sexta-feira, 17 de junho de 2016

Direita, volver: criança executada


* Por Urariano Mota


Nas primeiras notícias, diziam que os bandidos eram do Morro do Piolho, e com isso queriam dizer que eles eram tão repugnantes quanto piolhos, os parasitas sujos que se matam com asco. Essa era a sua primeira apresentação, ou representação. Depois, que eram meninos – meninos, em lugar de crianças – para acentuar a gradação do sentimento entre uma palavra e outra. Meninos são seres de duas pernas e dois braços que correm nas ruas. Crianças, não, são os nossos filhos, uma graça que amolece o coração da gente. "Deixar vir a mim as criancinhas", uma vez falou Jesus. Então, as crianças do Morro do Piolho somente podiam ser meninos. Mais adiante acrescentaram que além de meninos eram ladrões, bandidos, e armados. Uns diabos precoces do crime prontos para atirar e tirar a vida de qualquer cidadão. Caracterização completa. A partir de tais personagens a cena do crime foi armada.

Um perigoso marginal de 10 anos, dirigindo um carro que roubara, atirou três vezes em policiais militares de São Paulo, e por isso recebeu a sua justa recompensa: um tiro na cabeça. O outro menor que o acompanhava, menos precoce, pois já na idade madura de 11 anos, escapou de morrer encolhido no banco traseiro do carro. As primeiras informações do homicídio, quero dizer, do infanticídio, vinham assim.

A repórter da Rede Globo nos tranquilizava: "Ainda bem que ninguém foi atingido". Ela fala e põe a seguir uma adversativa: "Mas de qualquer maneira...". Mas não tem mas. Essa diferenciação entre quem devia morrer e quem não já havia sido cometida. Um habitante piolho havia sido esmagado. E a repórter, boa repórter insensível ao escândalo do som do crash em um piolhinho, entrevistava um digno habitante da zona sul, que passeava com um cachorrinho:

"Eles não tinham como conseguir uma velocidade muito alta. Mas o moleque de 10 anos conseguiu se evadir, desviar. Foi impressionante a habilidade que ele tinha em dirigir o carro. Tanto, que eu pensei que era uma pessoa se protegendo, baixando a cabeça. E não era. Era uma pessoa de baixa estatura, uma criança".

O repórter da tevê, em frente à delegacia, chamou o caso do assassinato de uma "história insólita". Primeiro informou que o menino (não a criança) tinha 13 anos. A cobertura na imprensa, pra variar, pintava um monstro mais velho na vítima. Só mais tarde, a idade caiu para 10. E os repórteres falaram mais, atenção: as crianças tinham antecedentes criminais e eram filhos (o que morreu) de um presidiário e de uma ex-presidiária. Portanto, o crime virava um autêntico CQD de teorema na matemática. Filho de quem era, morador do Piolho, e com antecedentes de hostilidade ao convívio social, o que esperar? César Tralli (lembram-se das grandes reportagens em que ele aparecia como o correspondente avançado e preferencial da Polícia Federal? – ele mesmo), lamentava com o ar mais hipócrita que, bem, era uma pena crianças estarem envolvidas em crimes, com tão pouca idade. Logo, que fazer? Fez por merecer. Como falou outro apresentador, em um ato falho: "Esse exemplo que tem que ser eliminado". Entendemos quanto.

Na Globo News os comentaristas do Em Pauta mostraram uma indignação que nadava entre aspas, porque o discurso foi o de lágrimas e comoção sobre o destino das CRIANÇAS CRIMINOSAS no Brasil. Isso mesmo, um roteiro de hollywood para o assassinato de crianças perdidas, sem salvação, do Brasil. Mas os comentaristas se desviavam do mais importante: a violência policial, a violência costumeira da PM paulista. E o paradoxo maior: a execução da criança se deu às 19 horas, mas só depois de mais de CINCO horas o boletim de ocorrência foi registrado pelos PMs. Por quê? O que fizeram os policiais de tão importante antes de apresentarem esse caso escandaloso de assassinato? A nossa triste experiência dos relatos de assassinatos na ditadura nos dava a desconfiança. Plantaram um revólver nas mãos da criança, e depois plantaram uma história sobre a cabecinha do menor de 11 anos, que sob ameaça de morte declarou que o seu amigo atirava com um revólver.

No Jornal Nacional, o maior destaque em 3 de junho foi para a criança do Japão, abandonada pelos pais na floresta japonesa. Está certo, é um descaso de ferir os corações internacionais. Está certo, mas, na hora de mencionar o assassinato maior, o grande Bonner repetiu a versão da polícia, a saber, que a criança estava armada, que atirou nos policiais, etc etc. Ou mais precisamente:

Corregedoria da PM abre investigação sobre morte de menino de 10 anos

Garoto dirigia carro que tinha roubado com o amigo de 11 anos.

