A
província e o Raimundinho Vinte-e-Um
* Por
José Ribamar Bessa Freire
“Entrai na roda oh linda roseira
E abraçai a mais faceira...”
Cantiga
de roda)
Aconteceu,
faz tempo, no bairro de Aparecida, em Manaus...
Não,
não! Deixa pra lá! É melhor não contar. Quem é que vai perder
tempo ouvindo a história do Raimundinho
Vinte-e-um,
filho da dona Jati, que morava na rua Bandeira Branca, à beira do
igarapé São Vicente? Um dia, seu vizinho, o velho Espiridião,
sonhou com o Raimundinho, jogou no bicho e ganhou uma bufunfa. Deu
touro na cabeça: 21. É que o menino tinha a mais aquilo que Lula
tem de menos: um dedo extra. Nasceu com seis dedos na mão direita,
um colado no outro. O apelido pegou: Raimundinho
Vinte-e-um.
Ainda
que a ninguém interesse, é bom que se diga, antes de mudar de
assunto, que o sexto dedo fazia uma curva no polegar, parecia a
pétala de uma flor. Por isso, nas brincadeiras de roda da
infância, há mais de 60 anos, todos os olhares convergiam para ele
quando cantavam:
-
A mão direita/tem uma roseira,/que dá flor na/ primavera.
Embora
a primavera nunca tenha dado as caras em Manaus, a flor estava lá,
na mão direita. Nessa hora, Raimundinho escondia a mão com o dedo
extranumerário, igual ao do Fabinho, ex-jogador do Corinthians, que
se fosse goleiro teria uma vantagem a mais para agarrar a bola. Só
não continuo a narração, porque os leitores hoje estão se lixando
para a polidactilía do menino, diagnosticada por um... dentista do
extinto IAPC, o doutor Benício, que recomendou uma cirurgia
reparadora jamais feita. Dona Jati ficou com medo que arrancassem o
dedo do seu filho, como quem extrai um dente.
Motor
de popa
Sou
obrigado a interromper a narrativa aconselhado por uma leitora,
zangada, que comentou no facebook que eu devia escrever sobre coisas
sérias, por exemplo, a elevação do Amazonas à categoria de
Província, em vez de ficar contando abobrinhas do bairro de
Aparecida. Não sei se ela tem razão. De qualquer forma, não posso
omitir aqui os detalhes da vingança do Raimundinho
Vinte-e-um que
apelidou o velho Espiridião de Didi
Peidão,
ou Motor
de popa, depois
que descobriram que tinha câncer de próstata.
Foi
assim. Naquela época, pelo menos em Manaus, não se fazia biópsia
para identificar células cancerígenas no tecido prostático, mas
nem por isso o seu Didi conseguiu tirar o dele da reta. Hoje,
qualquer urologista mete uma sonda de ultrassom no teu fiofó, com
uma agulha acoplada, não dói quando é com anestesia, mas depois o
caboco fica perdendo sangue por tudo que é buraco do corpo durante
vários dias. Pois bem, prometi não contar e não vou contar, mas
apenas adianto que seu Didi, depois da dedada do toque retal,
afrouxou e ficou com flatulências, daí o apelido bem dado, que
também pegou.
Deixemos
as abobrinhas cozinhando e vamos, pois, a assuntos sérios que
interessam a todos. Será? O Amazonas foi elevado à categoria de
Província, em 5 de setembro de 1850, quando se separou do Pará, num
divórcio litigioso que persiste até hoje. A única vantagem parece
ter sido ganharmos um feriado local. Naquela época, o território
que é hoje o bairro de Aparecida era uma floresta cercada de
igarapés, de águas límpidas, que não eram ainda bosteiros. Quase
um século depois, deceparam as árvores, construíram casas entre os
troncos, e o primeiro nome com que ficou conhecido foi Bairro dos
Tocos. Lá vem Aparecida. De novo. Não consigo me libertar.
Para
atender a leitora zangada, faço uma ponte entre os dois assuntos. É
que no dia 5 de setembro de 1955, o Grupo Escolar Cônego Azevedo
participou da parada cívica pelas ruas do bairro e depois na av.
Eduardo Ribeiro. Estava lá, num palanque, o governador Plinio Coelho
(PTB), eleito numa época em que o voto nulo de desesperança na
classe política não superava os votos concedidos ao candidato
vitorioso. Num calor infernal, a diretora Dona Natália exigiu que os
alunos usassem luvas no desfile escolar. No entanto, não existe luva
com seis dedos. Raimundinho
Vinte-e-um ficou
de fora. Foi bullying institucional.
Morte
do narrador
Só
não dou mais detalhes sobre o desfile, porque ninguém está mesmo
interessado em narrativas, já que não existe mais narrador, ele
morreu, seu atestado de óbito foi assinado por Walter Benjamin, lá
na Alemanha. Além disso, os ambientalistas e os índios se
perguntam, com razão, se é válido ficar contando abobrinhas quando
Michel Temer agride a Amazônia com o decreto sobre a Reserva
Nacional do Cobre e Associados (Renca).
Diante
da tragédia nacional que se abate sobre o país - econômica,
social, ambiental, moral - não há mais espaço para histórias
pincelando personagens como Raimundinho
Vinte-e-um.
Até quando quadrilhas que tomaram de assalto o poder, nas suas
diferentes instâncias, continuarão dando as cartas com total
impunidade? Até quando ficaremos de braços cruzados, impotentes,
apalermados, abestalhados?
Os
índios parecem indicar um caminho. O ministro da (In) Justiça,
Torquato Jardim fez algo de inédito: anulou o que havia sido
demarcado, numa agressão covarde a um dos setores mais sofridos da
população. Os guarani, então, ocuparam nesta quarta-feira (30) o
escritório da Presidência em São Paulo contra a anulação da
reserva criada em 2015, no Parque do Jaraguá, zona oeste da capital
paulista para garantir seu pedacinho de terra.
A
mão direita não tem uma roseira, Ela golpeia duro. Ela é escrota.
Confesso que Temer, Jucá, Padilha, Aécio, Fufuca, Rodrigo Maia et
caterva me adoecem. De verdade. Desconfio que às vezes recuperar
personagens como Raimudinho
Vinte-e-Um e Didi
Motor de Popa pode
ser um refúgio para mitigar as epidemias que se alastram pelo
Brasil. Ouviu, leitora zangada?
*
Jornalista
e historiador.
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