No xópim
* Por
Elaine Tavares
Eu tenho uma amiga chique. E, vez em quando, ela me carrega para alguns
de seus programas chiques. Eu vou, em nome da amizade, mas vou como sou. E foi
assim que ontem ela me chamou para acompanhá-la numa incursão ao xópim da
Beira-Mar.
- Báááá, xópim? Não gosto.. Fico sempre muito tonta dentro desses
lugares. São como caixões coloridos e fulgurantes, mas não deixam de ser
caixões. Não há janelas, não há sacadas, não há a maravilha do mercado a céu
aberto, com cores, ruídos e ar puro. Prefiro as ruas. No geral entro no xópim
quando vou comprar algo específico num lugar específico. Fico tonta mesmo, me
perco, dá falta de ar. Mas, a amiga ia escolher um vestido de gala para
presentear uma sobrinha e eu fui dar um pitaco.
Nossa missão era entrar em todas as lojas chiques que vendem vestidos
chiques para ver os vestidos, e escolher um. Minha amiga estava, como sempre,
chique. E, eu, estava, como sempre, do meu jeito despojado, embora chique (pelo
menos no meu ponto de vista). Calça velha de brim, camiseta com estampa da
Mafalda e uma adorável sapatilha usada pelos camponeses equatorianos. Mas, o
que para mim é lindo, não parecia para as vendedoras das lojas chiques. Nós
entrávamos e elas invariavelmente corriam para a minha amiga, enquanto outra
perguntava, ansiosa, se eu estava junto. Tá bom, era engraçado.
Mas foi na loja Tida, revendedora da Dudalina, que aconteceu o fato mais
doido. Nós já tínhamos percorrido muitas lojas e eu já estava enfadada com
tanto vestido estranho. Pelo meu gosto não compraria nenhum. Enfim. Entramos. A
loja é chiquetérrima, tem até tapete com pele de bicho (acho que é falsa). A
vendedora, solícita, atendeu minha amiga e começou a mostrar uma série de
vestidos empacotados em plástico.
Eu olhava e franzia o nariz. Estava achando tudo muito feio mesmo. Bom,
é o meu gosto. Então, comentei com a minha amiga que aqueles vestidos pareciam
para gente mais velha, e a nossa presenteada era uma garota bem jovenzinha. Foi
aí que a vendedora surtou.
- O quêêêêêê? - E fez uma cara de horrorizada para mim! - "Tu não
conhece Patrícia Bonaldi?" Eu fiquei com cara de paisagem. Não conhecia
mesmo. Ela, me olhava, estupefata. "Patrícia Bonaldi é uma das mais
importantes estilistas do país e ela desenha pra nós". Bueno, me desculpa
a Patrícia e me desculpa a vendedora, mas eu realmente não conhecia. Aquilo
provocou um frisson na loja. As demais vendedoras nos olhavam como se fôssemos
bichos raros. Nos sentimos praticamente empurrada para fora. Havia quase uma
repugnância. E nem adiantou a minha amiga girar sua echarpe de mais de 200
reais ou sua bolsa Pierre Cardin. Estávamos marcadas.
Saímos da loja ligeiras, estupefatas com a estupefação das vendedoras. A
la pucha, como diria meu povo do sul, e tudo por conta de não conhecer Patrícia
Bonaldi. Fiquei pensando se as moças conheceriam a Mafalda, que estampava meu
peito. Provável que não. Mundos distintos...
*
Jornalista de Florianópolis/SC
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