História mal contada
As dificuldades para
que os pesquisadores, ou seja, críticos literários, historiadores de arte,
professores de Literatura e leitores um pouco mais curiosos, detectem nossos “rastros”,
após a nossa morte, são muito maiores do que eu pensava. Isso me assusta e me
preocupa. Em âmbito local, onde vivemos e trabalhamos, os obstáculos são,
compreensivelmente (ou ao menos teoricamente) menores. Mas no plano nacional...
É uma loucura! Tomo por base para essa conclusão o caso do ficcionista baiano
A. Mendes Netto. De sua importância não duvido. Há inúmeras citações, posto que
esparsas, ressaltando sua preciosa contribuição para as letras não somente da
Bahia, mas do País.
Deduzi, de várias menções
(todas elogiosas) sobre sua obra que ele foi destacado expoente do conto
urbano, explorando tipos e cenários, sem dúvida inspiradores, da exótica cidade
de Salvador. Por exemplo, Jorge Amado, ao recepcionar Adonias Filho, na Academia
Brasileira de Letras, em 23 de maio de 1969, proferiu memorável discurso de
boas vindas ao conterrâneo. Em sua fala, que preencheu 32 alentadas laudas,
resumiu o panorama literário da Bahia, com ênfase em seus ficcionistas. Em
determinado trecho dessa oração, o autor de “Tieta do Agreste” ressaltou:
“(...) Para o romancista,
a noção que o sentimento estético impôs, e ao qual não pôde fugir, foi a do
espaço. Observação justa, caracterização perfeita: nela cabemos todos nós, os
do cacau, assim como os da capital, João Cordeiro, Dias da Costa, Vasconcelos
Maia, José Pedreira, Ariovaldo Matos, A. Mendes Netto; os ficcionistas das
Lavras, do São Francisco, do Recôncavo: Herberto Sales, Ruy Santos, D. Martins
de Oliveira, Wilson Lins, Osório Castro, Luís Henrique, Clóvis Amorim (...)”.
Como se vê, nosso
personagem foi considerado importante não somente pelos organizadores da
antologia de contistas baianos, “Histórias da Bahia” (Edições GDR, 1963), que
tomei como base para esta série de estudos, mas por um dos maiores ícones da
Literatura mundial, como foi (e continua sendo, mesmo postumamente) Jorge
Amado. O que me intriga é: se A. Mendes Netto foi tão importante (e está
provado que foi), qual a razão de haver, pelo menos fora do âmbito do seu
Estado, tão escassas (virtualmente, nenhuma) referências sobre ele? Atribuo ao
fato de pouquíssimas pessoas, de fora da Bahia, haverem enfocado esse tão
importante personagem. E de, os eventuais que talvez tenham feito, não haverem
divulgado (não, pelo menos, adequadamente) seus textos nacionalmente.
Considero isso injusto
e não descansarei enquanto não obtiver dados mais precisos a propósito desse
excelente escritor. Sou persistente. Teimoso? Que seja! Mas nunca desisto
quando se trata de fazer justiça com aqueles que compartilhem da minha paixão
pelas letras. A exemplo do que fiz, em relação a Ariovaldo Matos, trago-lhe,
curioso leitor, uma “palhinha” do texto de A. Mendes Netto. Trata-se da
abertura do seu conto, publicado em “Histórias da Bahia”, intitulado “Crispiniano,
o livro e o Pelourinho”, que reproduzo abaixo:
“Tenho
a impressão que esta história vau ser mal contada. É meio complicada. Porém,
não aceito culpa sobre isso. Pelo contrário. Aqui nada mais sou que um simples
narrador, uma pessoa que jamais pôs os olhos em Crispiniano, e que somente
conheceu três cidadãos que riveram o prazer da sua amizade. Segundo informaram,
foram personagens, juntamente com uma série de outros, de um livro que o mesmo
teria escrito. Não sei se isso é verdade. Os meus informantes sempre gostaram
de ser ‘importantes’.
Portanto,
vou contar tudo exatamente como soube, sem alterar nem modificar nada, e
principalmente sem muita preocupação de ordem, isto é, sem, perfeita arrumação
cronológica. Um fato pode ter acontecido antes ou depois de Crispiniano desejar
ser escritor. Pode ser até que muitos não tenham acontecido nunca. Difícil
saber.
É
um diabo quando a gente ouve a história aos pedaços, um contando uma coisa,
outro contando outra.
Os
senhores, portanto, desculpem se houver confusão. E se, porventura, gostarem,
será ótimo. Sim, ia esquecendo: vou contar a história sozinho, deixando no
anonimato os meus informantes. Não desejo comprometê-los, embora a história não
tenha nada demais, não ofenda a moral de ninguém, nem desabone a conduta de
Crispiniano. Enfim, uma história comum.
Mas
por favor não esqueçam: tudo eu ouvi dizer, ouvi contar, até os diálogos que
aparecem uma vez ou outra (...)”
Chama-me a atenção justamente
o início desse conto, em que A. Mendes Netto escreve: “Tenho a impressão que
esta história vau ser mal contada”. Seria premonição dele sobre a forma como
sua biografia seria tratada por este canhestro “escrevinhador”? Claro que não!
Contudo... bem que poderia ser. Por falta de referências a seu respeito (que
devem existir aos montes, mas na Bahia), tenho não a impressão, mas a certeza,
de que “esta história está sendo mal contada”. Ou não?
Boa leitura.
O Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
Pelo menos conseguiu atiçar a curiosidade geral, especialmente ao que se refere ao nome do autor.
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