Nuances
da vida
* Por Rodrigo
Ramazzini
“Finalmente,
a felicidade parece ter me encontrado! E eu encontrado ela, a razão da minha
felicidade! Feliz! Feliz! Feliz!”
Quando Felipe postou a mensagem no
Facebook, seis semanas depois do término do namoro de três anos com Virgínia, ela
chorou por dois dias seguidos, mas aguentou firme em silêncio, sem esboçar
qualquer reação ou resposta.
“Sério!
Passei a partir de hoje a acreditar em alma gêmea! Só pode ser isso! Acho que
nossos destinos foram traçados na maternidade! Obrigado, meu Deus! Que momento!
Feliz! Feliz! Feliz!”
Três dias depois, na segunda postagem, a
resposta de Virgínia a Felipe estava redigida, com toda a carga de ódio, dor e
mágoa provocada pelo atribulado fim da relação, depois de uma suposta traição
por parte de Felipe. Foi uma amiga de Virgínia que impediu o enviar da
resposta, usando boa dose de argumentação, amparo, bom senso e conselhos.
“Mudança
de status: Em um relacionamento sério – Comentário: Feliz! Feliz! Feliz!”
Trinta segundos depois que Felipe
assumiu na mesma rede social estar em um novo compromisso, o seu celular tocou.
Era a impulsiva Virgínia enlouquecida com a “novidade”. Ela não se aguentou e
mesmo sem falar com Felipe há semanas, resolveu ligar. Antes, porém, ele deixou
o telefone tocar por doze vezes até atender...
- Alô! Felipe? Por que não atende esta
droga, hein?
- Oi, Virgínia! Quanto tempo! Tudo bem?
- Fez isso só para me irritar, né?
Fala...
- Comigo está tudo bem... Antes que
pergunte...
- Estou vendo!
- O que foi desta vez? Seja rápida! Não
tenho muito tempo...
- Só queria ser a primeira a te
parabenizar pelo novo relacionamento!
- Sei...
- Felicidades ao novo casal! Muitas
felicidades...
- Hum... Sei... Como tu és irônica, hein
Virgínia!
- O que eu fiz, Felipe?
- Nada, Virgínia! Nada...
- Nada mesmo! Só liguei para te
parabenizar...
- Isso é ciúme?
- Há! Há! Há! Eu com ciúmes, Felipe? Era
só o que me faltava! Tu só podes estar louco em pensar uma coisa destas...
Esquecestes que fui eu que te dei um “pé na bunda”, hein? Não gosto de resto,
meu amor!
- Resto? Bom saber que é assim que me
vê, Virgínia! Estás cuspindo no prato em que comeu! Comeu e se lambuzou...
- Deixa de ser idiota, Felipe! Palhaço!
- Está bom! Eu sou idiota! Vamos
encerrar por aqui. Não estou com vontade de discutir contigo de novo. Era isso?
- Não!
- O que mais, Virgínia?
- Quem é a vagabunda? Posso saber?
- Há! Há! Há!
- Por que está rindo?
- Desde quando eu preciso dar satisfação
da minha vida pra ti, Virgínia? Não entrou na tua cabeça que acabou entre a
gente? Que eu tenho uma vida nova agora?
- Eu descubro!
- Ué! Tuas amigas detetives ainda não
descobriram?
- Deve ser uma destas piriguetes...
Tomara que seja... Assim ela vai fazer contigo o que tu fizestes comigo...
Cuidado ao passar pelas portas, viu?
- Chega! Eu não preciso dar satisfação
da minha vida pra ti, Virgínia! Eu já te disse mil vezes que não te traí! Quer
acreditar, acredita! Não quer, não acredita! Eu vou desligar!
- Espera! Espera!
- O quê?
- Espera...
- Fala...
Quatro segundos de silêncio.
- É que...
- Fala, Virgínia!
- Quer voltar pra mim, Felipe?
A indagação pegou Felipe de surpresa,
que silenciou por um instante. Cinco segundos depois...
- Quer ou não, Felipe?
- Virgínia...
- A gente pode recomeçar do zero... Sem
cobranças... Corrigindo os erros...
- Virgínia é que...
- Eu sei que ainda há amor entre a
gente, Felipe! Vamos voltar? Larga essa piriguete e volta pra mim...
- Não, Virgínia!
- Eu sou o amor da tua vida e tu da
minha...
- Engraçado! Agora que vistes isso?
Quando me dispensastes não estava pensando assim, não é?
- Eu errei! Eu errei ao escutar os
outros! Me desculpa! Vamos voltar?
- Não! Agora sou eu que não quero mais
nada contigo. Estou completamente apaixonado pela Daniele!
- Da... Da... Daniele? A da farmácia?
- É... Estou amando novamente! Em menos de
duas semanas de relação já descobri que ela é o amor da minha vida!
- Eu não acredito! Como eu fui tonta!
Como não desconfiei que aquela simpatia toda quando íamos lá não era à toa...
Eu não acredito!
- Podes acreditar!
- Tua exposição nas redes sociais está
ridícula!
- É o amor... Quer mexe com a minha
cabeça e me deixa assim!
- Ridículo! É o fim...
- Fim mesmo, Virgínia! Acabou entre
nós... Já era!
- É realmente isso que queres? Ficar com
aquela vagabunda?
- Não fala assim dela!
- Aposto que vocês já andavam juntos há
tempos! Como eu fui boba, meu Deus!
- Chega, Virgínia! Acabou entre a gente.
Não me liga mais! Passar bem. Tchau! Abraço...
- Felipe...
