quarta-feira, 8 de junho de 2016

Amigo urso



O que você faria se um certo número de cartas que você remetesse a um amigo da sua irrestrita confiança, todas em caráter confidencial, subitamente aparecesse na imprensa, com enorme estardalhaço? Como você reagiria, mesmo que elas não contivessem nada de comprometedor à sua imagem, mas se você fosse uma pessoa rigorosamente ciosa quanto à privacidade e detestasse todo tipo de publicidade?

Da minha parte, ficaria furioso e certamente chamaria o sujeito às falas. E se já estivesse morto, meus herdeiros tomariam esta e outras providências, inclusive legais. É verdade que evito falar qualquer coisa que possa vir a me comprometer no futuro, quanto mais escrever. Mas, se escrevesse a um amigo de confiança, precisaria, sequer, lhe dizer para não divulgar essa correspondência? Creio que isso já estaria implícito na nossa amizade, não é mesmo?

Pois foi esse tipo de sacanagem que fizeram com o escritor Jerome David Salinger, mais conhecido como J. D. Salinger, que odiava imprensa, badalação, publicidade e exposição da sua privacidade em público. E por alguém que sempre se disse seu amigo, o que é pior. Amizade desse tipo eu dispenso, estou fora. Caramba, imaginem se esse indivíduo fosse seu inimigo?!

Dez das cartas que Salinger escreveu, por anos, a Michael Mitchel, foram, a partir de 16 de março de 2010, expostas no Museu e Biblioteca Morgan, em Manhattan, Nova York. Recorde-se que o autor de “O apanhador no campo de centeio” defendeu, em vida, com unhas e dentes, irrestrito respeito à sua privacidade. Espantou, por anos, os curiosos e quetais dos arredores de sua casa, que mais parecia uma fortaleza medieval. Estava no seu direito, claro.

Por que digo que quem trai uma amizade é “amigo urso”? Vocês, certamente, já viram em circo, ou na TV, esse enorme e forte animal. De longe, parece dócil e amigável e não passa pela nossa cabeça que possa atacar alguém e muito menos matá-lo.

Alguns domadores arriscam-se, até, confiando nos anos de treinamento dessas feras, a permitir que estas os “abracem” em exibições para platéias. A maioria escapa incólume do tal abraço. Alguns, porém, têm a desventura de terem as costelas esmagadas como se fossem gravetos secos e os pulmões perfurados pelas costas, pelas garras desses animalões, alguns dos quais, quando de pé, chegam a atingir quase três metros de altura. Eu, hein!!!

Determinados amigos são assim. Parecem afáveis e cordiais, totalmente inofensivos, mas quando nos abraçam, podem quebrar nossas costelas e perfurar nossos pulmões. Em vez de abraços amigáveis, nos dão golpes homicidas e destrutivos. Pois é, o tal “amigo” de Salinger agiu assim em relação ao escritor.

Michael Mitchel é artista e desenhou a capa da primeira edição de “O apanhador no campo de centeio”. O romancista gostava dele e parecia confiar no tal  sujeito  Chegou a confidenciar a parentes que ele e sua esposa eram os “amigos mais próximos” que tinha. E não só proximidade física, já que eram vizinhos, mas, sobretudo, a afetiva.

Essas dez cartas, postas em exposição, foram doadas, à Morgan, em 1998, com a recomendação expressa de serem mantidas em estrito sigilo enquanto o romancista vivesse. Fosse Mitchel, porém, amigo leal, teria comunicado o escritor sobre a doação (quando não, lhe pedido autorização para isso). Não comunicou, como acabou admitindo. Portanto, traiu-o!

O responsável por textos históricos da instituição, Declan Kelly, admitiu na ocasião, à agência de notícias EFE, que “Salinger ficaria muito incomodado com a mostra” se estivesse vivo. Mas justificou-se: “Agora não há motivos para não compartilhá-las” (no caso, as cartas). “É um tributo a um dos grandes autores norte-americanos”, acrescentou.

Na verdade, as cartas não contêm nada de comprometedor à imagem de Salinger, como já salientei. Nelas o escritor expressa, por exemplo, opiniões sobre artistas – como o ator Lawrence Olivier, de quem disse tratar-se de “pessoa muito simpática” e a atriz Vivian Leigh, a quem chamou de “encantadora”, os quais conheceu numa festa em Londres e com quem debateu aspectos da vida e da obra de Franz Kafka – fala de suas visões sobre o amor, comenta textos que estava escrevendo (que nunca, no entanto, publicou), refere-se ao casamento e reitera diversas vezes sua aversão à publicidade, entre tantos outros assuntos, até mais triviais e corriqueiros.

Bem, é verdade que após muitos anos de amizade, Salinger já havia rompido relações com Mitchel, e muito antes da morte,. Desconhece-se a versão do escritor sobre os motivos do rompimento. Só há a do “amigo urso”.  E, segundo este, Salinger pôs fim à amizade de anos somente porque lhe pediu “uma cópia autografada da primeira edição de ‘O apanhador no campo de centeio’”. Será?!

Embora o escritor fosse, mesmo, sujeito esquisitão, é difícil de acreditar que a ruptura de uma amizade tão longa tenha se dado apenas por causa disso. Enfim... nunca se saberá se esta é a verdade, já que, quem poderia dar versão esclarecedora a respeito há já bom tempo deixou o mundo dos vivos (se é que existe algum outro mundo destinado exclusivamente aos mortos, no que não creio).

Boa leitura.


O Editor.

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Um comentário:

  1. Inacreditável que um amigo ou ex-amigo faça isso. Mas fez.

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