Os de Serra Morena
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Por Evelyne Furtado
Os de Serra Morena lá
não nasceram. Nasceram, eles, em terras outras, mas lá encontraram pouso, como
se pouso tivessem as almas daqueles lá, pois todos padecem de um atroz
desassossego.
São todos desvalidos de
siso e expressam, tal falta, com urros, murros, silêncios ou imobilidades
férreas: Pastoreiam, guerreiam, assaltam, deliram e executam tais feitos como
querem ou como a loucura própria determina.
Todos carregam cruzes.
Chego a pensar, sobre aqueles lá, que as dores no espírito ou no coração - como
queiram vocês chamar o que dói a tal ponto de desassossegar-passaram aos
músculos, às carnes, à pele e aos ossos, enfim, tudo dói por lá.
Os de Serra Morena:
Cardênio, Lucinda, Teodora, Sancho, o Cura, o Barbeiro, o da Triste Figura, os
poetas, os bardos, os romancistas, os amantes de hoje e de ontem e mais todos
que se identificam com eles daqui ou de lá, não começaram suas sinas na dor;
antes passaram todos pela sina do amor ou algo que o valha.
Sem nenhuma exceção
aquelas loucuras juntas tinham em comum, além de uma inegável e suprema graça,
a desilusão.
É preciso que se diga,
contudo, que para se chegar ao desencanto há que se começar pelo encanto. E
haja encantamento: Uns tiveram a ventura de amar e serem amados ou pelo menos
acreditaram nessa espécie de condão. Outros eram crentes em capas, espadas,
cavalarias, romances e salvação.
Todos perderam da
realidade a noção, mas já descem a Serra por obra e graça da fé nas notícias de
que ao seu pé há uma estalagem, ou venda; ou café ou castelo, onde suas
histórias se cruzarão e que, nesse canto, por obra do maior visionário de todos
os tempos, a vida seguirá com o fim dos desencontros, o término da loucura e a
vitória da boa vontade aliada a um bocadinho de razão.
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Poetisa e cronista de Natal/RN
Povo misterioso, estranho, ou estranhos somos nós?
ResponderExcluirDestaco: "para se chegar ao desencanto há que se começar pelo encanto." Paro para pensar.