Mãe do menino que morreu disse que o filho não tinha arma.

A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo abriu investigação sobre a morte de um menino de dez anos por policiais. A polícia perseguia o carro que o garoto e um amigo de 11 anos tinham roubado na quinta (2) à noite. Quando ele parou no meio da avenida, policiais se aproximaram e apontaram as armas.

No boletim de ocorrência, dois PMs disseram que o menino que estava na direção atirou e que eles revidaram. A diretora do departamento de homicídios diz que não era possível ver quem estava dentro do carro porque os vidros eram escurecidos".

Notem o preciosismo: a delegada do DHPP contou que a polícia não sabia que um menor dirigia, porque o vidro fumê do carro estava levantado. A contradição é clara com o depoimento de um morador visto nas primeiras reportagens. Mas é digno de registro que estávamos diante de um supermenino:

"Segundo a delegada, o garoto que acompanhava o menino morto depôs duas vezes à polícia nesta sexta. Ela leu o depoimento do garoto, que tem 11 anos. Ele teria dito, em depoimento, que eles foram alertados para que parassem e que seu amigo não obedeceu e efetuou dois disparos de dentro para fora enquanto o carro estava em movimento e uma terceira vez após baterem". Nada desse roteiro de fantasia medíocre causava espanto. Se para uma adulto é difícil manter uma mão no volante enquanto com a outra atira, imagine-se para uma criança de 10 anos. Mas nada disso era considerado, à semelhança dos processos de culpa em uma inquisição. Esse é um terreno onde a lógica não tem razão. E detalhe infernal, segundo a delegada: "O menino usava uma luva para dirigir motocicleta em uma das mãos. A luva foi colhida para ver se tem algum resquício de pólvora".

Essas coisas, esses relatos eram divulgados sem sequer uma nota de repúdio da ética ou da sensibilidade. Na onda fascista que invadiu o Brasil, que vem na crista do pior congresso e do golpe contra o voto universal, a indignação virou um sentimento démodé. Os comentários nos sites eram um primor, perdoem a macabra antologia:

"Carro roubado e os policiais que estão errados? A mãe está chorando por quê? Abandonou o filho à própria sorte na rua. Quem não educa chora. Apontar uma arma para subtrair algo configura incontestável 'grave ameaça'! Esses garotos cometeram ROUBO e não 'FURTO' como está descrito na reportagem! É uma pena que não tenham eliminado os dois, fatalmente o outro vai matar alguém algum dia".

Os comentários fascistas se completavam com as reportagens, como aqui.

"O comandante-geral da Polícia Militar (PM) de São Paulo disse que a reação dos policiais que mataram um garoto de 10 anos na região do Morumbi, zona sul da capital paulista, foi legítima e proporcional. Para o coronel Ricardo Gambaroni, era uma situação de confronto e os militares não tinham como saber se dentro do carro havia crianças ou bandidos fortemente armados... O governador de São Paulo também falou nesta segunda-feira sobre o episódio. Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou que o fato do menor morto estar armado e ter atirado contra a polícia não pode ser desprezado. Ele disse ainda que vai aguardar as investigações para comentar melhor o caso".

Estava tudo muito bem, um bandidinho miserável havia sido morto, até o momento em que se confirmaram as suspeitas da mentira dos relatos mostrados até então. Em 7 de junho soubemos: Em nova versão, colega de 11 anos diz que Ítalo não estava armado.

"O menino de 11 anos que presenciou a morte do garoto Ítalo, 10, durante perseguição policial na região do Morumbi na última quinta (2) apresentou uma nova versão do suposto confronto com PMs.

Agora, ele disse que só os policiais atiraram e que nem ele nem seu colega estavam armados. Afirmou que o revólver calibre 38 atribuído a Italo foi 'plantado' pelos PMs para justificar a ação....

'Com essa versão, os indícios de execução sumária cometida pelos PMs ficam mais fortes. Uma criança de 10 anos não teria condições de dirigir um veículo, estando com uma arma na mão e ao mesmo tempo abrindo e fechando o vidro pra fazer disparos', disse o advogado Ariel de Castro, membro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos)"

Agora se sabe. Mas por que a saudável desconfiança diante de mais uma execução de marginalizados não percorreu as reportagens? Por que não pesquisaram, colheram elementos que confirmassem ou não que um supermenino atirava e dirigia ao mesmo tempo? Simples. Matar uma criança deixou de ser escândalo. Ou melhor, matar um menino do Piolho é menos que nada. Merece aplausos. Eis aí um feito para dar medalhas aos bravos que tiram da vida o lixo desses meninos.

*No Diário de Pernambuco de 12 de junho de 2016.

* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”.  Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.


Um comentário:

  1. Que tristeza, que história escabrosa, para lá de bem contada.

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