Destino vário
* Por Daniel Santos
Há
muito não via alguém bater palmas ao portão de uma casa para pedir um copo d’
água, o que era comum na minha infância. No entanto, tal aconteceu esta semana
a uma vizinha, conforme observei do sobrado.
O
sedento, quase maltrapilho, podia revelar-se um desses assaltantes
oportunistas, mas a pureza de seus olhos denunciava: vinha do interior, de onde
trazia sotaque, poucos dentes e o endereço de um parente.
Confiava
que o encontraria, e não apenas para uma visita ou um reencontro, mas porque
tinha precisão. De tudo. De tudo mesmo. A começar, de um copo d’água. Pois
viajara léguas sem fim para pedir ajuda.
Piedosa,
a vizinha deu-lhe de beber e mais dois pães dormidos para quando sentisse fome.
Só não pode ajudá-lo a encontrar o tal parente, que o endereço não existia.
Ainda assim, prosearam bastante antes da despedida.
E
lá se foi agradecido o brasileiro sem rumo com sua maleta de couro surrado e um
trote miúdo, cheio de manha, como quem dribla o desengano. Seguiu para lugar
nenhum, embora certo de que chegaria.
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e
redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de
São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou
"A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
São os despossuídos, os descamisados do tempo de demagogia de Collor. Final melancólico e poético. Estranho ir para lugar nenhum e ainda assim chegar. Bonito, Daniel. Parabéns!
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