Erros
de português na imprensa: tão assumidos que dispensam trabalhos de faculdade
para encontrá-los
* Por
Gustavo do Carmo
Um dos primeiros
trabalhos de avaliação que eu tive de fazer na faculdade de jornalismo foi procurar
erros de português nos textos dos jornais cariocas. O professor de Língua
Portuguesa da FACHA, André Valente, fez um sorteio para determinar qual jornal
cada grupo se encarregaria de analisar.
Na hora da listagem dos
jornais, alguns gaiatos da sala sugeriram analisar O Palavrão, jornal de baixo
nível, repleto de violência e pornografia. Outro jornal do tipo sugerido foi O
Povo, mais light em pornografia e, na
época, mais violento. Jornais hoje muito populares como Extra, Meia Hora e
Expresso ainda não existiam em 1996.
“Sortudo” do jeito que
eu sou, para o meu grupo, composto por duas moças além de mim, foi sorteado qual?
O Palavrão, é claro! Depois de uma semana, no entanto, fomos reclamar com o
professor e pedimos para mudar o jornal, que tinha mais baixaria do que texto.
Não lembro se não conseguimos fazer por causa do excesso de pornografia ou de
erros de português mesmo. Conseguimos mudar para analisar O Dia, que era um
jornal popular, mas aparentemente bem escrito.
Achamos muitos erros de
ortografia e gramática (como concordância, regência, uso do verbo, vírgulas,
etc) em nosso “novo” jornal. Ok. As minhas companheiras encontraram mais, tenho
que dar crédito a elas. Erros de digitação e impressão não valiam, pois eram
normais. Já não lembro quais erros encontramos exatamente. Só lembro que o
grupo que analisou O Globo também achou muitos crimes contra a gramática.
Dezoito anos depois, a
frequência de tropeços gramaticais e, principalmente de ortografia, aumentou
demais. O Globo - que já faz um bom tempo, abriu espaço para corrigir publicamente
as falhas de redação no próprio jornal – na semana passada publicou quase meia
página só de “Nós Erramos”. Sem contar os que eu mesmo já reparei. E foram
vários.
Será culpa dos cortes
de pessoal nos jornais, especialmente os revisores? Os jornais dispensaram o
uso deles nos últimos quase vinte anos? O vocabulário dos jovens jornalistas
ficou tão pobre como a nossa cultura? A internet desvia a atenção dos
jornalistas? Os repórteres se influenciaram pela má escrita nas salas de
bate-papo e nas redes sociais?
A resposta pode ser sim
para praticamente todas estas perguntas, mas a grande certeza é que o professor
André Valente jamais passaria um trabalho desses nos dias de hoje. Não teria
necessidade. Os erros de português na imprensa brasileira, principalmente nos
grandes jornais, estão tão banais que eles próprios já fazem isso.
Ou então, o saudoso
professor (que eu nem sei se ainda está vivo) deve mandar procurar nos portais
da internet, como o Terra, que, além dos textos confusos e mal redigidos,
soltou um “Se DERIGIU” em vez de “Se dirigiu”. Aí o relatório teria mais de
quinhentas páginas.
* Jornalista e publicitário
de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam”
pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros
contos”.
Seu blog,
“Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
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