Rendição da beleza
A
beleza é um conceito bastante controvertido e em raros aspectos é
consensual. Apresenta-se, basicamente, de duas formas: virtual e
conceitual. A primeira é aquela efêmera, fugaz, passageira, que se
transforma com o tempo e perde o seu encanto. É o caso da beleza
física, de uma pessoa, uma flor, um animal.
Dura
por somente alguns anos, quando não dias ou meras horas, e depois se
decompõe, se corrompe, envelhece, murcha e desaparece. Já a
conceitual, embora difícil de definir, tem o caráter de
permanência. Impregna-se em nosso espírito e basta fecharmos os
olhos para podermos vislumbrar seus reflexos.
A
imaginação, pois, exerce papel preponderante – diria, decisivo –
na definição do conceito de beleza. Como diligente escultora,
desbasta as imperfeições das formas de pessoas e coisas,
tornando-as simétricas, bem-proporcionadas e com aparência de
perfeitas, quando de fato não o são.
Há
uma certa confusão na determinação do que é belo ou,
simplesmente, bonito, elegante, suntuoso, gracioso e/ou atraente. Não
se tratam de palavras sinônimas, mas de nomeações de conceitos bem
diferentes entre si, embora possam parecer iguais. O artista,
todavia, sabe fazer bem essa distinção. Vive correndo, a vida toda,
atrás dessa coisa arredia e sutil, que é a beleza, para perpetuá-la
em versos, imagens ou sons.
O
belo é o suprassumo da perfeição. É algo sem mácula, sem
defeitos, sem nada a que se possa fazer a mínima restrição. Daí
eu considerar que a verdadeira beleza, em toda a sua glória,
majestade e esplendor, é atributo exclusivo de Deus. Nós, humanos,
temos que nos contentar com seus meros reflexos, em menor ou maior
intensidade, não importa.
É
por essa razão que a imaginação é essencial para captarmos o belo
e tentarmos reproduzir, com o máximo de autenticidade e veracidade,
com o talento que eventualmente contarmos, em versos, imagens e sons.
O
artista batalha a vida toda em busca desse pálido reflexo de beleza
e, na maior parte das vezes, se frustra. Por que? Porque a beleza
suprema é interdita a nós, humanos. Frise-se que o amor á beleza
não faz de ninguém, automaticamente, um artista. Todos nós amamos
o que entendemos que seja o belo que, na verdade, não resiste à
mais superficial análise para revelar suas inúmeras imperfeições.
Isso, contudo, não se trata de arte, porém de mero gosto.
A
beleza que as pessoas comuns amam é a virtual, a aparente, a
superficial, a que logo fenece, murcha, se decompõe e se desfaz, que
revela a todo o momento toda sua efemeridade. O artista, porém, é
dotado de certo talento interdito à maioria. Alguns consideram, até,
essa característica que possui como maldição, pois faz dele eterno
insatisfeito, sempre em busca do impossível: do perfeito, do
irretocável, do verdadeiro e do sublime.
O
pouco de beleza que consegue criar, todavia, lhe dá esse status,
mais raro do que se pensa, que poucos mortais conseguem obter. O que
cria, pode até despertar admiração nos que apreciam sua obra. Mas
jamais satisfaz o artista, esse perpétuo obcecado pela beleza.
Somos
(e nem seria preciso lembrar essa óbvia realidade), seres sumamente
frágeis, efêmeros, mortais e passageiros. Nossa vida é tão curta,
que sequer temos tempo de nos localizar em um universo imenso,
provavelmente infinito, cheio de mistérios e grandeza, em perpétua
mutação.
Tudo
muda, a cada segundo, ao nosso redor. Por isso, tudo acaba um dia: os
planetas, as estrelas, as constelações e as galáxias. É possível,
por exemplo, que a Via Láctea – onde se situa o nosso sol e, por
conseqüência, a Terra – tenha em seu centro um buraco negro,
aspirando para o seu interior, de forma contínua e inflexível,
matéria, energia e até a própria luz.
Se
for um fato, é questão de tempo, não importa quanto, para que
nossa galáxia, com tudo o que nela há, seja destruída e deixe de
existir. E que, em seu lugar, reste, somente, minúsculo concentrado
de matéria, energia e de luz, de peso e densidade absurdamente
elevados. Daí ser impossível deixar de dar razão ao escritor
Charles Ramuz, quando afirma: “É por tudo ter de acabar que tudo é
tão belo”.
Mas
a beleza que o artista persegue, a conceitual e não a meramente
virtual, é esquiva, caprichosa e escorregadia. Honoré de Balzac
escreveu o seguinte sobre ela, no conto “Obra-prima ignorada”: “A
beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa alcançar à
vontade, é preciso esperar suas horas, espioná-la, acossá-la,
enlaçá-la firmemente para obrigá-la a render-se”. Estes são meu
empenho e meta.
Dedico
cada dia da minha vida a essa inglória tarefa. Jamais chegarei onde
quero – estou plenamente consciente das minhas limitações – mas
nem por isso desisto de tentar. Espiono, o tempo todo, a beleza.
Acosso-a. Faço-lhe incessante cerco. Quem sabe, um dia, vença-a
pelo cansaço. Quem sabe consiga enlaçá-la firmemente, fazê-la
sentir minha paixão, contagiá-la com minha excitação e obrigá-la
a, finalmente, render-se, como se faz com a mulher que excite nossos
desejos e se faça de difícil. Quem sabe…
Boa
leitura!
O
Editor.
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