava doido para voltar para casa. Só queria comer, dormir
a tarde inteira e ficar no chuveiro horas; onde secretamente pedia à
água que levasse todos meus problemas e pensamentos ruins…
Um
dia, terminarei essa crônica. Agora, gostaria de compartilhar um
trecho, que me emocionou bastante:
"A
vida nos apartará. Mas formamos certos laços. Acabaram nossos anos
de infância, da irresponsabilidade. Mas forjamos certos elos. Acima
de tudo, herdamos tradições. Mas forjamos certos elos. Acima de
tudo, herdamos tradições. Estas lajes são usadas há seiscentos
anos. Nestas paredes estão inscritos os nomes de guerreiros,
estadistas, alguns poetas infelizes (o meu estará entre estes).
Abençoadas as tradições, todas as salvaguardas e limitações! Sou
extremamente grato a vós, homens de trajes negros, e a vós, mortos,
pelo vosso exemplo, pela proteção; apesar de tudo, porém, o
problema permanece. As contradições ainda não foram conciliadas.
Flores movem suas cabeças contra a janela. Vejo pássaros selvagens,
e instintos mais selvagens do que os mais selvagens pássaros
erguem-se do meu selvagem coração. Meus olhos são selvagens: meus
lábios, firmemente comprimidos. O pássaro voa; a flor dança; mas
eu ouço sempre o embate monótono das ondas; e a besta acorrentada
pateia na praia. Pateia sem parar".
(AS
ONDAS, de Virgínia
Woolf, editora Nova Fronteira).
*
Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural
e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
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