Peso inútil
O
homem carrega, ao longo da sua curta vida, um peso inútil, que o
impede de alçar amplos vôos espirituais e de evoluir no sentido de
se tornar, de fato, racional. Hoje ele ainda é, digamos, apenas
semirracional (e isso, com muita boa vontade). Tem lampejos de
racionalidade, é certo, mas em cerca de 50% de suas atitudes (ou até
mais), age movido exclusivamente por instinto. Aproxima-se, pois,
muito mais do animal que é, do que da “imagem e semelhança de
Deus”, que poderia ser.
E
qual é essa carga sobressalente, esse peso descartável, que tolhe
seu crescimento espiritual? É a ambição pelo que convencionou
considerar “bens materiais”, que na verdade só têm alguma
utilidade (quando têm e na medida exata das necessidades) enquanto
viver. Sua posse, todavia, tem tamanho valor para o homem, ao ponto
de influenciar até a maneira como os designa. Tanto que um dos
dogmas tido como inquestionável, na maioria das sociedades, é o da
“propriedade privada”.
Ninguém
se refere a dinheiro, ouro, terras, casas, carros e tantas e tantas
quinquilharias que despertam a ambição desenfreada da maioria como
“males materiais” (que, na verdade, são). Todos os designam como
“bens”. Ou seja, como coisas piedosas e benignas.
Desde
criança (e já me encaminho celeremente para sete décadas e meia de
vida), nunca consegui entender o obsessivo apego das pessoas por isso
que rotulam de “riquezas”. Jamais, nenhum anjo, ou qualquer outro
ser superior que eventualmente exista, apareceu-me em sonhos, ou
durante a vigília, para me exibir algum documento de partilha do
Planeta, em que sejam outorgadas extensas áreas de terra a
determinadas pessoas e sua descendência, em detrimento da maioria.
Os
bens da Terra, todos eles, houvesse um mínimo de lógica no
comportamento humano que justificasse sua classificação como
“animal racional”, deveriam ser patrimônios comuns. Pertenceriam
a todos os homens, indiscriminadamente. Claro que não são. Jamais
serão! E quem defende essa tese, a lógica das lógicas, recebe
inúmeros rótulos e epítetos, todos, claro, pejorativos.
É
estereotipado, considerado “comunista”, perseguido, encarcerado,
não raro torturado e morto ou tido e havido como “alienado”, ou
louco (que é praticamente a mesma coisa) e segregado do convívio
geral. É uma inversão brutal e catastrófica de valores. Ou seja, o
são é tido por demente e vice-versa.
A
distorção chega a tal ponto, que os méritos de um indivíduo são
definidos (de maneira praticamente consensual) não pelo que ele é,
em termos de sabedoria e virtudes, mas pelo que tem, mesmo que se
trate de rematado canalha, de incorrigível corrupto, de ladrão
convicto, que amealha posses às custas das desgraças alheias.
Erich
Fromm escreveu um livro a esse propósito, “Ter e Ser”, cujas
teses sequer é necessário repetir. São óbvias demais.
Intuitivamente, as pessoas sabem que são corretas, mas se age sempre
em sentido contrário. Ou seja, invertem-se os valores: o correto é
apontado como errado e vice-versa.
Há
poucas, escassíssimas, ínfimas esperanças de mudança desse
comportamento. Se acontecer (e se o homem não destruir, antes, seu
tão judiado, depredado e poluído domo cósmico), talvez ocorra em
um milênio ou mais. Não acredito, todavia, nessa revolução da
racionalidade.
Nas
presentes gerações, não há o menor indício de que esse súbito
ataque de sabedoria e bom-senso venha a ocorrer. A probabilidade
parece ser exatamente a contrária. Ou seja, que o homem se torne
crescentemente mais ensandecido e obcecado pelo seu avassalador
egoísmo e que sua porcentagem de animalidade cresça
vertiginosamente, com a conseqüente redução, na mesma proporção,
de sua já tão escassa “imagem e semelhança com Deus”.
Quem
tem, busca, obsessivamente, não apenas conservar o que já juntou,
mas juntar mais, e mais, e mais. Quem não tem... empenha-se em se
apossar, pela astúcia (às vezes) ou pela força (na maior parte dos
casos) do que os possuidores se empenham em proteger, não raro com
as próprias vidas. O homem não confia no homem e tem, no
semelhante, a visão de um antagonista, um rival, quando não um
inconciliável inimigo ao qual se propõe a destruir, em vez de ver
nele um parceiro. E as coisas pioram, nesse sentido, não mais de
século para século, mas de dia para dia.
Já
vão longe os tempos, por exemplo, em que você podia se sentir
seguro em sua casa, mantendo as portas sempre abertas, escancaradas
até, cerrando-as apenas à noite, para evitar a entrada de animais.
Hoje, há trancas por toda a parte. Há muros e grades imensos,
sofisticados sistemas de alarme, vigilância contínua por câmeras,
cercas elétricas etc. protegendo os seus “bens” do assédio dos
despossuídos. E estes, quando eventualmente saem dessa condição, e
se tornam proprietários (tremenda raridade), repetem, exatamente, os
mesmos procedimentos dos que antes condenavam. Não são, pois, nada
melhores do que eles.
Rabindranath
Tagore, com a sensibilidade e a intuição dos poetas, que, salvo
exceções, enxergam além das aparências, escreveu estes versos
memoráveis, em um de seus tantos poemas, que ilustram a caráter
estas considerações: “Coloque uma carga de ouro nas asas de um
pássaro e ele nunca mais voará pelo céu”. Imagine o homem, que
já normalmente não voa (a não ser com as engenhocas que criou)!
Como voará na amplidão infinita da racionalidade com tamanho peso
descartável (do qual teima em não se desfazer) nas costas?!
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Alguns consumos são para conforto ou lazer, mas outros são incompreensíveis.
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