A última barca
* Por Daniel Santos
Quando
me mudei para a pracinha do Alto da Boa Vista, tive a sensação de que ali
ficaria para sempre, e não apenas devido à excelência do clima. A beleza do
cenário lembrava um postal, e isso também contava.
Por
toda a vizinhança, onde residiam velhos, na maioria, mansões de inspiração
inglesa e alemã progrediam num sítio bastante
arborizado que atraía pequenos animais da floresta e exalava permanente
umidade.
Além
disso, os vizinhos me pareciam cordatos, embora estranhasse sua mania de verificar as horas seguidamente
e a rapidez com que se metiam em casa quando alguém praticava exercícios
físicos na praça.
No
mais ... Quer dizer, com o tempo, alguns detalhes passaram a me intrigar. Por
exemplo, em algumas casas não havia mais moradores e muitos vizinhos nem
cheguei a conhecer direito, porque desapareceram.
Mas
desvendei esse mistério num final de madrugada. Regava o jardim, quando um
atleta muito magro, talvez maratonista, passou pela praça e chamou o nome de
alguém ... que o seguiu, embora a contragosto.
Com
os anos, vi que alguns relutavam a seguir o tal corredor, tentavam negociar
minutos e até segundos, antes de entregar a casa para sempre, mas, afinal,
deixavam-se levar em completo desconsolo.
A
minha vez chegou. Saía para comprar pão e vi o maratonista. Vultuoso, ofegante,
cianótico, me disse “vamos, a barca já vai partir”. Furioso, atirei-lhe uma
pedra. Sempre correndo, ele se foi às gargalhadas!
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
Misteriosas alucinações, que intrigam, desencadeiam suspense, e atiçam a curiosidade do leitor.
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