Tempo livre de verdade
O
que é, na sua concepção, dispor de “tempo livre”, amável
leitor? Afinal, a falta de momentos em que não haja obrigações a
cumprir é reclamada por quase todos, até pelos que não fazem nada
o dia todo, por todas as semanas, meses e até anos da sua vida.
Há
muita gente assim, que é pior do que aquelas plantas parasitas, que
necessitam de hospedeiros para sobreviver. Alguns, é verdade, são
ociosos em decorrência de incapacidade física e/ou mental. Muitos,
todavia, são vagabundos de carteirinha por convicção, por absoluta
opção pessoal.
As
pessoas verdadeiramente ativas, que têm ideais, ambições, projetos
e sonhos e que saem em busca da concretização de tudo isso,
reclamam que não dispõem do tal “tempo livre”. Estão enredadas
em imensas teias de compromissos e obrigações, que não lhes dão,
sequer, tempo para respirar.
Quem
se planeja devidamente, contudo, consegue multiplicar as horas de um
dia e fazer muito, sem cansaços ou estresse. São raros os que agem
assim? Nem tanto! Conheço muitos que se desdobram e fazem as coisas
com alegria e naturalidade.
Há
compromissos tolos que assumimos, muitas vezes impulsivamente, apenas
para sermos simpáticos aos que no-los impõem e que são verdadeiros
ralos por onde se escoa nosso preciosíssimo tempo. E ele tende a ser
irrecuperável ou a nos impor sacrifícios inusitados para queimar
etapas, na tentativa de recuperar o que poderíamos ter poupado.
Sou
um desses sujeitos que detestam dizer não aos outros e que, por
isso, me vejo, volta e meia, metido em armadilhas das quais não
consigo escapar. Vou a festas que não gostaria e não precisaria ir,
a eventos que não me dizem respeito e que nada têm a ver com meus
gostos e minhas atividades, faço favores dos quais nunca terei
retribuição e sequer um formal agradecimento e vai por aí afora.
A
idade e a experiência, contudo, vêm me tornando mais atento a esse
desperdício tolo de tempo, fazendo com que seja menos freqüente.
Por conseqüência, já venho conseguindo pôr em andamento alguns
projetos que eram de longo prazo, mas que chegou o momento de
executá-los ou de abandoná-los de vez (para minha extrema
frustração, caso o fizesse).
Um
deles, por exemplo, é a redação das memórias, coisa que cheguei a
duvidar que faria, mas que venho fazendo com afinco e regularidade.
Elas irão contar alguma coisa para alguém? Não sei! Nunca sabemos
se nossos atos, ou quais deles, serão eficazes ou não passarão,
também, a entrar no rol das coisas que se caracterizam como perda de
tempo. Aqui conta a questão da confiança.
Confio
no meu talento de escritor e na capacidade de observação que
desenvolvi ao longo dos anos. Por isso, estou convicto que minhas
memórias serão atrativas, vão redundar em um ou mais livros e irão
servir de exemplo a muitas pessoas que venham a passar por idênticos
caminhos que passei. Certeza, certeza mesmo, porém, não tenho
nenhuma. Ninguém tem e de nada.
Não
respondi, todavia, a pergunta que lhe fiz no início destas
elucubrações: o que é tempo livre? É o repouso? É o lazer? Ou
são aqueles raros momentos de ócio, de explícita preguiça, com
que nos brindamos em determinados domingos e feriados? Não é nada
disso.
Deixo
a resposta para esta questão a alguém muito mais experiente,
gabaritado e habilitado do que eu: ao escritor George Bernard Shaw
que, entre tantas outras coisas, conquistou um Prêmio Nobel de
Literatura, o que, por si só, o qualifica e o credencia a opinar
sobre o que quiser: “O tempo livre não significa repouso. O
repouso, como o sono, é obrigatório. O verdadeiro tempo livre é
apenas a liberdade de fazermos o que queremos, mas não de
permanecermos no ócio”.
Pois
é, meus amigos, é isso aí. Querem resposta mais clara, direta,
objetiva e convincente do que esta? Tempo livre não é, nem de
longe, o tempo perdido em ociosidade e preguiça. É isso o que faço
neste momento, ao escrever estas considerações que sequer sei se
alguém vai ler, quanto mais apreciar.
Ninguém,
absolutamente ninguém me impôs este texto, ao contrário de tantos
outros, escritos para atender obrigações (não raro contratuais).
Ao escrevê-lo, contei com o desejável “tempo livre”. Creio que
a questão ficou mais do que respondida (com a providencial ajuda,
claro, de um decano da Literatura).
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Tempo livre é tentar comer jabuticaba vendo Faustão, e em dez minutos não suportar e vir ler o editorial de domingo no Literário.
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