Homem do povo não usa terno
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Mesmo eu, que me
considero um escritor esclarecido, politizado e razoavelmente culto, às vezes
me pego com aquela dúvida que talvez 11 em cada 10 eleitores tenham: Pra que
diabos servem os deputados? O que eles fazem lá em Brasília além de farrear com
nosso dinheiro? Não é impressionante que, mesmo após 30 anos do
re-estabelecimento da democracia no país, ainda trazemos essas perguntas na
cabeça?
Já que vim ao mundo
para confundir ou explicar, dependendo da ocasião, prestarei agora tais
esclarecimentos: Além de desviar dinheiro, ajudarem a falir órgãos públicos e
rir da nossa cara diariamente, elegemos deputados federais e estaduais para que
sejam nossos porta-vozes aos ouvidos do presidente.
A função deles é criar
leis, elaborar seu regimento interno, fiscalizar o Poder Executivo, manter a
austeridade das contas do Governo, dentre outras. Aproveitando que estamos
aqui, é também meu dever cívico esclarecer que a função de nossos também
estimados vereadores é praticamente a mesma dos deputados, mas a nível
municipal.
É aquele bando de
pobres coitados que se reúnem às sete da manhã toda terça-feira na Câmara
Municipal para bater boca, cometendo erros de português que fariam Camões se
erguer do túmulo só para comer um saco de pregos e morrer de novo. Eu e meu pai
ouvimos essas discussões toda semana pela rádio AM e são de fazer uma bomba de
gás lacrimogêneo romper em prantos.
Que bom seria para
nossa sociedade se mais pessoas soubessem de tudo isso, inclusive os próprios
candidatos! Já que eles vão à Brasília propor novas leis, o mínimo que se devia
esperar deles é que sejam formados em Direito. Mas com cinco minutos de
propaganda eleitoral, você fica sem saber se nossa política é um hospício, o
Cirque Du Soleil ou o Bataclan.
Eu sei que a imagem que
o povo brasileiro tem da política nacional é a pior possível, sempre foi. Mas
eleger ou reeleger pessoas que nunca tiveram envolvimento com política como
Tiririca, o ceguinho Geraldo Magela, a Mulher-Pêra ou ex-BBBs a granel só pela
piada não é a melhor forma de protestar contra os desmandos dos poderosos. É
certo que algumas vezes essa gente tem, sim, algo de bom a apresentar, como
Romário, Jean Wyllys e Clodovil, mas o achincalhe em excesso só faz despolitizar
ainda mais a população.
Vocês devem estar
pensando, mas e o Dr. Enéas Carneiro? Ele não era necessariamente a figura mais
amigável das campanhas antigas, com aquela persona neofascista e frases de
efeito incompreensíveis, e mesmo assim conseguiu se eleger a deputado federal
com mais de um milhão de votos em 2002. Apenas Tiririca conseguiu superá-lo nas
urnas anos mais tarde.
Enéas foi o voto de
protesto seminal, figura inesquecível de nossa política mesmo sem ter
conseguido cumprir nenhuma promessa quando chegou ao poder. O problema é que
não surgiu mais ninguém à altura dele em termos de retórica, inteligência e
autoironia no cenário político nacional após sua morte. Depois do caso do
mensalão (no qual não acredito mais), o ódio e a revolta contra os políticos
descambou de vez pra baixaria.
Agora temos de aturar
Brasil afora candidatos bizarros como um cuja mascote é um chimpanzé que mostra
a língua e dá uma banana pros corruptos, um sósia de Raul Seixas que
provavelmente cheirou todas antes de gravar a propaganda, ex-funkeiras com
espartilhos tão apertados que as tripas quase saem pelas orelhas e coisa pior.
Também há as opções do movimento LGBT, que fazem questão de adicionar o número
24 em suas campanhas e costumeiramente usam a frase de efeito “É gay, mas não é
ladrão!”.
Sem falar nos
candidatos folclóricos que volta e meia “retornam triunfalmente” às disputas
eleitorais, como o escalafobético Cururu de Pelotas-RS, que só se tornou
deputado estadual por causa do slogan “Já te falei que não sou ladrão e nem
mentiroso!”, ou o Cornelson de Natal- RN com o bordão “Chega de traição!” e o
sensacional Zé Muniz de Alagoas, que manda eleitor “que elege político ladrão e
assassino” literalmente tomar naquele lugar nas propagandas.
E há aqueles que
prometem que quando eleitos vão arrombar os políticos em Brasília com símbolos
fálicos de todas as espécies e tamanhos, que por um acaso fazem parte de seus
apelidos eleitorais. Garanto que para esses não faltam votos! O que é que gente
assim poderia fazer na Câmara de Deputados? Deputado é um cargo tão importante
que quem devia escolhê-los era o próprio presidente, como garantia de que só
entrarão na câmara pessoas de sua confiança. Se os próprios candidatos
avacalhados não são capazes de levar a sério o processo eleitoral, o que dizer
do eleitor? Vai faltar cômodo na Casa da Mãe Joana!
*
Escritor e designer gráfico. Contatos:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
cyberyanmar@gmail.com
Conheçam
meu livro! http://www.facebook.com/umdiacomooutroqualquer
Fez revisão de quase 30 anos. Misturou tudo, fez piada, desprezou toda uma classe. Conclusão? Nenhuma. Estamos de mal a pior, porém, sem eleições seria ainda mais danoso.
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