Virgínia demorou alguns dias para se
recuperar da dispensa de Felipe. Entrou em um estado de tristeza profunda. Trancada
em casa, não se relacionou socialmente com ninguém neste período. Começou a
melhorar apenas depois de um curioso acidente.
Era uma quarta-feira. Chovia e ventava moderadamente.
Sozinha em casa e com fome, mesmo com o mau tempo, Virgínia resolveu ir à
padaria, que ficava a duas quadras de sua residência, comprar algo para comer.
Dirigiu-se ao local sem se olhar no espelho. Estava escabelada, sem maquiagem,
de calça de moletom com um pequeno rasgo na perna esquerda e um moletom surrado
da Minnie que tinha há anos. Em meio ao trajeto, uma rajada de vento fez com
que o guarda-chuva que a protegia dos pingos virasse do avesso, dobrando as
barbatanas ao contrário. Na tentativa atrapalhada de recolocá-las na posição
correta, com o guarda-chuva de lado e na altura do peito, impulsionou-o “contra
o vento” para frente. Foi então que, desastradamente, bateu em Anderson, que
pilotava rapidamente a sua bicicleta, fugindo da chuva, depois de soltar do
trabalho. A “guarda-chuvada” fez com que ele perdesse o equilíbrio e caísse no
chão. Por sorte, não se machucou. Assim, nasceu o primeiro contato de Virgínia
e Anderson.
Já a paixão de Felipe por Daniele foi
arrefecendo ao passar dos dias e as dúvidas em relação aos sentimentos
aumentando. As comparações entre Virgínia e Daniele foram inevitáveis e
crescentes a cada instante. As postagens no Facebook com declarações de amor
foram se extinguindo. Começaram as primeiras brigas e os traços contrastantes
das personalidades do casal a aparecer. Mesmo assim, os dois saíram para
comemorar um mês de relação.
Sábado. Em um restaurante.
Quando Felipe e Daniela ingressaram de
mãos dadas em um badalado restaurante da cidade tiveram uma desagradável
surpresa. Enxergaram logo na entrada, acomodados em uma mesa, Virgínia e
Anderson. Depois de conversarem muito pelo telefone após o acidente, os dois
resolveram sair para se conhecerem melhor. Era oficialmente o primeiro encontro.
Ao ver Virgínia com outro homem, Felipe
se abalou completamente. Os seus sentimentos por ela afloraram subitamente. A
“pancada” inesperada doeu forte. Perturbado, quis largar Daniela e correr para
os braços de Virgínia. Quis ir até à mesa e tirar satisfações. Cogitou em fazer
uma declaração e pedir perdão. Ou ao menos fazer uma confusão. Respirou fundo.
A emoção estava à flor da pele, foi quando uma pontinha de razão guiou os seus
pensamentos. Não era hora nem local para tal cena...
Percebendo a reação do namorado com a
situação, Daniela convidou Felipe para ir embora. Ele não quis. Queria vigiar
cada passo de Virgínia, ver quem era o canalha que estava com ela. Queria
tentar captar detalhes daquela nova relação. Se ela estava feliz. Ver se o cara
era melhor que ele. Enfim, sentou-se em uma posição no restaurante que lhe
permitiu ter uma visão diagonal para Virgínia. Pediu um uísque ao garçom.
Precisava tomar alguma coisa forte naquela noite. Mal sabia ele que as
surpresas não tinham acabado e que trocaria o foco logo em seguida.
10 minutos depois.
Restabelecido do choque inicial, a
estratégia de Felipe foi interpretar no restaurante. Encenou que estava feliz,
soltando altas e largas gargalhadas. Cumprimentou a todos de forma efusiva. E,
principalmente, tentou demonstrar que estava completamente apaixonado por
Daniela, beijando-a e abraçando-a. Enquanto isso, no outro canto do lugar, Virgínia
se encantava com as histórias contadas pelo garoto tímido.
Foi então que, aproveitando-se do
momento do namorado, que Daniela resolveu fazer uma revelação.
- Amor!
- Fala minha vida!
- Eu preciso te contar uma coisa...
- Conta. O que houve?
- É uma novidade que vai mudar a nossa
vida...
- Fala logo! Estou ansioso...
- Eu não sei como tu vais reagir!
- Fala logo!
- Está bem! Vamos lá... Que nervosa! Felipe:
eu estou grávida!
- Como é que é? O que estás me dizendo,
Daniela?
- Isso que ouvistes! Eu estou grávida!
Vamos ter um filho! Tu serás papai!
E mesmo com o restaurante lotado, eufórico,
Felipe não se conteve e gritou:
- Eu vou ser papai!
Foi cumprimentado por todos e até ganhou
uma música em homenagem do músico que se apresentava no restaurante. Virgínia viu
toda a cena em silêncio. Baixou a cabeça por um instante e depois sorriu com o
prazer doce da vingança. Foi a primeira a perceber que pelo tempo de relação e
o fato da confirmação da gravidez, o filho que Daniela esperava não era de
Felipe. Aproveitou o murmurinho para beijar Anderson pela primeira vez.
Três meses depois, durante uma ecografia
de rotina, Felipe descobriu a armação de Daniela quando a médica revelou a
quantidade de semanas da gravidez. Era o fim do relacionamento. Arrependido,
ele tentou voltar para Virgínia prometendo amor eterno. Era tarde demais. Ela
já estava envolvida pela sua nova paixão...
A vida e suas nuances.
*
Jornalista e contista gaúcho
É quando insistem em proferir a infame frase: a fila anda.
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