Leônidas da Silva, Arthur Friedenreich e Pelé
O nosso futebol
* Por
Clóvis Campêlo
O futebol surgiu no
Brasil, no século XVIII, como a nova mania esportiva das classes mais
privilegiadas. Os filhos burgueses da pátria mãe gentil aprenderam-no e o
trouxeram da Europa pré-modernista daquela época. A sua prática era cara, já
que todo o equipamento necessário era importado. Do mesmo modo, necessitava-se
de áreas relativamente grandes para a sua prática, embora esse problema fosse facilmente
contornável, haja vista que as nossas cidades e capitais dispunham de campos e
terrenos baldios a granel.
Incorporado pela classe
média brasileira e, posteriormente, pela classe operária e pelo
lúmpen-proletariado, logo se transformaria em uma grande paixão nacional.
Ao se desgarrar dos
burgueses brancos e de cintura dura que o trouxeram do Primeiro Mundo, caiu nas
garras da rafaméia do lado de cá, misturando-se aos negros e descendentes de
índios, escurecendo a cor da sua pele e adquirindo um jogo de cintura e uma
leveza até então desconhecidos pelo lado de lá. Foi a plebeização do futebol no
Brasil que o salvou do lugar-comum e da mesmice bizarra dos europeus.
Não é a toa, portanto,
que um dos nossos primeiros grandes jogadores fosse filho de um comerciante
alemão com uma lavadeira negra. Seu nome, Friedenreich. Nasceu na cidade de São
Paulo, em 1892, apenas dois anos antes de Charles Müller introduzir o futebol
no Brasil. O apelido de El Tigre foi-lhe dado pelos uruguaios após o Brasil
conquistar o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) de 1919. Apesar de
ter sido considerado pela imprensa da sua época como um dos melhores
centro-avantes do mundo, morreu pobre, em 6 de setembro de 1969, morando numa
casa cedida pelo São Paulo Futebol Clube.
Entre nós,
pernambucanos, nenhum jogador foi tão cantado e decantado quanto Tará. Em 1931,
com apenas 16 anos, ajudou o Santa Cruz a ganhar o seu primeiro campeonato
estadual. Com ele, chegamos ao tri, em 1932/33. Mas foi no Clube Náutico
Capibaribe, em 1943, que se consolidou como goleador ao marcar dez gols em um
único jogo, na goleada do Náutico sobre o extinto Flamengo pernambucano por 21
x 3. O Flamengo do Tenente Colares, primeiro campeão estadual de futebol, em
1915, em decadência, terminaria por se transformar em um saco de pancadas do
futebol pernambucano. O mulato Tará, soldado da Polícia Militar de Pernambuco e
oriundo dos bairros da periferia do Recife, foi o primeiro grande ídolo do
futebol pernambucano.
Poderíamos até
perguntar se não tivesse acontecido a proletarização e a miscigenação do
futebol brasileiro, se teríamos chegado ao pentacampeonato mundial de futebol e
transformado o nosso sentimento de inferioridade étnica em um sentimento de
superação e conquistas. A própria seleção brasileira de futebol é um exemplo a
ser citado, haja vista que com Pelé e Garrincha juntos em campo nunca chegou a
ser derrotada.
Recife, setembro 2014
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Poeta, jornalista e radialista, blogs:
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